No subúrbio do Rio de Janeiro, onde a memória se constrói em retalhos, linhas e afetos, a moda também pode ser um ato de resistência. Criada a partir de uma herança familiar que atravessa gerações, a marca conhecida hoje como “O Tal do Bonequinho” nasce da união entre mãe e filho, costurando ancestralidade, território e identidade em cada peça produzida.
A história começa muito antes de a marca existir formalmente. Vem da bisavó alfaiate, passa pela avó costureira, chega à mãe modelista e desemboca no filho, Italo William, criado entre máquinas de costura, tecidos e sambas. “Eu desde moleque de chão via elas costurando. Quando ficava de castigo, minha mãe me botava do lado dela, enquanto trabalhava”, relembra o empreendedor, nascido e criado em Rocha Miranda, na Zona Norte do Rio, onde viveu por mais de 30 anos.
A mãe, natural de Salvador, carrega na bagagem a marca do êxodo nordestino. Veio ainda criança para o Rio, após perder o marido, e encontrou na costura não só sustento, mas permanência. “A costura sempre fez parte da minha vida. Eu virei camiseira*, calarinheira*, ensinava ele desde pequeno. Era eu que vestia ele bem arrumadinho, mesmo quando eu estava com o chinelo amarrado”, conta, entre risos e orgulho.
Essa convivência diária com o fazer manual foi, sem que percebessem, uma formação. Ainda adolescente, o filho aprendia com a mãe o que era ficha técnica, organização e processo, ensinamentos que hoje se refletem diretamente na estrutura da marca. “Na época eu achava que nunca ia precisar disso. Hoje faço ficha técnica de tudo”, diz.

A virada acontece quando a necessidade encontra a criatividade. Sem dinheiro para comprar roupas de marca, ele passa a usar peças feitas pela mãe. Uma calça xadrez, uma camisa diferente, um bolso em outra cor. No samba, as roupas chamam atenção. “Eu usava algo que ninguém tinha. Literalmente”. O improviso vira oportunidade e o empreendedorismo nasce ali, no território, entre rodas de samba e tecidos que antes iriam para o descarte.
A marca surge sem plano formal, sem estratégia de branding*. Surge na vida real. O nome carrega o sobrenome da família e a palavra “modas”, em homenagem à avó. O símbolo, um bonequinho sem camisa, já existia antes mesmo da marca: era uma tatuagem, um desenho feito por uma amiga alemã anos antes. O apelido “o tal do bonequinho”, repetido nas rodas e nos encontros, acabou batizando definitivamente o negócio.
Mais do que roupas, as peças contam histórias do subúrbio. A primeira estampa foi sobre Rocha Miranda. Depois vieram referências ao jogo do bicho, à espada de São Jorge presente nas casas, aos bate-bolas, tradição que também atravessa sua família. “Tudo vem daquilo que eu vivi. É memória transformada em estampa”.
A mãe acompanha tudo de perto. Trabalha com o filho, recebe por isso e faz questão de reforçar a dignidade do trabalho. “Não é só sobreviver. Trabalho tem que gerar retorno. A gente quer mais, quer arte, quer dignidade”, afirma. Para ela, o sucesso do filho está na capacidade de transformar dificuldade em caminho. “Todo problema tem uma solução ao lado.”
Atualmente, a marca veste sambistas, artistas, programas de TV e circula por diferentes territórios, sem nunca romper com suas origens. As roupas são agênero, o antigo unissex, pensadas para o corpo real, com tecidos leves, funcionais e acessíveis. Agora, com 42 anos, Ítalo pensa alto e os próximos passos incluem coleções femininas e infantis, sempre partindo da memória e da vivência periférica.
“O subúrbio é muito rico, mas pouco contado”, reflete o criador. Ao transformar sua própria história em narrativa visual, ele não apenas constrói uma marca, mas reafirma que o subúrbio não é ausência, é potência, criação e legado.


*Camiseira – Quem confecciona ou ajusta camisas.
*Calarinheira – Quem faz ou ajusta calças (em algumas regiões se usa “calarim” ou “calarinho” como referência a peças de roupa).
*branding – Gestão estratégica de uma marca, focada em construir sua identidade, reputação e valor na mente dos consumidores.
