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À espera por moradia digna: 16 anos de luta por um direito na Zona Norte do Rio

Famílias removidas de ocupação em 2009, localizada na antiga fábrica da Skol, seguem na cobrança por apartamentos prometidos pelo estado; auxílio-aluguel de R$ 400 não é reajustado há mais de uma década

Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades
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Há 16 anos, mais de 600 famílias, incluindo moradores do Complexo do Alemão foram removidas de uma ocupação em antiga fábrica de Inhaúma, Zona Norte do Rio, e ainda aguardam a moradia prometida pelo Estado. Um dos conjuntos, com 440 apartamentos, está praticamente pronto e já teve sorteio realizado, mas as chaves não foram entregues por falta de conclusão da rede de esgoto. Até a publicação dessa reportagem, a previsão da Secretaria de Habitação é concluir as obras em dezembro.

Edmilson Frau é um desses moradores. Pai de cinco filhos, construiu sua casa na ocupação com sacrifício e foi um dos últimos a sair. “Tivemos muitos desgastes ao decorrer desses anos. Não vejo a hora de pegar a chave”, diz.

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Edimilson Frau – Foto: Reprodução

Uma luta que não começou agora

O caso não é isolado. Segundo o Plano de Ação Popular do CPX – Agenda 2030, documento elaborado por moradores e coletivos do Complexo do Alemão, a ocupação da antiga fábrica da Skol reuniu 600 famílias em situação de extrema vulnerabilidade.

Um incêndio em 2010 deixou cerca de 3 mil pessoas desabrigadas e foi seguido de remoção forçada, com promessa de 640 apartamentos jamais cumprida. Cerca de 100 pessoas já morreram sem receber a moradia prometida. E em 2016 uma nova remoção feita pela UPP, sem ordem judicial, segundo informações, usou gás de pimenta e balas de borracha contra os moradores.

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Dessa resistência nasceu o coletivo Mulheres em Ação no Complexo do Alemão (MEAA), fundado por Camila Moradia. “Moradia é um direito humano, moradia digna é um direito humano”, resume a liderança no documento.

Um auxílio que não sustenta ninguém

O auxílio-aluguel de R$ 400 está congelado há 12 anos, e os moradores pressionam por mudança nos decretos que travam o reajuste. Para Beatriz Fraga, coordenadora da TETO Rio de Janeiro, o valor é insuficiente. “Com R$ 400 hoje, você não consegue alugar uma casa, mesmo em um projeto habitacional.” Segundo ela, a defasagem empurra famílias de volta a barracos ou áreas de risco, e a demora não é burocrática, mas fruto de falta de vontade política; os projetos mudam a cada gestão em vez de virarem política de Estado. O Plano CPX confirma o padrão: hoje só 495 moradias estão sendo construídas no Complexo do Alemão, contra 1.300 prometidas.

O que os moradores exigem

O movimento sistematizou reivindicações: reajuste do aluguel social; diagnóstico técnico participativo do déficit habitacional; programas habitacionais próprios, não dependentes do governo federal; uso de imóveis e terrenos vazios para moradia popular; integração com saneamento e mobilidade; e conselhos comunitários para acompanhar a luta.

A TETO reforça que o poder público deve tratar a urgência habitacional com a mesma gravidade de uma tragédia climática, já que afastar famílias de seu território destrói as redes de solidariedade que hoje suprem a ausência do Estado.

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Os futuros moradores esperam 16 anos pela sua casa – Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades

Com o sorteio feito em junho, os futuros moradores de Inhaúma já sabem seu bloco e apartamento, mas as chaves seguem guardadas. Depois de 16 anos, resta às famílias e ao movimento que assina o Plano CPX seguir cobrando que o direito à moradia, previsto no Artigo 6º da Constituição, saia do papel.

Esta reportagem foi realizada por meio do Edital de Apoio à Reportagem da Habitat para a Humanidade Brasil, ficando o conteúdo, as opiniões e as informações veiculadas sob total responsabilidade do jornalista autor

Edição: Jonas Di Andrade