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Cria da Vila Kennedy assina o primeiro desfile da Kenner no Rio Innovation Week

Estilista exalta a estética negra e favelada e é reconhecido internacionalmente

Aos 25 anos, Jeanderson comanda a loja Pina. Foto: Bleia
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“A minha ideia é fazer com que a estética periférica não seja vista como algo vulgar”, essa é frase de Jeanderson Martins, também conhecido como Abacaxi. Aos 25 anos, o estilista assinou o Delusional Garden Experience, o primeiro desfile da Kenner no Rio Innovation Week que aconteceu na última sexta (15). O evento abordou futurismo, moda periférica e inovação a partir do conceito de fundo do mar. Além do desfile, o encontro também promoveu trocas entre artistas visuais, dançarinos e DJs de favela.

Hoje, Abacaxi é fundador da marca Pina, reconhecida por enaltecer a estética de cria com estampas, cores e elementos cotidianos de toda periferia. Até mesmo a cantora Anitta já adquiriu peças da loja para produção de clipes. No entanto, essa caminhada de sucesso não é de agora. Aos 14 anos, Abacaxi comanda um brechó lá na Vila Kennedy, lugar onde é cria. A estética da sua mãe e de suas primas, enquanto mulheres pretas de favela, é até hoje a principal inspiração para este trabalho.

Modelos negros e periféricos entregaram beleza e poder na passarela da Kenner. Foto: Bleia

“A minha loja é toda inspirada na minha mãe, na história dos meus pais. Tudo que eu penso em fazer relacionado ao funk, relacionado a estética de favela, eu pergunto para minha mãe. ‘Mãe, o que você acha?’; ‘Tá legal?’, ‘Você usaria nos anos 2000?’. Porque é o que eu tenho cravado comigo: a vibe dos anos 2000. Não que o funk de hoje em dia não seja bom, mas naquela época a gente sentia muito. E é isso que eu quero que a galera não esqueça!”, conta Abacaxi.

O funk e a criatividade dos morros, becos e vielas também guiam este trabalho. No desfile, não faltou shortinho e chinelo. Mas Abacaxi também entregou cabelos poderosos, pedrarias e muito luxo. O processo criativo do desfile foi desafiador, mas ele afirma “consegui mostrar que a estética de favela se adapta em qualquer ambiente”. Para ele, a racialidade é um fator determinante para algo ser entendido como vulgar ou não. Através de suas peças, Abacaxi mostra o quanto a favela é criativa, inovadora e bela.

“Lá no meu perfil tá assim: ‘Da VK para o mundo’. As pessoas sempre tem que saber de onde eu vim, o porquê eu faço essa estética e falo sobre isso. A galera precisa entender onde entra o fashion na favela. A minha ideia é fazer com que a estética periférica não seja vista como algo vulgar. Porque muita das pessoas olham e pensam: shortinho muito curto é coisa de piriguete; uma blusa de time é coisa de favelado. Tudo isso só se torna bonito e fashion quando se está no corpo branco, sabe? Uma galera elitizada. Então, eu não quero que a galera veja só isso. Quero que entendam que tem a parte 2”, explica o estilista.

Quem também marcou presença no evento foi Pablinho Fantástico, dançarido de Passinho Foda e integrante do Oz Crias. Para ele, vivenciar o primeiro desfile da Kenner é um marco na trajetória. Foi o barulho do chinelo e o talento na arte favelada que trouxe o sucesso nas redes sociais e uma outra forma de viver a vida. O movimento do passinho nas favelas transformou a vida de Pablinho e segue impactando gerações.

“O passinho virou possibilidade na minha vida a partir do momento que eu entendi que a dança veio para me resgatar, que ela era minha válvula de escape de toda aquela realidade sombria que eu tinha dentro da minha favela; e que também era que não era só sombria. Tinha lados bons, sabe? Tem até hoje. Eu caminhei certas vezes por caminhos errados para poder aprender. E logo depois, a dança veio para me resgatar, de abraço mesmo familiar e como um filho. Quando eu pensei que não, eu estava querendo me profissionalizar daquilo mesmo sem saber como. Quando eu me peguei, eu já estava lá sendo o cara do passinho representando a favela e mostrando que um movimento pode causar, mudar e modificar tanto mentalmente quanto carnalmente, falando de vida material também. Então, é revigorante na minha vida poder estar aqui hoje também representando com a Kenner e viver cada momento que eu vivi. O que eu passei o que me proporcionou cada história que eu tenho”, afirma Pablinho.

Confira outras fotos do desfile: