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Do corte ao estilo da roupa: a estética de cria como expressão de cultura, beleza e pertencimento da favela

Barbearias, marcas e jovens criadores fortalecem a identidade estética das favelas cariocas e rompem estigmas

Arte: Tamires Aragão
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Cabelinho na régua, traje de cria. Dezembro oficialmente chega, as barbearias lotam e as marcas de roupa veem as vendas crescerem. O movimento não é apenas estético, é cultural. A favela dita o verão em todas as esferas. Na internet ou nas ruas, o reflexo alinhado no cabelo e a camisa de time tomam conta. 

No código de estética do cria de favela, o estilo representa a atitude. E é por essa linha que o barbeiro Leonardo Souza e os criadores da marca de roupas Pormenor, Matheus Almeida e Bernardo Cordeiro, constroem o movimento estético e de autoestima refletindo a vivência pura do subúrbio e da favela carioca. 

A Pormenor nasceu em 2016, inspirada nas vivências em Bento Ribeiro, bairro da Zona Norte do Rio, e na cultura de rua – principalmente as batalhas de rima. “A nossa marca nasceu com essa pegada periférica, de falar da nossa área, dos nossos, da nossa cultura”, explica Bernardo Cordeiro. 

Foto: Uendell Vinicius/Voz das Comunidades

O início da trajetória é parecido com a do barbeiro Leonardo Souza, de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense, que venceu neste ano o concurso Batalha dos Barbeiros. “Comecei trabalhando em casa, depois entrei para a minha primeira barbearia e fui sempre buscando evoluir. Um dia comecei a postar vídeos na internet, alguns estouraram, fui ganhando visibilidade”, explica. 

Nas coleções da Pormenor, camisas inspiradas em times e elementos do subúrbio carioca tomam vida. Pelo olhar de Bernardo e Matheus, a marca reivindica o impacto da periferia dentro da moda. “A Pormenor é isso. Mostrar que dá para estar em qualquer lugar mantendo sua identidade. O cria sempre foi vaidoso: tênis da moda, cabelo bem cortado, cabelo platinado. A estética sempre esteve ali, mesmo sendo tabu. Às vezes, quando lançamos algo mais ousado, há resistência. Faz parte da conversa”, conta Matheus. 

No fim de ano, a tendência estética é “lançar” um reflexo alinhado, ou pigmentar o cabelo com a cor vermelha, preta ou roxa. “Dentro da favela isso faz parte da identidade. O estilo destaca a pessoa, chama atenção. Hoje, como referência com meu trabalho, quando eu lanço algo e outro amigo lança também, logo vira tendência”, afirma Leonardo. O barbeiro ainda revela o que o público mais busca no momento 

Os cortes que a galera mais procura agora são os reflexos alinhados, que estão muito em alta. O público mais jovem pede muito”, conta. 

Apesar da estética de cria ser uma febre, os estigmas ainda são grandes. “A moda masculina na favela nunca foi vista como moda de verdade. Muitas vezes era olhada com preconceito. Mas a estética masculina da favela é única e rica”, defende Bernardo. “Para mim, como homem criado nessas áreas, entender o impacto da moda na minha expressão foi fundamental. As pessoas te olham e te julgam pelo que você veste.” 

A discriminação estética também está enraizada no estilo de cabelo, como explica Leonardo Souza. “O preconceito é complicado. Tem mãe que não deixa o filho pintar porque diz que é ‘corte de bandido’. Eu postei um vídeo de um cabelo vermelho que bateu 3,5 milhões de visualizações. Se você ler os comentários, tem gente falando de facção, de política, de tudo. Mas aquilo ali não tinha nada a ver com isso”, revela. 

Apesar do preconceito, do racismo, a cultura estética das favelas cariocas tem recebido destaque mundial nos últimos anos. O rapper Oruam, cria da Cidade de Deus, estampou a capa da revista britânica Dazed em junho deste ano. No futebol internacional, o ponta-direita do Barcelona, Lamine Yamal, também estreou o loiro pivete, que foi consagrado há muitos anos nas favelas cariocas pelo grupo Os Hawaianos

Ao lado de diversos nomes consagrados, a cultura estética da favela carioca emerge com uma nova geração de artistas, designers de moda e profissionais da indústria da beleza. Na trajetória profissional de Leonardo Souza, o estudo segue presente.  

“Hoje eu tenho mais de 30 certificados. Para trabalhar com pigmentação, tintura, reflexo, você precisa se especializar. Não dá para fazer tudo ao mesmo tempo. Eu fui aprendendo aos poucos. Até hoje eu continuo treinando, chamando modelo, testando técnica nova. Evolução é constante”, destaca o barbeiro. 

Bernardo Cordeiro e Matheus Almeida seguiram o mesmo caminho do estudo para construir a identidade da Pormenor. “Na época [que começamos], a gente começou a ir a várias palestras de gente que já tinha empresa consolidada”, explica Matheus. 

Bernardo Cordeiro e Matheus Almeida, da Pormenor, transformam vivência de Bento Ribeiro em identidade de moda. Foto: Uendell Vinicius/Voz das Comunidades

Com a força crescente da cultura estética da favela carioca, o mercado da moda também se movimenta para fazer parte das conversas. Campanhas publicitárias, editoriais e desfiles incorporam elementos anteriormente rejeitados, hoje acompanham o comportamento da periferia. Para Bernardo Cordeiro, se apropriar não é o suficiente.  

“O que falta para muitas marcas é justamente incluir criadores que realmente fazem parte das zonas marginais. Tendência qualquer um replica, mas vivência ninguém copia. Uma marca gringa pode tentar fazer “Brasil core”, camisa com modelagem de time, mas o principal não tem como ter: o tempo, o local de origem, a relação com a rua”, destaca. 

O estilo da favela e do subúrbio estão conectadas Foto: Tick Oliveira