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Cidade Integrada completa 1 ano no Jacarezinho sem muitas mudanças para moradores

Moradores relatam que ações socias foram interrompidas e até órgão estadual fechou as portas dentro da comunidade
Foto: Marcia Foletto / Agência O Globo
Foto: Marcia Foletto / Agência O Globo

“Todos têm o direito de viver com dignidade, de ter oportunidades e segurança pública e é isso que o Cidade Integrada está levando a essas comunidades. Nosso foco são os mais vulneráveis, os idosos, os jovens e as mulheres. Estamos implantando ações transformadoras.Essas foram as palavras do Governador Cláudio Castro, no dia 22 de janeiro de 2022, enquanto anunciava o Programa Cidade Integrada. Naquele mesmo dia, horas antes, a Polícia Militar havia feito uma operação policial na comunidade do Jacarezinho, uma das primeiras comunidades a receber o programa.

Após a implantação do Cidade Integrada, os moradores sentiram o impacto das mudanças. Mesmo com a distribuição de folhetos informativos anunciando novos projetos e ações sociais dentro da comunidade, ainda era visível o clima de instabilidade. Relatos de invasões de domícilio por parte da PM chegavam à imprensa, seguidos de abusos de autoridade e confrontos. A população passou a viver com medo de represálias.

Agentes da PM fazem ronda no Jacarezinho (Foto: Bruno Itan)

Os projetos prometidos pelo governador ocorreram, de fato, mas não demorou muito para que as iniciativas não fossem continuadas dentro da comunidade.“Pura maquiagem!”, relata um morador que não quis se identificar. “Não vi melhoras, de forma que beneficie nos trabalhadores e moradores da comunidade”. A comunidade perdeu o Projeto Na Régua, que reformava casas da comunidade que se encontrassem em situações precárias. “Eles reformaram umas oito casas e depois nunca mais”. Outra ação social, Projeto Besouro, qualificaria mulheres para o mercado de trabalho, além de contribuir com uma ajuda de custo de R$300, também perdeu continuidade. “Algumas alunas estão sem receber e o projeto não teve mais turmas novas”. Os relatos se mesclam no que diz respeito ao comércio local. Na percepção de uma moradora “O comércio está cada dia mais fraco. As pessoas vêem o caveirão passar e acham que vai ter algum confronto. Aí fecham e vão pra casa”. Sobre os projetos acima citados, um relato lamenta. “Besouro falido, Na Régua falido. Infelizmente”.

Foto: Leonardo Carrato
Comunidade do Jacarezinho fica localizada na Zona Norte do Rio de Janeiro (Foto: Leonardo Carrato)

Eu sinto que a única coisa que mudou foi a presença da polícia fortemente armada e caveirão com fuzil apontado pra gente o tempo todo. Essa violência afeta muito nosso dia a dia, principalmente o comércio e o lazer.

Moradora do Jacarezinho

Questionado sobre alguma vantagem que o programa tenha trazido que ainda seja expressivo dentro do Jacarezinho, um morador relata que o governo oferece refeição aos mais necessitados. Outra vantagem que o Cidade Integrada levou à comunidade foi uma unidade do Detran para os motoristas da região, mas a unidade não funciona mais no local. “Os moradores tem que ir pra Penha ou Méier pra conseguir atendimento. Foi só em um primeiro momento. Depois não teve mais nada.” Na visão de uma das moradoras da Comunidade do Jacarezinho, as propostas do Cidade INtegrada foram muito prometidas, mas nada foi entregue além da presença da polícia. “Milhões de reais que poderiam ser investidos nos locais de saúde, lazer e educação do Jacarezinho, e nada foi feito. A favela segue cheia de bala de tiro do Estado.

A jornalista investigativa com especialidade em segurança pública e diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado, Cecilia Olliveira, questiona as ações do governo estadual até o momento na comunidade do Jacarezinho e em Muzema. “O Cidade Integrada é, mais uma vez, só mais um projeto com prazo de validade, assim como foram as UPPs, o Grupamento de Policiamento em Áreas Especiais (GPAE) e os Destacamentos de Policiamento Ostensivo (DPO), em gestões passadas – mas muito, muito menor. O Rio de Janeiro segue sem um plano de segurança pública”, defende.

Cecilia Olliveira é diretora executiva do Instituto Fogo Cruzado (Fonte: Arquivo)

A cientista também faz um comparativo do cenário do Rio de Janeiro no que tange a segurança pública. “Olhe o Rio de Janeiro de 20 anos atrás e olhe hoje. O que melhorou? Pelo contrário, piorou.” Cecília cita o Mapa dos Grupos Armados que foi produzido pelo Instituto Fogo Cruzado em 2022 e que mostrou um aumento de 52,9% atuando em mais áreas do que há 16 anos. Ainda conforme o relatório, milícias cresceram 387,2%. “A população segue abandonada na segurança pública”, conclui a jornalista.

A equipe do Voz das Comunidades entrou em contato com a Assessoria da Polícia Militar, com o Instituto de Segurança Pública e o setor de Governadoria do Estado do Rio de Janeiro. Em nota, o Governo do Estado do Rio de Janeiro escreveu que o Cidade Integrada buscou propriciar a inclusão social e a entrada de serviços públicos às comunidades do Jacarezinho, Manguinhos e outras comunidades localizadas no corredor do Itanhangá. A nota defende que “as ações inseridas no contexto das comunidades que receberam o Programa Cidade Integrada foram concentradas no eixo social, de infraestrutura, transferência de renda e segurança pública”. A nota também relata que números ligados a criminalidade foram reduzidos devido ações da polícia nas comunidades. Especificamente sobre o Jacarezinho, a nota informa que o policiamente é realizado por equipes da UPP local e pelo Comando de Operações Especiais da PM. Por fim, sobre o Jacarezinho, a nota finaliza, dizendo que “as equipes policiais seguem atuando em ambas as comunidades com ações pontuais. No Jacarezinho, ações para a remoção de barricadas ainda são desencadeadas.”


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EDITORIAS

PERFIL

Rene Silva

Fundou o jornal Voz das Comunidades no Complexo do Alemão aos 11 anos de idade, um dos maiores veículos de comunicação das favelas cariocas. Trabalhou como roteirista em “Malhação Conectados” em 2011, na novela Salve Jorge em 2012, um dos brasileiros importantes no carregamento da tocha olímpica de Londres 2012, e em 2013 foi consultor do programa Esquenta. Palestrou em Harvard em 2013, contando a experiência de usar o twitter como plataforma de comunicação entre a favela e o poder público. Recebeu o Prêmio Mundial da Juventude, na Índia. Recentemente, foi nomeado como 1 dos 100 negros mais influentes do mundo, pelo trabalho desenvolvido no Brasil, Forbes under 30 e carioca do ano 2020. Diretor e captador de recursos da ONG.

 

 

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