O Rio de Janeiro já sabe quem vai mandar no estado pelos próximos quatro anos, e a decisão não saiu da urna. Nesta quinta-feira (8), o Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, que é a Justiça mais alta quando o assunto é eleição, decidiu anular os votos que Anthony Garotinho (Republicanos) recebeu para governador. O placar foi de 5 votos a 2. Com isso, Douglas Ruas (PL) pode passar a ter mais da metade dos votos válidos e, com isso, vence a eleição no primeiro turno. O segundo turno contra Eduardo Paes (PSD), que estava marcado para 25 de outubro, não vai mais acontecer. Para quem vive nas favelas, fica a pergunta: o que muda na nossa vida a partir de agora?
Para entender a conta, é preciso saber o que são votos válidos. São os votos dados aos candidatos, sem contar os brancos e os nulos. Para ganhar no primeiro turno, o candidato precisa ter mais da metade desses votos. No domingo (4), Ruas teve 4.271.199 votos, o que dava 49,27%. Faltou pouco. Garotinho teve 274.411 votos, mas a candidatura dele já tinha sido barrada pela Justiça Eleitoral do Rio, porque ele foi condenado em 2018 por improbidade administrativa, que é quando alguém comete irregularidades enquanto ocupa um cargo público. Por isso, os votos dele ficaram em suspenso, esperando a decisão final. Agora que foram anulados, esses votos saem da conta, e Ruas passa a ter pouco mais de 50%. Paes ficou com 42,76%.
Garotinho chegou a desistir do recurso que tinha no TSE, mas o tribunal não aceitou a desistência e manteve a decisão que barrou a candidatura. Agora, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE) vai refazer a conta dos votos e anunciar oficialmente Ruas como governador eleito, para o mandato de 2027 a 2030.
O jeito como a eleição terminou deixou muita desconfiança no ar. Eduardo Paes acusou Garotinho e Ruas de uma “armação” para impedir o segundo turno e disse que Garotinho estava na disputa apenas para ajudar o candidato do PL. Para os críticos, o povo do Rio mais uma vez viu o comando do estado ser decidido dentro de um tribunal. E não é a primeira vez neste ano: em março, o TSE deixou o ex-governador Cláudio Castro proibido de disputar eleições por oito anos.
Paes anuncia recurso ao STF
A briga, porém, ainda não acabou. Na tarde desta quinta-feira (8), a coligação de Eduardo Paes anunciou que vai recorrer ao Supremo Tribunal Federal, o STF, que é a corte mais alta do país, para tentar garantir que o segundo turno aconteça no dia 25 de outubro. Antes da decisão do TSE, Paes já tinha pedido que a desistência de Garotinho fosse recusada e que os votos dele continuassem valendo, porque, para a campanha de Paes, Garotinho só desistiu depois de ver o resultado das urnas. Dois ministros do TSE concordaram com a manutenção do segundo turno, mas ficaram em minoria. Enquanto isso, o TRE do Rio espera o aviso oficial do TSE para refazer a conta dos votos. Por isso, os moradores das favelas e comunidades do Rio precisam ficar atentos, porque o nome de quem vai governar o estado ainda pode depender da palavra final do Supremo.

Mas quem é Douglas Ruas?
Ele tem 37 anos, nasceu em São Gonçalo e é filho do prefeito da cidade, o Capitão Nelson. É policial civil concursado e formado em Direito. Está no primeiro mandato como deputado estadual e é o presidente da Alerj, a Assembleia Legislativa do Rio. Também foi secretário de Estado das Cidades no governo de Cláudio Castro. Esta foi a primeira vez que ele disputou um cargo como o de governador. Ruas é aliado de Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência.
A vice de Ruas será Fernanda Louback, também do PL, vereadora de Niterói eleita em 2024. Ela é aliada de Michelle Bolsonaro e se apresenta como a primeira mulher conservadora eleita para a Câmara de Niterói. Fernanda diz que vai defender a família, as pessoas com deficiência e os pequenos empreendedores.
É na segurança pública que mora a maior preocupação da favela. Essa foi a principal promessa da campanha de Ruas. Ele disse que vai se juntar a Flávio Bolsonaro para declarar guerra ao crime organizado, fazer operações para retomar territórios e deixar a polícia nas comunidades depois das ações, além de chamar mais aprovados em concursos para aumentar o número de policiais. Quem mora em favelas sabe que precisa de segurança, porque sofre com grupos armados e com a milícia todos os dias. O problema é o jeito que essa segurança vai chegar.
Ruas critica a chamada ADPF das Favelas, uma decisão do Supremo Tribunal Federal que criou regras para as operações policiais nas comunidades, como o uso de câmeras nas fardas e mais cuidado perto de escolas e postos de saúde. Para ele, essa decisão é a culpada pelo crime no estado. Ruas também reclamou que hoje o policial que reage a tiros pode perder uma gratificação, que é um dinheiro extra no salário, e prometeu mudar isso. Na visão de quem vive na favela, menos regra pode significar mais tiroteio, mais escola fechada, mais posto de saúde parado e mais morador inocente atingido no meio do fogo cruzado.
O discurso do novo governador também preocupa. Em uma entrevista, ele criticou a “galera dos direitos humanos” e usou palavras duras para falar de criminosos. Em outra, disse que “só faz campanha dentro de comunidade quem tem ligação com o crime organizado”, e por isso não entrou em áreas dominadas para pedir voto. Esse tipo de fala trata as favelas como lugar de bandido, quando a imensa maioria de quem mora ali é trabalhador, estudante, mãe e pai de família.
Douglas Ruas toma posse no início de 2027. Até lá, as favelas e periferias do Rio vão continuar cobrando o que sempre faltou: saneamento, saúde, escola, emprego e uma segurança que proteja o morador, e não que coloque a vida dele em risco. O Voz das Comunidades vai acompanhar de perto cada passo desse novo governo.
