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Cultura que transforma: artistas do Juramento, Manguinhos e Penha ocupam espaço com arte e identidade

Da poesia ao grafite, a arte reinventa os morros e vielas

Juramento. Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades
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A favela fala! Seja através dos muros, das movimentações do corpo ou do jeito de se comunicar. Morros, becos e vielas transmitem saberes que impactam e transformam vidas. A arte e suas diferentes vertentes funcionam como ferramenta de denúncia e criatividade para essa população. Mas, é preciso reconhecer as tecnologias culturais criadas por pessoas faveladas para transformarem as próprias vivências.  

Cria do Morro do Juramento, zona norte do Rio, Felp tem 23 anos e é artista visual. Suas primeiras telas foram os muros da sua favela. O pixo e depois o grafite deram as boas-vindas para ele no mundo artístico ainda na adolescência.  

“A arte mais próxima daqui é o grafite. Em 2018. eu comecei a pixar. Porque é o mais próximo assim. Tá na escola e tá com uma caneta ou com uma lata de spray que tu pinta a bicicleta e sobra um pouco de tinta. Você começa a querer botar seu nome no lugar. Me sentia ocioso, era novo e queria ser visto. Queria passar em um lugar e ver meu nome ali”, conta Felp.  

E foi entre as andanças e descobertas de cores que ele fundou o Jura Artes, um mutirão de grafite que revitaliza as praças e colore os muros do Juramento. O evento é marcado pela disposição dos artistas convidados e dos moradores. A última edição, em abril, contou com 80 artistas.  

A produção é completamente independente. Tem vakinha, doações e tudo para fazer acontecer o contato da arte com a favela. “Tenho esperança de ver o Juramento voltar a sorrir e não abandonado e esquecido como estamos há décadas”, sonha Felp.  

Lá no Manguinhos, a arte rabisca o chão. Vindo de uma família nordestina que sempre teve contato com a música, foi no passinho que Yure IDD deu seus primeiros passos. O ‘Imperadores da Dança’ não só lhe deu um sobrenome como também uma escuta atenta as batidas.  

Nesse sentido, Yure passou a criar Beats para dançar. O que era curiosidade se tornou um talento. Hoje, ele compartilha suas criações nas redes sociais que são marcadas pelo humor e sagacidade.  

“A partir da dança que meu nome começou a expandir. Procurei fazer batida para dança. Sabia como funcionava, mas não sabia como construir. Comecei a pesquisar como montar por pura curiosidade. Acompanhava os BPM, antes era 130 e foi aumentando. Sem intenção nenhuma, da dança veio a produção, depois a carreira como DJ. Hoje pego qualquer tipo de barulho, seja voz ou palma, e tento transformar em batida.” 

Hoje, o passinho é patrimônio cultural do Rio de Janeiro. Mas já foi criminalizado e lido como algo profano. E com os profissionais da área não são diferentes. Yure é referência, mas não deixa de sofrer abordagens violentas. Comprovar a inocência nessas situações virou sinônimo de mostrar seu trabalho como DJ. A genialidade de Yure é referência para as crianças e orgulho para sua família. “Eu me entender como artista veio na proporção que as coisas tomaram. As crianças me veem e ficam encantadas que eu mando mortal, tá ligado? Às vezes eu tô na porta de casa e elas pedem: ‘Coé tio, manda mortal’. Isso é muito legal. Sempre faço coisas que impressionam para chamar atenção e ser de forma diferente. Na favela tem muito DJ sinistro. Só precisam de um espaço”, explica Yure.  

Assim como não falta ritmo, também não faltam palavras. A poesia também ecoa nos morros através dos slams. As batalhas de poesia nas favelas descobrem novos talentos e exploram sentimentos que precisam ser contados. Na Penha, o Slam Sereno realizam um trabalho fundamental desde 2019.  

Winona Evelyn, de 29 anos, conheceu as batalhas de poesia através da Slam Laje, realizado no Complexo do Alemão, por MC Martina e sua equipe. Para ela, esse momento “foi um divisor de águas”.  

“Quando eu conheci a poesia através da slam, eu tive uma abertura de mente incrível. A partir desse momento eu me reconheci enquanto pessoa. A partir da Slam Laje eu passei a me reconhecer enquanto favelada, artista. Lá também conheci uma pessoa que me levou até a Aldeia Marakanã, aí eu me vi, e com o tempo comecei meu processo de retomada. Sou muito grata”, relembra Winona 

A identificação é a palavra que moveu a presença de Winona nos slams. As poesias na escola não faziam muito sentido para quem vive a correria de ser cria da favela. Mas por em palavras, sentimentos e experiências recriou um imaginário. Enquanto indígena em retomada do povo Goytaká, Winona compreende a necessidade de valorizar a cultura índigena e a arte favelada. A Slam Sereno convidou o coral da Aldeia Marakanã para se apresentarem no Morro do Sereno, na Penha, provocando uma troca de saberes ancestrais entre a favela e a aldeia. “A periferia também é um espaço muito indigena. Mas o apagamento é muito forte e muitos não conseguem se reconhecer como tal. As crianças ficam sempre maravilhadas”, explica Winona. 

Para ela, a arte é uma ferramenta de transformação social e formação. “Incentivo todo mundo. Acho que todo mundo é artista. A arte é uma ferramenta potente porque consegue adentrar as pessoas. O que precisa ser falado ou ouvido consegue ser absorvido de uma forma melhor através da arte. A vida é uma grande arte. Mas  fizeram as pessoas se esqueceram e se afastarem desse pensamento e cosmovisão”, relata Winona.