A pesquisa Rotina Calculada, da Movimentos, com apoio do Instituto Update e do Instituto Fogo Cruzado, ouviu quatro grupos focais de mulheres da Região Metropolitana do Rio. Elas foram divididas por renda (baixa e média/alta) e por território (periférico e não periférico). O objetivo era entender como o medo interfere na rotina.
Para elas, circular exige cálculo diário: roupa, trajeto, horário, transporte, companhia. Não é medo sem motivo. É a realidade de uma cidade que não foi feita para a segurança feminina.
Em outra pesquisa citada no relatório, 92% dos entrevistados reconhecem que mulheres enfrentam riscos específicos que homens não enfrentam. E apenas 41% acham que a polícia protege a população. Entre moradores de favelas, esse número cai para 13%.
A renda faz diferença. Mulheres de baixa renda e áreas periféricas têm menos opções para evitar riscos. Sem dinheiro para aplicativo, muitas andam a pé por ruas perigosas, saem de madrugada e encaram assédio. Uma entrevistada disse que recusar trabalho é luxo. Outra andava por um caminho conhecido como Rua do Perdeu porque não tinha vale-transporte.
Já as de renda média/alta podem pagar Uber, táxi, carro ou dormir na casa de amigas para não voltar de madrugada. A pesquisa mostra que a segurança virou mercadoria: quem pode, paga; quem não pode, se arrisca.
O assédio e a violência sexual aparecem como maiores medos. Homens desconhecidos são ameaça. Mas companheiros, pais e irmãos viram escudo para circular à noite.
O estudo, lançado em outubro de 2026, defende que segurança pública não é só policiamento. Precisa de iluminação, transporte noturno, comércio aberto e presença do Estado. O medo não pode continuar decidindo a vida das mulheres. Uma cidade viva é uma cidade segura para todas.
