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Herus Vive: a fotografia como denúncia e resistência

Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades
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Por: Rafaela Leondy

As fotos da manifestação Herus Vive trazem à memória o caso de Herus Guimarães Mendes, jovem morto durante uma festa junina na comunidade do morro Santo Amaro, na Glória, Rio de Janeiro. Em junho de 2025, uma festa na comunidade foi interrompida por uma operação do Batalhão de Operações Especiais (BOPE), marcada por uma intensa troca de tiros que resultou na morte do rapaz.

O fotógrafo Uendell Vinícius fotografou e compartilhou em suas redes sociais os registros do protesto organizado pela família e amigos de Herus. As imagens tiveram grande repercussão, pela sensibilidade e pela denúncia.

Entre o medo e a resistência

A fotografia mostra um plano aberto com muitos elementos e tem poder de sintetizar toda a situação trazendo diversos elementos importantes do ponto de vista jornalístico. Em primeiro plano vemos a figura desfocada de um agente policial, com roupa camuflada, cabeça coberta e arma em punho o que simboliza a ameaça constante e cria uma sensação de ambiguidade — entre o medo e a resistência, o visível e o oculto. O ponto de vista escolhido pelo fotógrafo reforça essa tensão. Ele se posiciona atrás do policial, sem ser visto, revelando o cenário a partir de um ângulo que sugere uma barreira invisível entre o agente e os moradores, como se um muro simbólico os separasse. Essa composição reforça a sensação de distanciamento entre Estado e comunidade. O policial está no canto esquerdo do quadro mas nos ajuda a direcionar o olhar para o segundo plano da imagem, rico em elementos e que ocupam grande parte da narrativa proposta pela fotografia. Os manifestantes, moradores e familiares mostram suas faixas e cartazes com as mensagens de paz e indignação e se misturam com as bandeiras da festa de São João, evento que foi marcado pela violência e pela morte de Herus. As bandeiras são coloridas e cobrem algumas faixas e os rostos de algumas pessoas, mas não conseguem diminuir o impacto das frases escritas. Alguns moradores parecem estar alheios ao protesto, um homem passa caminhando com suas sacolas de mercado, como se seguisse o caminho de sua casa. Uma mulher observa por trás de um portão, enquanto dois homens conversam na porta de uma casa.

O equilíbrio da imagem é obtido pela disposição dos elementos: o policial, situado à esquerda, ocupa o primeiro ponto dourado da regra dos terços, o que o torna o primeiro elemento a captar a atenção do observador. O espaço vazio da rua contribui para destacar esse “muro invisível”. As linhas formadas pelas bandeirinhas de festa junina conduzem o olhar para a parte inferior da imagem, onde estão os manifestantes. As pessoas, escondidas atrás das placas e das bandeirinhas, parecem se proteger, como se estivessem em trincheiras.

Olhando com atenção para as pessoas que seguram as faixas podemos perceber expressões corporais marcadas pelo medo e pela defesa. Os moradores se abrigam atrás de muros e cartazes, enquanto o soldado empunha o fuzil de forma tensa, preparado para reagir. As relações de poder são evidentes: de um lado, a população acuada e vulnerável; do outro, o policial armado e protegido. Logo a cima do grupo de pessoas e das bandeiras podemos ver um homem, sem camisa, que observa a cena e olha diretamente para o policial que está no primeiro plano e nós espectadores da imagem seguimos seu olhar completando o ciclo narrativo desta fotografia poderosa.

O consolo que vem da favela

Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades

Outra imagem também chama atenção. O cantor Oruam aparece abraçado a Mônica Mendes, mãe da vítima. A fotografia tem textura nítida, sem aspereza, com alguns pontos de brilho e realces que ajudam a destacar o momento. A luz é natural e suave, iluminando os rostos de Oruam e Mônica enquanto o fundo revela os vizinhos acompanhando e gravando a cena. A lente usada tem média profundidade de campo, o que permite perceber o entorno sem tirar o foco principal do abraço.

O fotógrafo está posicionado de frente e um pouco abaixo do enquadramento dos dois, criando um leve ângulo contra-plongée. Essa escolha faz com que Oruam ganhe destaque na imagem, simbolizando força dentro da comunidade. O gesto do abraço carrega a representação do coletivo: o corpo de um consola o corpo do outro, e juntos parecem representar toda a favela em luto.

A imagem é equilibrada e bem centralizada. As linhas da parede e do portão ao fundo criam uma simetria natural que guia o olhar para o centro, onde a emoção se concentra. As bandeirinhas de festa junina aparecem na parte superior da imagem e lembram a celebração interrompida pela violência. O muro com pichações e adesivos traz a marca da liberdade de expressão da comunidade, mostrando que ali, mesmo em meio à dor, existe vida, arte e resistência.

A cor azul da camisa de Oruam se conecta com a roupa do menino na foto que Mônica segura no peito. Oruam representa ali o jovem que viveu para contar a história, aquele que entende a dor da mãe porque conhece de perto o medo, o enquadro, a ameaça e a perda. Ele sabe o que é estar do outro lado da mira.

Mônica chora enquanto segura o retrato do filho e é acolhida por Oruam. O gesto é silencioso, mas diz tudo: o colo que ela recebe pode não ser o do seu menino, mas é um gesto de consolo, de continuidade e de esperança. A boca do jovem não fala, mas o olhar diz que vai ficar tudo bem.

O quadro que Mônica segura é símbolo de memória, daquilo que não volta mais, mas que permanece como força e lembrança. Tudo na imagem fala — do gesto ao olhar, das cores às marcas no muro — e o que se constrói ali é mais que uma cena de dor, é um retrato da resistência e do amor em meio à perda.

A potência da voz coletiva

Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades

À frente da manifestação, Oruam aparece em outro registro feito por Uendell. O olhar perdido e as crianças ao fundo dão a impressão de movimento sonoro. Ao observar a imagem, quase se ouve o grito das crianças. A posição da câmera também importa: ela explora a imponência de quem representa a comunidade e tem voz para ser ouvido. Oruam se destaca pelo tom azul de sua roupa, além de estar posicionado no centro da imagem, as duas crianças ao seu lado olha cada uma para uma direção. Somente uma criança olha diretamente para a lente da câmera e captura o olhar de quem observa a fotografia.

A cena se organiza em camadas. No primeiro plano, Oruam surge como figura central, quase um porta-voz do coletivo. Atrás dele, os rostos jovens segurando cartazes dão a dimensão da luta que atravessa gerações. É a infância e a adolescência já marcadas pela violência, mas também mobilizadas para resistir. No fundo do quadro podemos observar novamente a presença das bandeirinhas como uma memória trágica da festa.

O uso da luz natural valoriza os detalhes dos cartazes e dos olhares, reforçando a sensação de urgência. A câmera, posicionada ligeiramente de baixo para cima, amplia a imponência de Oruam, mas não o isola: ele está junto dos meninos e meninas, quase no mesmo nível. É como se a imagem dissesse que sua voz tem potência, mas só tem porque ecoa a voz da comunidade.

As linhas criadas pelos cartazes conduzem o olhar para o centro da cena. As palavras contidas nas faixas atravessam a fotografia. Não há silêncio possível diante de tantos olhares fixos, de tantas bocas silenciadas.

Fotografar é também denunciar

Uendell, que também é fotógrafo do jornal Voz das Comunidades, tem como foco principal mostrar a favela em sua essência, além de chamar atenção para os problemas enfrentados pelos moradores. Em entrevista concedida ao Conspira Foto, o fotógrafo destacou a repercussão e a intenção das imagens.

“Essa foto repercutiu bastante e foi um momento muito, muito triste. Quando cheguei em casa, fiquei vendo as fotos e percebi que muita gente estava compartilhando o que eu tinha feito. Até o perfil da Ninja postou, uma página que eu admiro muito”, contou.

O jovem também ressalta a mensagem que deseja transmitir com seu trabalho: “O que eu quero mostrar para a mídia é que o Estado vem oprimir um povo favelado, dentro da favela, perto de casa. Eu lembro que, quando ele faleceu, o pessoal estava falando que ele morreu com um telefone na mão, com um comprovante de Pix. Ele tinha feito um Pix para o rapaz, porque foi comprar um lanche na festa junina. Estava entrando na comunidade dele quando foi alvejado com um tiro e faleceu. Isso que eu quero mostrar através das fotos, justiça, só isso.”

O impacto fotográfico está presente diretamente na vida de Uendell, para ele a imagem é uma arma de denúncia potente.

“A fotografia pode te ajudar, mas também pode te prejudicar muito, entendeu? E é dessa forma: a fotografia é uma grande bomba, é uma grande porta de denúncia. Eu acho que tem que ter muita, muita responsabilidade em saber o que você está fazendo, o que você quer fotografar, se realmente você quer fotografar aquilo, entendeu? Eu acho que, antes de fotografar, a gente precisa se perguntar: e depois? O que pode acontecer depois dessa foto?”

Rafaela Leondy
Estudante de Jornalismo da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, fotógrafa e integrante do grupo de extensão ConspiraFoto. Suas atividades são voltadas à investigação das relações entre imagem, território e narrativas periféricas, explorando a fotografia como ferramenta de comunicação e transformação social.