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Soul de Brasileiro: Trio leva ao Rock in Rio mistura de ritmos e raízes brasileiras

Grupo que nasceu em uma igreja na Vila Kennedy se apresenta no penúltimo dia do festival no Palco Favela

Apresentação no Rock in Rio acontece dia 12 de setembro Foto: Vitória Pinheiro / Voz das Comunidades
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O grupo Soul de Brasileiro vai viver um momento muito especial. Pela primeira vez na carreira, o trio formado por José Junior, Ge Vieira e Negra Silva vai se apresentar no Rock in Rio, um dos maiores festivais de música do planeta. O show está marcado para o dia 12 de setembro, às 15h, no Palco Favela, espaço criado para mostrar o talento de artistas que nasceram e cresceram em comunidades.

A história do trio começou há muitos anos, dentro de uma igreja da Vila Kennedy, no Rio de Janeiro. Foi ali que José Junior, Ge Vieira e Negra Silva começaram a cantar juntos, ainda garotos. “A gente costuma dizer muitas vezes que a Soul de Brasileiro se confunde com a nossa amizade”, contou José Junior. Segundo Ge Vieira, crescer na comunidade não foi fácil. “Foi desafiador. Crescer na Vila Kennedy, crescer em uma comunidade do Rio de Janeiro não é uma tarefa fácil”, disse ele. “Mas descobrir a música foi algo muito importante para a gente. A música realmente nos salvou, a música nos salva até hoje.”

Um momento importante na trajetória do grupo aconteceu em 2011, quando eles participaram do Favela Festival. Foi a primeira vez que o trio se apresentou em um palco grande. “Favela Festival foi uma ótima oportunidade para a gente ter certeza daquela vontade ali que a gente já tinha de fazer música, de fazer arte”, lembrou Ge Vieira.

Agora, com o show no Rock in Rio, o grupo diz sentir muita emoção, mas também muita responsabilidade. Isso porque a apresentação vai traduzir o novo álbum do trio, chamado Soul. “Esse show acaba traduzindo o último disco que a gente lançou. E a gente tem tanta mensagem legal dentro desse álbum, e significa tanto para a gente ter uma plataforma tão grande, vindo de onde a gente vem”, disse um dos integrantes durante a entrevista.

Para o trio, mostrar a favela em um festival do tamanho do Rock in Rio tem um significado grande. Um dos artistas explicou que a favela costuma aparecer na mídia sempre ligada à carência e à dificuldade. “É muito mais fácil ser mostrado a favela, ser mostrado as comunidades de uma forma ruim, como se fosse sempre muito precário, muito carente”, disse ele. “É carente de uma série de coisas, mas não de talento. Não de pessoas que trabalham duro, que têm competência para fazer coisas muito bem feitas.”

O caminho até aqui não foi fácil. O trio conta que já cantou em lugares simples, como em cima de um caminhão em Nova Sepetiba, debaixo de chuva, e embaixo de um viaduto em Madureira. Foi justamente ali, debaixo do viaduto, que alguém da indústria brincou dizendo que eles estavam tão animados que parecia que iam cantar no Rock in Rio. “Vocês tão tão empolgados assim, parece que é o Rock in Rio”, disse a pessoa, segundo o relato do grupo. E a resposta veio na hora: “Nós somos esses. E a gente vai continuar sendo assim. É o nosso Rock in Rio ali.”

Por isso, a mensagem do grupo para quem está começando na música agora é clara. “Sonhe, acredite e se cerque de pessoas que também acreditem nesse sonho como você”, disse um dos integrantes. Mas os artistas fazem questão de avisar que o caminho é difícil e exige preparo. “Vai ser difícil, mas não vai ser somente difícil. Vai ter momentos muito legais, vai ter experiências que você vai viver que são únicas, e elas vão te valer muito”, completou outro integrante do trio. E um deles resumiu o que considera mais importante em toda essa caminhada: “Ame muito o que você faz, porque eu acho que o amor vem na frente. Eu acho que o amor te ajuda a superar cada barreira que vem se apresentando no decorrer da carreira.”

O álbum Sou fala sobre se aceitar como se é e se sentir bem com quem se é. “Sou, o álbum, é um sonho. E o que a gente quis trazer no álbum é essa característica de você se aceitar, de você estar confortável vestindo quem você é”, explicou José Junior. Ele contou ainda uma das descobertas que fez ao longo do processo. “Eu descobri que fazendo música a gente pode tocar as pessoas, e que a música tem sim um poder de transformação na sociedade. Mesmo que por uns minutos, num showzinho, você mudou a pessoa ali, já tá bom para a gente.”

O disco tem participações de nomes conhecidos da música brasileira, como Paula Lima, Josiel e Hiran. Sobre Paula Lima, José Junior foi só elogios. “Paula é uma trabalhadora da Soul Music. A música dela nos acompanha há muito tempo. É uma pessoa que de verdade foi referência para a gente”, disse ele, lembrando que a cantora aceitou participar do álbum mesmo sem saber qual música ia gravar. Já sobre Hiran, rapper do interior da Bahia, José Junior contou. “Hiran é um cara da Bahia, do interior da Bahia, um rapper super moderno, afiado. Acho que em menos de 24 horas ele mandou a parte dele na música.” E sobre Josiel, que também vem de uma comunidade da Baixada Fluminense. “Josiel é um cara que vem de uma comunidade como a gente. Faz um trabalho super consciente, leva música contemporânea, jazzística para dentro das comunidades, recuperando territórios.”

Uma das faixas mais especiais do disco é “Oxum Rabanne”. A música fala sobre autoestima e autocuidado, e foi inspirada em um canto tradicional de Oxum. “Oxum Rabanne é uma festa, uma celebração mesmo”, contou José Junior. “A gente bota esse nome por causa de um hitan de Oxum que diz que, antes de cuidar de todos que ela ama, ela para no momento e cuida dela primeiro. É uma música que fala justamente de autoestima, de um autocuidado sem escrúpulos.”

O grupo também tem músicas que falam diretamente sobre a experiência de ser negro e vir da periferia. Negra Silva contou que a canção “De Onde Eu Vim” é uma das que melhor representam essa vivência. “Ela fala realmente ali das nossas origens, de tudo que a gente percorreu para estar chegando aqui como pessoas negras que vêm da periferia”, disse a cantora. Sobre a presença do grupo em um palco como o do Rock in Rio, um dos integrantes destacou o peso político desse momento, especialmente por ser ano de eleição no Brasil. “A gente estar à vontade com quem nós somos, com as nossas características enquanto pessoas negras, é um ato muito revolucionário ainda”, afirmou.

Sobre como a favela aparece na sonoridade do grupo, que mistura soul, samba, MPB, jazz e cultura afro-brasileira, Negra Silva foi direta. “A favela aparece dentro das nossas diferenças. A gente veio de Vila Kennedy, e ali a gente ouvia de tudo, consumia um pouco de tudo”, disse ela, citando o bairro como um celeiro de artistas e referências musicais.

Para quem é jovem e mora em uma comunidade, o desejo do trio é que essas pessoas se reconheçam no álbum. “Eu espero que um jovem de comunidade, ouvindo esse álbum, se identifique bastante, que descubra que pode ser quem quiser ser, e que nada, nem ninguém, possa roubar aquele brilho que ele tem”, disse Negra Silva. “Que ele possa acreditar muito nele, que ele escute esse álbum e reconheça que ele é lindo, que ele pode sonhar, que ele pode amar, que ele pode não amar também, e que ele pode ser o que ele quiser ser.”

Depois do Rock in Rio, a agenda do Soul de Brasileiro continua cheia. O grupo já confirmou presença no Festival Toca, que vai acontecer na Lapa, no centro do Rio, no dia 25 de setembro. E em novembro, o trio promete um show especial de lançamento do álbum Sou, com todo o conceito do disco no palco.

Edição: Jonas Di Andrade

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