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Transmasculinidades: Dhiego e a experiência da paternidade construída no cuidado e no ativismo

Entre o cuidado com as filhas gêmeas e a formação de profissionais, Dhiego Monteiro utiliza sua vivência e formação estratégica para pautar a visibilidade trans nos espaços de saúde e o direito ao afeto na Baixada Fluminense.

Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades
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Dhiego Monteiro é uma voz potente na reafirmação das transmasculinidades no cenário atual da saúde e da parentalidade brasileira. Homem trans não binário (utiliza pronomes masculinos ou neutros) e morador de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, Dhiego traz para o centro do debate uma interseção rara e necessária: a visão de um Analista Internacional e Gestor Estratégico formado pela UFRJ com a sensibilidade de quem atua na linha de frente como doula (profissional treinada para oferecer suporte físico, emocional e informativo contínuo a gestantes antes, durante e após o parto) e educador perinatal.

Ele viveu na pele os desafios e as potências de gestar e dar a vida às suas filhas gêmeas, uma experiência que hoje fundamenta e atravessa todo o seu ativismo técnico e político. “No meu caso, que tenho o privilégio de ter gêmeas, é incrível ver a interação delas também, delas descobrindo as coisas juntas. Então, é uma coisa muito boa e eu acho que a questão da parentalidade trans é que a gente entende também que tem que ser uma escolha.Eu acho que a gente tem que ter se a gente quer, por isso também que eu falo em políticas públicas, em planejamento reprodutivo, para que seja algo mesmo que você tenha se você quiser. Se você não quiser, você não precisa ter. E é isso.”

Ao ocupar espaços como a coordenação da Roda de Famílias LGBTQIPAN+ e atuar em núcleos de direitos reprodutivos do IBRAT, Dhiego desafia as lacunas do sistema público e privado. Sua presença no mês da visibilidade trans não é apenas figurativa; é uma ocupação técnica. Como doula educador formado pela EPSJV-Fiocruz, ele transforma sua vivência em uma ferramenta para garantir que corpos trans ocupem, com dignidade, os espaços de cuidado e gestação.

Ao ocupar uma profissão historicamente associada ao feminino, Dhiego ressignifica a atuação da doula. Ele pontua que, embora a falta de regulamentação da profissão imponha desafios a todos os profissionais, para um homem trans as barreiras são acentuadas pelo preconceito institucional e por resistências culturais, que vão desde a desconfiança técnica até o machismo de parceiros que dificultam sua contratação.

Longe de se restringir ao parto, Dhiego expande seu impacto na capacitação de equipes de saúde através de oficinas e referências científicas que tiram a população trans da marginalidade clínica. Sua presença em projetos como os da UERJ (Doulas na UERJ: Promoção de Educação Perinatal) oferece uma “âncora de representatividade”: para muitos que chegam ao sistema de saúde atravessados por traumas, encontrar um profissional que compartilha de sua identidade é o que permite o restabelecimento da confiança no processo de gestar.

Dhiego Monteiro ao lado do companheiro, Eduarde, e das filhas gêmeas. O ativista destaca a importância de visibilizar o afeto e a rotina das famílias transmasculinas.
Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

Parentalidade e Adoção

A expertise de Dhiego se estende também ao campo da adoção, onde atua como doula certificado pelo Instituto Doulas de Adoção Brasil. Esta é uma formação rigorosa que prepara o profissional para acompanhar famílias no complexo processo jurídico e afetivo dos laços adotivos. Para ele, ocupar esse espaço é uma forma estratégica de pautar as “parentalidades estranhas” (termo acadêmico para o que foge à norma) em um meio que carece de sensibilização. “Queria viver num mundo que a gente não precisasse se esforçar para mudar essas coisas e para acessar direitos básicos. Pessoas trans estão pedindo pra poder acessar o banheiro, entendeu? Para poder respeitar nossos nomes, pra gente ser respeitado com nosso nome, nosso pronome.”  Através de rodas de conversa e debates, ele trabalha para que o sistema de justiça e saúde compreenda as especificidades das identidades trans, garantindo que o direito de constituir família seja respeitado em todas as suas configurações.

Para Dhiego, o ato de amamentar ultrapassa a nutrição biológica; é um ato político contra-hegemônico. Ele analisa a amamentação como uma resistência contra um sistema capitalista que prioriza fórmulas e contra estereótipos que confinam o cuidado à mulher cisgênero. Ao amamentar suas filhas, ele enfrentou a “deslegitimação da identidade”: pessoas que o respeitavam no masculino passaram a usar pronomes femininos de forma compulsória, como se o ato de nutrir anulasse sua masculinidade. “Nossas crianças trans também merecem o direito ao leite humano”, afirma, defendendo a urgência de licenças parentais estendidas e inclusivas.

Sobre as datas de visibilidade, Dhiego é enfático: visibilidade sem empregabilidade é um discurso vazio. Ele observa como a onda conservadora tem reduzido convites e trabalhos, defendendo que aliados reais devem consumir a arte, a literatura e a técnica trans o ano todo. “Ninguém vai te contratar como profissional de saúde se você só lembra que existimos em março, mas produz conteúdo que nos apaga no resto do ano”, provoca.

Para além das lutas, a vida de Dhiego ao lado de seu companheiro, Eduarde, é um testemunho de alegria. Ele escolhe enfatizar as “coisas boas” para contrapor a narrativa de sofrimento que costuma cercar pessoas trans. Ver a interação entre as gêmeas e o desabrochar de suas curiosidades é o que dá sentido à jornada. Embora defenda que o planejamento reprodutivo e políticas de emprego sejam vitais para que o fator financeiro não barre o desejo de ter filhos, Dhiego encerra reforçando que a maior resistência está na possibilidade de amar. Naturalizar sua existência como uma “família normal” é o passo final para garantir que o futuro cresça com dignidade dentro de casa.