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4ª edição do Festival Comida de Favela movimenta a gastronomia da Maré e lança a campanha ‘Maré sem Assédio’

Com 16 estabelecimentos participantes, pratos entre R$ 15 e R$ 55,90 e o protocolo 'Suco Lilás', evento da Redes da Maré concorre como um dos melhores festivais culinários da América Latina

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Nesta quinta-feira (1º), teve início a 4ª edição do Festival Comida de Favela, evento que transforma o Conjunto de 15 Favelas da Maré no epicentro da gastronomia favelada até o dia 30 de outubro. Realizado pela Redes da Maré, o festival celebra a força produtiva do território, onde o setor de alimentação representa cerca de 40% do comércio local.

O reconhecimento do evento ultrapassa as fronteiras do bairro: a iniciativa é uma das quatro finalistas na categoria Melhor Festival Culinário da América Latina de 2026 no World Culinary Awards. O vencedor será anunciado no dia 14 de outubro.

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Gastronomia para fortalecer a vida e a segurança das mulheres

Nesta edição, projeto que nasceu em 2015 e já acumula mais de 10 anos de história, a principal novidade é a integração direta com os projetos da Casa das Mulheres da Maré e o lançamento da campanha “Maré sem Assédio”. A ideia é espalhar a cultura de cuidado e segurança feminina por todo o ecossistema comercial do território.

Mariana Aleixo, coordenadora do festival e da Casa das Mulheres, explica que a gastronomia é uma ferramenta direta de combate à violência de gênero. “A novidade deste festival é entender como a gastronomia pode fortalecer a questão de gênero. Lançamos a campanha ‘Maré sem Assédio’ para que, junto com os empreendimentos comerciais, possamos criar um espaço de acolhimento para as mulheres no território a partir da experiência do circuito gastronômico. A ideia é levar informação sobre espaços de acolhimento e direitos para mulheres que sofrem assédio nesses espaços públicos e privados.”

Mariana também ressalta que a culinária é um espaço em que geralmente as mulherem estão e que garante autonomia a elas. “Na Maré, temos 3.182 empreendimentos comerciais, e um terço deles é do setor de alimentação. Como reunir esse ecossistema para fortalecer a vida das mulheres, deixar o território mais seguro e servir de exemplo para outras favelas? Historicamente, a alimentação é um lugar que as mulheres ocupam: um lugar de poder, de cuidado, de autonomia financeira e de rompimento de ciclos de violência. Queremos dar visibilidade a esse espaço e, ao mesmo tempo, celebrar essa comida tão potente que elas e os empreendedores criam no território.”

Multiplicação de informação e rede de apoio nos bares e restaurantes

A pesquisa produzida pela Casa das Mulheres aponta que os índices de violência e assédio contra a mulher no Rio de Janeiro e no território são alarmantes, agravados por um déficit de informação onde muitas vítimas demoram a reconhecer abusos psicológicos, patrimoniais ou morais como violência. Diante das barreiras de acesso aos órgãos tradicionais do poder público, a campanha transformou o circuito gastronômico em um hub de informação e acolhimento.

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Carla de Castro, pesquisadora na Casa das Mulheres da Maré, detalha como funciona a capacitação dos estabelecimentos e o ecossistema de ajuda. “Os estabelecimentos participantes tornaram-se espaços multiplicadores. Realizamos uma capacitação com as equipes de todos os restaurantes do festival para que saibam reconhecer situações de violência dentro e fora dos estabelecimentos e saibam exatamente como agir. Disponibilizamos também QR Codes nos locais que levam a um guia no site da Redes da Maré com informações sobre o que é a violência segundo a legislação, os tipos de abusos e onde buscar apoio imediato e contínuo.”

Por fim,  Carla ressalta a importância do trabalho e acesso. “Pensamos em levar essa conscientização para os espaços de lazer da comunidade considerando as possibilidades que um território de favela oferece. Caso venham à Casa das Mulheres, temos um plantão aos sábados com atendimento gratuito de psicóloga, assistente social e advogada para acolher, oferecer cursos profissionalizantes e fazer articulações com a Clínica da Família e a Defensoria Pública.”

Protocolo do ‘Suco Lilás’ e acolhimento

A campanha traz como marca o slogan “Respeito também é receita na Maré”. Entre as estratégias práticas de proteção nos 16 estabelecimentos participantes, destaca-se o código do Suco Lilás: caso uma mulher se sinta constrangida, ameaçada ou em situação de risco, ela pode solicitar um “Suco Lilás” à equipe do bar ou restaurante. Os funcionários, capacitados pelo festival, saberão identificar o sinal de alerta e intervir para retirar a mulher da situação em segurança.

Vozes do território: Empreendedorismo, afetividade e resistência

O festival reúne histórias de vida e de negócios que movimentam a economia local e fortalecem a identidade cultural e social da Maré. No Castelo Lounge, localizado na Vila do João e funcionando há dois anos, o comerciante cearense Delmir do Nascimento apostou na memória afetiva para criar o prato do festival: o croquete de costela.

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“Vim do Ceará para o Rio em 2010. Já trabalhei de garçon, ajudei em cozinha, fui taxista… passei por poucas e boas. O croquete de costela nasceu de uma lembrança da minha infância no Ceará. Naquela época a situação era muito difícil e carne era artigo raro. Uma senhorinha chamada Dona Raimunda, uma rezadeira de mão cheia, todo mês quando recebia a aposentadoria levava um quilo de costela lá para casa e um saco de xilito (fofura) para a gente. Era um milagre. A gente ficava contando os dias para o fim do mês para ter esse almoço de domingo preparado pela minha mãe. Hoje em dia, que as coisas melhoraram e podemos comer costela sempre, pensei: tenho que criar algo que relembre minhas raízes”, disse Delmir do Nascimento.

Já no Cheffonas Gastrobar, situado na localidade do Pinheiro, as sócias, que ficaram entre os três melhores pratos na edição anterior em 2024, apostam na ancestralidade da terra e na diversidade com o prato “Rabão Queió das Cheffonas”.

Foto: Victoria Gaia

“O Cheffonas é um gastrobar onde oferecemos desde pratos brasileiros e refeições completas até hambúrgueres artesanais e petiscos de boteco. É um espaço liderado por duas mulheres, somos um casal gay, e defendemos um espaço coletivo onde a mulher possa frequentar sozinha ou acompanhada, onde ela se sinta respeitada e tenha um momento de lazer, bom alimento e cerveja gelada.”

Joice Nogueira relembrou a edição de dois anos atrás e como a comida era composta. “Em 2024 trouxemos um prato de frutos do mar homenageando a pesca artesanal na Baía de Guanabara. Este ano estamos falando da terra. Trouxemos uma base de creme de aipim, este ingrediente nativo e versátil cultivado desde os nossos ancestrais indígenas, acompanhado de rabada, uma carne historicamente popular que se reinventou na gastronomia e é comida de domingo, além de salada de agrião para dar frescor e uma farofa crocante com castanha. São elementos da terra e da memória do nosso território.”

Gastronomia local, votação e premiação

Ao longo do mês de outubro, o público poderá provar receitas que variam de R$ 15,00 a R$ 55,90, incluindo pratos como bolinho de aipim, quiabada cearense, feijoada de frutos do mar, galo mareense cozido com feijão verde, carne de sol, croquete de costela e rabada.

Os 16 estabelecimentos concorrem em duas categorias: “Comida de Bar, Pensão e Restaurante” e “Comida de Rua e Quiosque”. A votação é dividida igualmente entre o júri popular (50%) e a avaliação de 16 jurados especialistas, incluindo moradores, chefs e jornalistas (50%). Os três primeiros colocados de cada categoria receberão prêmios em dinheiro entre R$ 3 mil e R$ 10 mil para investimento nos negócios.

Caravanas e Circuitos Guiados

Para facilitar a circulação e proporcionar uma vivência integrada com o território, o festival organiza rotas a pé e de van aos sábados e domingos. Guiados por moradores da Maré, os passeios levam os visitantes por cerca de cinco estabelecimentos do circuito.

  • Agendamento e reservas: WhatsApp (21) 99079-7966.

Serviço

  • Evento: 4ª Edição do Festival Comida de Favela
  • Período: 1º a 30 de outubro de 2026
  • Preço dos pratos: Entre R$ 15,00 e R$ 55,90.
  • Mais informações: redesdamare.org.br ou no Instagram @comidadefavela.
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