Nas mãos de Adeildo Francisco Duarte, 49 anos, o tempo parece correr em um ritmo diferente, enquanto o mundo lá fora se apressa em consumir e descartar. Dentro de sua sapataria na subida da Alvorada o verbo de ordem é outro: conservar. Adeildo é, atualmente, o último remanescente de uma linhagem de artesãos que, durante décadas, calçou os moradores do Alemão.
A história do profissional com a cola, couro e a linha de pesponto não começou por escolha, mas por destino e uma dose de “rebeldia juvenil”. Filho de sapateiro, ele viu o pai, o mestre Duarte, comandar por 25 anos uma sapataria na entrada da Grota.
“Eu tinha parado de estudar, estava meio rebelde. Meu pai, então, me levava para a loja para ajudar em consertos leves, saltinhos, coisas que não exigiam tanto esforço ou contato com cola”, relembra.
Com o falecimento do pai em 2008, Adeildo assumiu o ponto na Alvorada, onde já está há 18 anos. Ele carrega consigo não apenas as ferramentas, mas um legado familiar que se estendia aos tios, um localizado na Roberto Silva, no Adeus, e outro na Gávea, zona sul do Rio. Hoje, ele observa o horizonte com uma mistura de sentimentos.

“Em relação a ser o único sapateiro do Complexo é uma mistura de sentimentos, mistura de alegria por saber que eu dei seguimento à profissão do meu pai, ao legado do meu pai, e a comunidade tem, eu tenho esse prazer de servir essa comunidade. Desde então, desde que meu pai faleceu, é misto de tristeza também por saber que a geração de hoje, infelizmente, não valoriza tanto essa questão do serviço manual, que a geração de hoje em dia não tem o sentimento de aprendizado que eu tive na minha época, que vários outros também, que meu pai teve alguns ajudantes e que outros também já tiveram. A geração de hoje não valoriza tanto isso”, desabafa.
A Luta contra o “Descartável”
O maior adversário de Adeildo não é a concorrência, que já não existe no território, mas a mudança na indústria. O sapateiro explica que a transição do couro para o material sintético mudou a relação das pessoas com seus calçados. “O sintético barateou o produto, mas tirou a durabilidade. Muitas vezes o calçado é tão barato que a pessoa prefere comprar um novo que consertar. Antigamente, o couro era valorizado, era para a vida toda”, analisa.
A rotina de Adeildo é rigorosa. É de segunda a sábado, das 8h às 18h. Ele tentou passar o bastão. O filho chegou a trabalhar na oficina, mas não se adaptou. Um sobrinho também arriscou os dedos entre as linhas, aprendeu o ofício, mas acabou migrando para outro ramo. Atualmente, Adeildo trabalha sozinho. Ele defende que os serviços manuais são caminhos dignos e rentáveis para os jovens, mas lamenta a falta de interesse pelo aprendizado que exige paciência e repetição.

O sapateiro do Alemão diz que tem uma clientela fiel que sempre garante a renda de dentro de casa: “Os mais requisitados são a costura de tênis, sapato social, masculino, no caso seria a costura completa, em bolsas e mochila de feche-clé, troca de feche-clé, e calçado feminino realmente, o saltinho é o campeão. Saltinho e meia sola feminina sempre aparece bastante.”
Entre histórias curiosas, o sapateiro conta sobre o desafio de uma bota de um dançarino de quadrilha. “A bota de um rapaz que dançava festa junina havia pegado chuva e o rapaz não botou ela para secar em lugar adequado e ela ficou com um cheiro muito forte muito desagradável. Esse foi o serviço mais difícil realmente para fazer devido ao cheiro que ela tava muito forte”, comenta.
Quando questionado sobre como definiria sua trajetória de quase duas décadas à frente da única sapataria do CPX, ele não hesita. “Luta e vitória!”. Para ele, cada par de sapatos que entra castigado e sai renovado é uma pequena conquista contra o esquecimento de uma profissão que, embora solitária no morro, permanece essencial para quem ainda prefere restaurar do que descartar.
