No coração da Nova Brasília, no Complexo do Alemão, um equipamento cultural segue cumprindo, há 16 anos, um papel que ultrapassa a simples exibição de filmes. O Cine Nova Brasília, inaugurado em 25 de dezembro de 2009, tornou-se referência de democratização do acesso ao cinema e consolidou uma nova relação da comunidade com a sétima arte. A história por trás desse espaço, porém, começa bem antes da reinauguração, ainda na década de 1970.
Um sonho antigo que encontrou caminho no PAC
Wellington Cardoso, morador e um dos idealizadores do projeto, recorda que, há mais de quatro décadas, um morador realizava pequenas sessões ao ar livre na quadra da Brasília. “Durou pouco, mas marcou aquela geração”, conta. A lembrança ficou guardada, até que, durante as obras do PAC no Alemão, surgiu a oportunidade de transformar o antigo desejo em um cinema de verdade.
A iniciativa foi articulada por personagens fundamentais: Marcelo Miranda, responsável pelo conceito da Praça do Saber; Alexandre Cardoso, então à frente do PAC pela prefeitura; e Cidinho, presidente da associação local. A praça seria composta por três módulos: a Nave do Conhecimento, o espaço de desenvolvimento infantil e um terceiro equipamento, ainda indefinido. “Não sabiam o que colocar no último módulo, e aí veio a ideia do cinema, que seria um espaço de inclusão digital”, explica Wellington.
Mesmo com o projeto no papel, houve resistência. Grandes exibidoras se recusavam a instalar salas dentro de uma favela. “Ninguém queria aceitar”, relembra. A persistência venceu. Primeiro veio a Cinemagic, depois Planet Cinemas, Grupo Casal e, atualmente, a GW Cinemas. Hoje, quando o Cine Nova Brasília completa 15 anos, é difícil imaginar o Alemão sem ele.

A transformação pelo acesso
Desde sua inauguração, o cinema se tornou mais do que um ponto de lazer, virou um espaço de debate, convivência e formação de público. “A cultura quebra paradigmas. O cinema permite que as pessoas percebam que existe um mundo a ser desbravado”, reflete Wellington. Ele próprio teve a vida transformada pelo equipamento. “Eu vim do mercado bancário. Gerenciar o cinema mudou meu intelecto, meu modo de ver o mundo. É contagiante.”

O Cine Nova Brasília já recebeu exibições especiais, debates com artistas, como o ator Caio Blat, e mobilizou moradores para discussões políticas e sociais a partir dos filmes. O espaço também inspirou a criação de novas salas populares, como o Cine Carioca Penha, o Cine Matilde, em Bangu, e futuros projetos em outras áreas da cidade.
Parte desse impacto vem de um compromisso constante em manter preços que cabem no bolso da comunidade. Enquanto grandes redes aumentam valores de ingressos e combos, o Cine Nova Brasília preserva tarifas acessíveis. “É essencial manter o mesmo preço para ingresso e pipoca. Isso garante que a comunidade continue consumindo cultura”, explica Wellington.
Um cinema que pertence ao território
Entre os frequentadores está o autônomo Leonardo Curcio Neves, de 28 anos, morador da comunidade. Ele lembra com nitidez sua primeira sessão: “Eu frequento desde a inauguração, quando assisti ao filme Rio”. De lá para cá, nunca parou. Vai ao cinema toda semana e, sempre que possível, leva as crianças da comunidade.
Para Leonardo, o impacto é direto: “Muitas crianças e jovens não têm condições de ir a cinemas de shopping. O Cine Nova Brasília é fundamental. Somos muito gratos por ter acesso aos mesmos filmes das grandes redes, mas com preço adequado à nossa realidade.”
16 anos de resistência e futuro em expansão
Com acessibilidade, tecnologia e vínculo profundo com os moradores, o Cine Nova Brasília tornou-se parte da identidade cultural do Complexo do Alemão. O que começou como uma lembrança da década de 70 virou um símbolo da potência do cinema popular dentro das favelas, um equipamento que democratiza narrativas, cria oportunidades e celebra, todos os dias, a capacidade da cultura de transformar vidas.
Agora, ao fazer mais um aniversário, o cinema não apenas celebra sua história, mas reforça um movimento crescente, que é o de levar mais salas populares à cidade. Um convite para que outras comunidades recebam o mesmo direito, o de se ver, se emocionar e se imaginar nas telas.

