No Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, a palavra “segurança” ganha um sentido muito distante do debate teórico apresentado nos guias eleitorais dos candidatos ao Governo do Estado. Para os moradores desses territórios, a discussão sobre o tema vai além de números de efetivo ou operações ostensivas: trata-se da garantia do direito básico de ir e vir com dignidade.
A urgência de uma nova abordagem para a segurança pública fica evidente no relato de que vive e circula pelas favelas. Para Wallacy Costa da Silva, de 42 anos, morador do Complexo do Alemão, a prioridade é a preservação da vida e o respeito ao trabalhador local.
“Segurança pública é as pessoas terem o direito de ir e vir, usar com inteligência as políticas públicas e não fazer extermínio da população de favela.”
A cobrança por direitos é reforçada por Dona Maria da Conceição, de 50 anos, que questiona a associação direta entre segurança e violência armada no ambiente comunitário.
“A pessoa fala de segurança pública e acha que é tiro, mas não é isso não, é escola para as crianças, projetos sociais, o povo poder ir e voltar a hora que quiser, e não achar que quem mora na favela só faz coisa errada não, aqui é lugar de gente que trabalha, temos o mesmo direito de quem mora na Zona Sul, ou meu voto é diferente de lá?”
Diante das demandas por cidadania e proteção manifestadas pela população das comunidades, a reportagem analisou os planos de governo dos três candidatos ao Governo do Estado mais bem colocados na pesquisa Datafolha divulgada no dia 11 de setembro. Confira abaixo como cada um pretende atuar no tema da segurança pública.
Eduardo Paes (PSD)
Líder nas intenções de voto, Eduardo Paes estrutura sua proposta de segurança pública a partir da integração entre tecnologia de inteligência e a chegada de serviços sociais essenciais aos territórios vulneráveis. O plano prevê o combate ao crime organizado por meio da asfixia financeira e da ampliação do cercamento digital, com uso de câmeras de reconhecimento facial e integração de dados entre as polícias e as guardas municipais.
Para a rotina das comunidades, o projeto sinaliza com a implementação de diretrizes operacionais desenhadas para evitar confrontos armados durante os horários de maior circulação de trabalhadores e estudantes. Além disso, a proposta condiciona a melhoria da segurança pública à presença do Estado em outras frentes, prevendo a expansão da iluminação pública em LED, saneamento básico, postos de saúde e escolas em tempo integral no interior das comunidades.
Em relação à presença armada nas favelas e ao enfrentamento direto, Paes declarou sobre a retomada de territórios:
“Não adianta a polícia entrar com operação em uma comunidade e depois ir embora, deixando a população desprotegida. A segurança de verdade se faz com a ocupação social do Estado, levando escola, posto de saúde e serviços básicos para junto da polícia.” (Eduardo Paes, em sabatina ao vivo no RJ2 / TV Globo em 18 de setembro de 2026)
Douglas Ruas (PL)
Segundo colocado na pesquisa de intenções de voto, Douglas Ruas aposta em um modelo focado no enfrentamento ostensivo e na retomada territorial de áreas sob domínio de grupos armados. O plano de governo prevê o fortalecimento da estrutura policial mediante o aumento do efetivo, com novos concursos públicos para a Polícia Militar e Polícia Civil, e a compra de equipamentos de ponta, como novas viaturas blindadas e armamentos de grande porte.
Em relação ao cotidiano da favela, a candidatura propõe a criação de frentes policiais especializadas para combater a cobrança ilegal de taxas sobre serviços como transporte alternativo, venda de gás e acesso à internet. O plano defende ainda o apoio e o respaldo institucional às operações policiais em áreas consideradas de alto risco, buscando a desarticulação direta do poder paralelo no estado.
“Não é falta de dinheiro, porque dinheiro tem. Tem dinheiro para show, tem dinheiro para camarote na Sapucaí. Eu quero show de segurança, quero show de saúde e proteção ao cidadão do estado do Rio de Janeiro.” (Douglas Ruas, em sabatina transmitida pela CNN Brasil em 22 de agosto de 2026).
Garotinho (Republicanos)
Em terceiro lugar, Anthony Garotinho propõe um modelo centrado no fortalecimento do policiamento comunitário e em ações de prevenção social voltadas para a juventude. A proposta prevê a reestruturação e a instalação de módulos e bases policiais fixas no interior das favelas, com o objetivo de restabelecer o diálogo, a aproximação e a confiança entre os agentes de segurança e a população local.
Para além do policiamento, o plano coloca como pilar de segurança pública o investimento em programas sociais de inclusão, oferecendo qualificação profissional, cursos técnicos, atividades esportivas e culturais para jovens em situação de vulnerabilidade. A estratégia busca impedir o recrutamento de adolescentes por grupos armados, aliada à criação de conselhos comunitários para escutar ativamente as demandas de lideranças e associações de moradores.
Ao detalhar suas propostas de ocupação tática para as comunidades do Rio em sabatina de imprensa, Garotinho defendeu:
“Segurança pública se faz com planejamento, informação confiável e respeito aos policiais. Nós vamos criar o ‘Bope 2.0’, um batalhão especial que contará com 5 mil policiais dedicados a ocupar permanentemente as comunidades do Rio e devolver a paz aos moradores” (Anthony Garotinho, em entrevista à CNN Brasil em 9 de setembro de 2026).
