O mês de junho de 2026 marca um período de virada para a economia dentro das favelas e periferias do estado. Sob o impulso duplo do Dia dos Namorados e, principalmente, do início da Copa do Mundo, os empreendedores e comerciantes podem esperar uma das maiores movimentações financeiras dos últimos anos. No centro dessa engrenagem econômica, um fenômeno estético e cultural dita o ritmo das vendas: o “Brazilcore”. A tendência, que estampa o verde, amarelo e azul em roupas, acessórios e itens de beleza, movimenta o bolso. O que move de verdade essa tendência está na cara: é a identidade das favelas cariocas.
Para compreender o quanto esse período mexe com as pessoas, as projeções apontam que o impacto do mundial de futebol funcionará como um verdadeiro motor para o consumo popular. De acordo com a mais recente pesquisa nacional de intenção de compra realizada pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Brasil), divulgada em maio de 2026, estima-se que 99,2 milhões de brasileiros devem ir às compras motivados diretamente pelo evento futebolístico. O levantamento aponta que cerca de 60% de todos os consumidores do país planejam adquirir produtos ou serviços voltados à Copa. Somado ao Dia dos Namorados, os setores de vestuário, calçados e cosméticos também serão tomados pela febre verde e amarela nas vitrines
A Voz de Quem Cria: A Favela como Origem do Estilo
Apesar de o mercado formal ter adotado o termo em inglês core para empacotar a tendência como novidade de mercado, quem vive a realidade da periferia sabe que essa estética tem assinatura e endereço antigos. Juliana Henrik, diretora do projeto Favela é Fashion e um dos nomes mais influentes no mercado de moda urbana, com seu olhar aguçado para castings periféricos, explica com precisão o resgate dessa linguagem.

“Com certeza. A favela sempre viveu o Brazilcore antes mesmo dele virar tendência nas passarelas ou ganhar nome na internet. O uso das cores do Brasil, das camisas de time, dos biquínis coloridos, dos chinelos, dos acessórios artesanais e da mistura de referências sempre fez parte da nossa estética popular. A diferença é que agora o mercado da moda começou a olhar para algo que a favela já criava há muito tempo de forma natural, autêntica e cheia de identidade.”
Esse fenômeno de consumo também marca uma reconciliação estética e social. Nos últimos anos, as cores da bandeira nacional estiveram fortemente associadas a disputas políticas e polarizações ideológicas, o que afastou uma parcela de consumidores do uso cotidiano dessas peças. Em 2026, com o empurrão da juventude conectada e das expressões artísticas urbanas, o manto canarinho foi despido dessas amarras. Quando questionada sobre os motivos desse resgate na exaltação das cores do país, Juliana Henrik aponta para uma virada no comportamento coletivo.
“Acho que as pessoas estão resgatando o sentimento de pertencimento. As cores do Brasil vão muito além da política. Elas representam cultura, música, praia, calor humano, futebol, carnaval, diversidade e criatividade. O brasileiro está entendendo novamente que pode usar verde e amarelo como símbolo da sua identidade e da sua alegria. A moda também acompanha os movimentos sociais e culturais, então esse resgate acontece muito através da juventude, das periferias e das redes sociais.”
O Termômetro entre o Comércio e Quem Consome
Para medir como essas projeções e discursos estéticos funcionam na prática, dois dos maiores polos comerciais entre o Complexo do Alemão e o Complexo da Penha revelaram um cenário de contrastes geográficos e estratégicos bem definidos. No centro comercial de Bonsucesso, área de bastante circulação de moradores do Alemão, os lojistas e trabalhadores do comércio de rua adotaram uma postura consideravelmente mais contida e tímida. Embora haja adereços e bandeirolas enfeitando as vitrines, os estoques não foram inflados de imediato.

Por outro lado, basta deslocar-se alguns minutos em direção à tradicional Rua dos Romeiros, o coração do centro comercial que serve de porta de entrada para o Complexo da Penha, para encontrar uma realidade completamente diferente. Ali, o “fervo” da Copa e do Brazilcore já opera em capacidade máxima. Barracas de camelôs, pequenas confecções locais e lojas de variedades já oferecem um catálogo completo de artigos de torcida e peças customizadas.

E esse termômetro econômico também é visível no comportamento dos moradores. De um lado está a empolgação estética de Mayse Freitas, moradora do Complexo do Alemão. Para ela, o clima de celebração e o consumo do look de torcedora independem do início das partidas oficiais da seleção: “Já comprei bandeira, e minha camisa, vamos ver no que vai dar”, afirma.
Do outro lado, simbolizando os consumidores que agem com cautela e exigem resultados práticos, está Kátia Maria, moradora da localidade da Fazendinha, também no Alemão: “Eu não tô muito animada não, mas se o Brasil ganhar eu vou vestir verde amarelo todos os dias”, pondera.
Para Juliana Henrik, a força da moda gerada na favela reside justamente na sua capacidade mutável de resistir a prazos de validade determinados pelo calendário corporativo e grandes eventos. Quando questionada sobre a durabilidade da tendência nas ruas, a diretora do Favela é Fashion deixa claro que a essência do movimento sobrevive a marcas e nomenclaturas do mercado.
“Acredito que o nome ‘Brasilcore’ pode até mudar com o tempo, porque a moda está sempre se reinventando, mas a valorização da estética brasileira veio para ficar. O mundo está olhando mais para a autenticidade e o Brasil tem uma identidade visual muito forte. A favela principalmente transforma tendência em linguagem própria. Então, mais do que uma moda passageira, isso representa um movimento de valorização cultural.”
Seja no ritmo contido de Bonsucesso ou no fervor da Penha, o que está em jogo vai além das vendas: é a afirmação de uma estética que nasceu na favela e agora dita o compasso do consumo nacional. O resultado financeiro ainda depende da adesão dos torcedores, mas o protagonismo cultural já está consolidado.

