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Além da inclusão: equidade e pertencimento no Palco Favela

Intérprete de Libras e coordenadora de acessibilidade contam como Rock in Rio inclui PcDs na dinâmica da Cidade do Rock

Foto: Julia Lyra / Voz das Comunidades
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O Rock in Rio é conhecido pelos palcos gigantes e pelos shows de artistas famosos. Mas o festival também tem um trabalho grande por trás das câmeras, realizado por um time especializado, garantindo que pessoas surdas, cegas e com dificuldade de locomoção também curtam cada apresentação.

No Espaço Favela, o palco dedicado ao som que vem das favelas e periferias, quem traduz os shows para Libras é Emile Silva de Assis, de 36 anos. Ela é moradora de Belford Roxo, cria do Castelar, e está no seu terceiro Rock in Rio. No Espaço Favela, já é o segundo ano trabalhando por lá.

“Eu sou cria de comunidade do Rio de Janeiro, então eu acho que é o palco que mais me representa. Aqui tocam os artistas que eu ouço no meu dia a dia, então para mim é mais prazeroso estar no Palco Favela”, conta Emile.

Durante o show, os intérpretes ficam mais nos bastidores, perto do palco. Por isso, a interação com o público quase nunca acontece na hora. Ela vem depois, quando pessoas surdas reconhecem Emile pelas ruas ou mandam mensagem contando que a viram no telão.

“Eles falam que viram a gente no telão cantando artistas que são daqui do Rio de Janeiro, que também são mais conhecidos por eles. Eu gosto dessa troca que acontece aqui no Palco Favela”, diz.

Para Emile, ter esse tipo de acesso faz diferença justamente porque são artistas que o público surdo já conhece do dia a dia, das redes sociais e das novelas. Ela já trabalhou em vários outros eventos e festivais, mas diz que nenhum se compara ao tamanho do Rock in Rio. “De fato, o Rock in Rio é o maior, que é o que dá mais visibilidade para o nosso trabalho”, afirma. Mesmo assim, ela lembra que esse cuidado ainda é raro nas comunidades. “A acessibilidade não chega muito fácil nos eventos das comunidades. Isso tem melhorado, mas ainda é bem escasso”, conta.

Quem coordena toda a equipe de acessibilidade em Libras e audiodescrição do festival é Heloisa Goés, de 51 anos, moradora do Riachuelo. Segundo ela, o time está espalhado pelos palcos Mundo, Sunset e Favela, oferecendo Libras para pessoas surdas e audiodescrição para pessoas cegas e de baixa visão, direto das plataformas reservadas para o público com deficiência.

Foto: Julia Lyra / Voz das Comunidades

Ao todo, são 16 intérpretes profissionais, que se revezam em grupos de três a cada 20 minutos em cada palco. Alguns falam outros idiomas além do português e da Libras, como espanhol e inglês, o que ajuda quando o artista é internacional. Tem até um profissional que trabalha só nos bastidores, sem aparecer no telão: ele escuta o show em inglês, traduz para português e passa a informação em Libras para o intérprete que está sendo exibido no telão.

Heloisa conta que sente o público com deficiência aumentando a cada ano, principalmente no Palco Favela. “Eu tenho percebido que as pessoas estão vindo mais nos eventos, principalmente as pessoas com deficiência, porque elas estão entendendo que estão fazendo parte do contexto”, diz, emocionada. “A gente quer cada vez mais que as pessoas venham. Que as pessoas cegas estejam aqui, que as pessoas surdas estejam aqui.”

Mesmo com esse avanço, ela aponta o que ainda falta melhorar nos grandes eventos: divulgar a acessibilidade antes, para que o público já compre o ingresso sabendo que vai ter esse suporte. “O Rock in Rio divulga, mas tem muitos eventos que não divulgam. Depois vem gente da comunidade surda e fala que queria ter ido, mas não sabia que teria intérprete de Libras”, explica. Segundo ela, os eventos menores, principalmente nas favelas, ainda estão bem atrás do Rock in Rio nesse cuidado. “A acessibilidade tem sido dada em passos pequenos, mas tem melhorado.”

Conforto para acesso de quem precisa

Além de quem faz a acessibilidade acontecer, quem usa os recursos também relata como o suporte muda a experiência. Amanda Aguiar, 45, moradora de Realengo, veio ao festival com a filha, que tem um problema no pé. A chegada foi difícil: as duas tiveram de caminhar do BRT até o evento. Ainda assim, ela diz que o atendimento e o recurso de cadeira de rodas fizeram diferença.

“Foi maravilhoso, gente. Nunca pensei que fosse assim tão fácil, tão rápido e o pessoal atender tão bem”, conta. “Se eu não conseguisse a acessibilidade que o evento está me proporcionando para mim e para minha filha, eu acho que a gente já tinha até desistido, porque é muita dificuldade. Ficou muito mais fácil agora com acessibilidade.”

Amanda Aguiar e sua filha na cadeira de rodas – Foto: Julia Lyra / Voz das Comunidades

Ela diz se sentir em casa e que agora é só curtir. “Com certeza. Agora só curtir depois da dificuldade e da facilidade de ter conseguido acessibilidade.”

Felipe Costa, 38, veio de São Paulo e trabalha no setor de acessibilidade do Rock in Rio, em pontos operacionais, plataformas, entradas e portões. Cadeirante, ele usa o Kit Livre, um triciclo motorizado que se acopla à cadeira de rodas e permite locomoção autônoma. “O Kit Livre auxilia muito na minha locomoção. Me ajuda muito a ir de um palco a outro, conhecer as ativações, dar uma passeada na Cidade do Rock”, diz.

Sobre o tratamento de público e equipe, ele só tem elogios. “É uma equipe preparada para trabalhar com esse público. Não tenho observação, a não ser elogios.” Para ele, ver o festival contemplar diferentes deficiências vai além da inclusão. “A gente olha muito além da inclusão: é equidade, pertencimento.”

Emile, de Belford Roxo; Heloisa, do Riachuelo; e Amanda, de Realengo, mostram que o cuidado com a acessibilidade no maior festival do mundo também tem raiz na favela. Já Felipe, que vem de São Paulo e usa o Kit Livre, reforça que, quando o evento pensa nas necessidades do público, o resultado é pertencimento.

Foto: Julia Lyra / Voz das Comunidades
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