Ir para o conteúdo

Flávio Bolsonaro trabalhou para impedir júri popular de PMs acusados de quatro mortes no Vidigal

O caso, que aconteceu em 2020, ainda não foi finalizado. Ministério Público recorreu e espera uma nova decisão; o senador também atuou no caso Ana Clara

Flávio Bolsonaro (PL), candidato a Presidência da República - Foto: Reprodução
Ouça este conteúdo
00:00 00:00
Leitura pronta para iniciar

O senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência da República pelo PL, recebeu uma procuração para defender quatro policiais militares, os cabos Pedro Jeremias Lemos Pinheiro, Victor Barcelleiro Batista e Rafael Nascimento Rosa, e o sargento Ricardo de Moraes Mattos, acusados de matar quatro moradores do Vidigal, na Zona Sul do Rio de Janeiro, durante uma operação em janeiro de 2020. Com a atuação da defesa, os policiais conseguiram, por enquanto, não ir a júri popular. O júri popular é aquele julgamento em que pessoas comuns da sociedade decidem se o acusado é culpado ou não.

A Polícia Civil do Rio concluiu que os policiais montaram uma emboscada dentro de um apartamento e atiraram de cima para baixo contra os homens. A ação é conhecida no jargão policial como “troia”, referência ao cavalo de madeira usado pelos gregos para invadir Troia, e consiste em agentes se esconderem para surpreender os alvos. Segundo a apuração, os PMs invadiram um apartamento no segundo andar de um prédio durante a manhã e, segundo uma testemunha, esperaram uma moradora sair de casa e ficaram abrigados no imóvel até a hora dos disparos, no fim da tarde, por volta das 17h. Os policiais contaram outra história. Eles disseram que houve troca de tiros em um beco e afirmaram ter disparado 106 vezes com fuzis durante o suposto confronto, apresentando duas pistolas que, segundo eles, pertenciam às vítimas.

Mas o laudo feito depois das mortes mostrou que todas as vítimas foram atingidas por tiros de fuzil vindos de cima, o que não combina com a versão dos agentes. A perícia apontou que todos os disparos de fuzil foram feitos de cima para baixo e identificou o ponto exato de onde partiram: o vão no segundo pavimento da fachada do prédio. Todos foram atingidos na cabeça e morreram no local ou chegaram sem vida ao Hospital Municipal Miguel Couto. A Polícia Civil também concluiu que os policiais alteraram a cena do crime ao retirar os corpos do local antes da chegada da perícia, o que foi encaminhado à Corregedoria da PM como possível fraude processual.

Entre os mortos estavam o porteiro Cláudio Henrique Nascimento de Oliveira, de 24 anos, e o entregador de supermercado Marcos Guimarães da Silva, de 51. A perícia encontrou uma quentinha ao lado do corpo de Ivanildo, indicando que ele comia quando foi surpreendido pelos disparos.

Quatro homens morreram no Vidigal. Os PMs acusados ainda não foram julgados. Foto: Reprodução

Em maio de 2022, o juiz Gustavo Gomes Kalil mandou os policiais para o júri popular. A defesa dos quatro policiais recorreu dessa decisão. Em janeiro de 2023, o Tribunal de Justiça do Rio derrubou a decisão, acolhendo o recurso da defesa. Depois, a defesa recorreu ao Superior Tribunal de Justiça, o STJ, em Brasília, que também derrubou a decisão. Lá, os cinco ministros da 5ª Turma concordaram, por unanimidade, com o pedido da defesa. O ministro Reynaldo Soares da Fonseca disse que o processo não podia seguir apenas com informações da fase da polícia e com testemunhas que ouviram a história de outras pessoas. O advogado dos policiais, Paulo Klein, afirmou que as testemunhas eram parentes das vítimas e não viram o que aconteceu. O Ministério Público ainda aguarda a análise de um recurso sobre o caso. Os quatro policiais respondem ao processo em liberdade.

O caso importa para quem mora em favelas do Rio, onde muitas famílias já choraram a perda de parentes em ações da polícia. Ficou a dúvida se a Justiça vai ouvir o júri popular nesse caso do Vidigal. A decisão agora depende da análise do recurso do Ministério Público. Até agora, os policiais do Vidigal não foram julgados nem condenados.

Relembre também o caso de Ana Clara, menina de 5 anos morta em Niterói

Ana Clara, de 5 anos, morreu em Niterói em 2021. O policial acusado ainda não foi julgado.  Foto: Reprodução

A menina Ana Clara Gomes Machado, de 5 anos, morreu em fevereiro de 2021, na porta de casa, na comunidade do Monan Pequeno, em Niterói. Ela foi atingida por um tiro de fuzil. O Ministério Público acusou o cabo Bruno Dias Delaroli, policial militar, de ter feito o disparo.

Em março de 2022, o Tribunal de Justiça do Rio decidiu, por unanimidade, que o policial deveria ser julgado pelo júri popular. A defesa recorreu ao STJ. Flávio Bolsonaro integrou a equipe de defesa e assinou, em 2024, o recurso para tentar evitar o júri. O recurso foi rejeitado por 3 votos a 2. A maioria dos ministros nem chegou a analisar o mérito, porque a defesa não contestou todos os pontos da decisão anterior. Dois ministros votaram a favor do pedido, mas foram vencidos.

Seis meses depois, a defesa voltou ao STJ com outro pedido, e o nome de Flávio já não aparecia entre os advogados. Esse pedido também foi negado por unanimidade, em abril de 2025. O policial ainda não foi julgado. O advogado Paulo Klein diz que tem certeza da inocência do cabo Delaroli e que tudo o que a defesa fez está dentro da lei. Segundo ele, a defesa tentou levar o caso para a Justiça Militar, e o júri popular está marcado para o início do próximo ano.

O caso de Ana Clara foi levado ao debate entre os candidatos à Presidência. Lula cobrou explicações de Flávio sobre a defesa do policial acusado de matar a menina. Flávio respondeu que não se pode criminalizar a advocacia. Ele quis dizer que defender alguém na Justiça é um direito e faz parte do trabalho de um advogado. De fato, todo acusado tem direito a defesa, e quem é acusado só pode ser considerado culpado depois de um julgamento.

Eleições 2026: tudo o que você precisa saber antes de votar. Um guia prático antes das urnas.Acessar a cartilha