O aroma de milho cozido, os caldos fumegantes e o colorido das bandeirinhas anunciam: o Arraiá começou. Mas, para além da música e da tradição, a edição deste ano da festa traz um sabor especial de superação, planejamento e sonhos realizados. Entre as novidades do evento, as histórias de quem pisa pela primeira vez no circuito de barracas mostram que a culinária típica é, acima de tudo, um cardápio feito de afeto, persistência e oportunidades.
Da herança de mãe para a Barraca da Vida
Moradores da Fazendinha, os amigos Janaina Pereira, de 44 anos, e Wellington Uliandro, de 38, traduzem perfeitamente esse espírito. Empreendedores experientes, eles comandam há mais de uma década uma tradicional barraca na comunidade. No entanto, a rotina de trabalho ganhou um novo capítulo quando o telefone tocou com a notícia de que haviam sido selecionados para estrear no evento.
Para Wellington, a surpresa rapidamente se transformou em uma forte emoção, conectada diretamente com as suas raízes mais profundas. “Eu não imaginava que hoje eu estaria aqui. Sempre via os participantes e hoje sou um deles. Estou honrando a memória da minha mãe, que também vendia, e hoje estou aqui”, emociona-se o empreendedor.
Se para Wellington a estreia carrega o peso do orgulho e da ancestralidade, para Janaina o momento é de celebrar a expansão do negócio e o reconhecimento do trabalho do casal em grandes palcos. “Nós participamos do show da Madonna e agora no Voz, grandes eventos. Estamos muito felizes por estar participando”, comemora Janaina.
Além da técnica apurada ao longo de dez anos de estrada, quem passa pelo espaço do casal logo descobre que o cardápio tem uma identidade própria. Janaina revela com orgulho o significado por trás do nome escolhido para o negócio: Barraca da Vida. “Escolhi esse nome porque amo a vida, amo o que eu faço e eu faço tudo com muito amor. O segredo do nosso milho é o amor”, revela a empreendedora.

Do planejamento ao resgate das origens nordestinas
Se de um lado temos a experiência de dez anos de estrada, do outro, o Arraiá abre portas para quem está começando com o pé direito e muita estratégia. É o caso de Raquel Gabriel, de 29 anos. Moradora da localidade da Tangará, no Morro do Adeus, ela iniciou sua jornada na gastronomia há apenas um mês, mas o sucesso atual é fruto de muito estudo e dedicação.
“Antes de decidir trabalhar com cuscuz, eu fiz uma pesquisa de seis meses para entender o consumo dos moradores”, explica Raquel, demonstrando a visão de negócios que move os novos empreendedores da favela.
Além do faro comercial, o prato de Raquel carrega uma forte carga afetiva e cultural. A jovem trouxe para o evento uma receita repleta de história. Pesquisei e trago a receita da minha avó. Ela sempre fazia em casa, e eu vi a oportunidade de trazer a receita da minha avó nordestina para o Arraiá. Quando fui chamada, eu nem acreditei! Fiquei tão feliz, pois é uma tradição da minha família comer cuscuz”, conta Raquel, entusiasmada com a oportunidade.
Força feminina, persistência e tempero baiano
Falando em tradição e naquele gosto inconfundível de “comida de mãe de dia de domingo”, a Barraca Maria Pimenta estreia no Arraiá trazendo a potência do tempero baiano. Com um cardápio rico em bobó, pimenta e moqueca, o espaço é comandado exclusivamente por mulheres e celebra uma vitória construída após anos de tentativas.
A matriarca da família, Maria Conceição, não esconde as lágrimas ao ver o sonho se materializar no meio da festa. Para ela, estar ali é a resposta de uma persistência que teve a própria história do jornalismo comunitário como combustível. “Eu via o René na televisão e a história dele é uma inspiração. Meu sonho era participar do evento, eu me inscrevi e persisti, e o sonho se realizou. Hoje eu estou aqui com a minha família e estou emocionada”, conta Maria Conceição.

Vitrine de talentos, afetos e sonhos
A presença de novos rostos e temperos como os de Janaina, Wellington, Raquel e Maria Conceição reforça o papel do Arraiá muito além do entretenimento. O evento se consolida como uma vitrine fundamental para a economia criativa local, impulsionando o microempreendedorismo e permitindo que o público saboreie pratos feitos com rigor e planejamento, mas temperados com histórias reais de dedicação, memória familiar, ancestralidade e amor.
