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Muito além da informação: Voz das Comunidades há 20 anos impacta vidas por meio do trabalho social

A área de impacto social salvou vidas, combateu a fome antes, durante e após a pandemia, mobilizou pessoas e proporcionou oportunidades

Criado em 2020, o Gabinete de Crise distribuiu alimentos, itens de higiene e de proteção para moradores em situação de vulnerabilidade. (Foto: Voz das Comunidades/Gabinete de Crise do Alemão)
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Quando se fala no Voz das Comunidades, para muitos significa acolhimento. Muita gente pensa primeiro no jornalismo comunitário que amplia vozes das favelas do Rio há 20 anos. Mas o trabalho do Voz vai muito além de informar: ele salva vidas, combate à fome, mobiliza voluntários e cria oportunidades. 

E criar impacto social requer mobilização, esforço e sensibilidade. Não são trabalhos simples, mas transformam a experiência coletiva. Geisa Pires, 30 anos, cria do Complexo do Alemão, coordena hoje o time de Projetos Sociais da organização. Ela faz parte do Voz há 14 anos e relembra que o lado social sempre existiu de forma espontânea, mas ganhou estrutura de verdade na pandemia.  

Geisa Pires, atualmente coordenadora de Projetos Sociais da organização, relembra a evolução do trabalho de impacto social do Voz. Foto: Matheus Guimarães/Voz das Comunidades

“Esse trabalho já acontecia com o Rene [Silva] lá no começo, com doações de cestas, chocolates. Mas não tinha um setor social oficial. Isso só surgiu depois do Gabinete de Crise, em 2020, quando a pandemia escancarou a fome aqui”, conta. 

Criado em plena pandemia do Covid-19, o Gabinete de Crise reuniu o Voz das Comunidades, o Instituto Papo Reto e o Mulheres em Ação no Alemão. Durante meses, integrantes dessas organizações moraram na sede do Voz para distribuir alimentos, água, itens de higiene e proteção, enfrentando a ausência total do poder público com estratégias improvisadas, coragem e articulação local. “Muita gente perdeu o emprego. As pessoas pediam comida, coisas básicas. Então a gente correu atrás de padrinhos, doadores, patrocinadores. A equipe do Voz morou na sede por seis meses, para não expor as famílias. Foi duro, mas necessário”, relembra Geisa. 

Gabinete de Crise do Alemão reinventou a comunicação para comunicar moradores que não tinham acesso à internet Foto: Bento Fabio

Na linha de frente, mais de 30 voluntários se mobilizaram para arrecadar alimentos, kits de higiene, álcool em gel e máscaras. A mobilização foi coletiva. Camila Moradia, ativista e fundadora do grupo Mulheres em Ação, relembra que também foi preciso reinventar a forma de comunicar: “A gente falava com quem não tinha acesso à internet. Usamos carro de som, cartaz na viela, grupo de zap. Informação salva, mas só se ela chegar”, conta. 

Camila Moradia, do Mulheres em Ação no Alemão, criou o Gabinete de Crise ao lado do Voz das Comunidades e o Instituto Papo Reto. Foto: Matheus Guimarães/Voz das Comunidades

Em meio a união e ao caos do período pandêmico, nasceu o que hoje é um setor estruturado, como explica Geisa Pires. “Entendemos que não bastava doar. Precisávamos ajudar as pessoas a não depender só disso. A ter acesso a cursos, emprego, autoestima. Isso virou parte do nosso trabalho diário”, diz. Desde então, o número de voluntários se multiplicou: são mais de 160 pessoas mobilizadas em campanhas como o “Por Um Natal Melhor”, “Pázcoa nas Comunidades”, “Invasão de Livros” e “Inverno Invisível”. Essas ações vão além da doação: criam vínculo e confiança com os moradores, explica Geisa. “O voluntário é a peça principal. Você pode ter mil cestas básicas, mas se não tiver quem leve, não adianta nada. Eles são o coração da organização.” 

Atualmente, o setor de Impacto Social se divide nas áreas de Ações Sociais, coordenada por Gustavo Barli, e a de Projetos Sociais, liderada por Geisa Pires. Com a divisão, o alcance das ações sociais atinge com mais profundidade novas comunidades, fortalecendo a confiança da favela com o Voz das Comunidades. Segundo Geisa, a relação com os moradores mudou ao longo dos anos. “Há 20 anos, muita gente tinha medo, não queria dar entrevista. Hoje, é diferente. As pessoas confiam, nos procuram para resolver problemas. Sabem que o Voz é uma ferramenta delas”, destaca. 

Cerca de 30 voluntários, incluindo Gustavo Barli, atual coordenador da área de Projetos Sociais do Voz, se mobilizaram para fortalecer o Alemão durante a pandemia. Foto: Bento Fabio

Esse vínculo também foi essencial para outras voluntárias. Stephany Oliveira, 30 anos, conheceu o Voz na adolescência, ainda morando na Nova Brasília, dentro do Alemão. Ela se envolveu pela primeira vez no Natal Melhor. “Fomos até a casa de uma senhora na Penha. Ela catava latinha para viver, tinha um filho adolescente e a geladeira completamente vazia. Ela abriu as portas da casa, mostrou tudo. Aquilo me impactou demais. Nunca mais consegui ser uma pessoa que pensa só em mim. Passei a pensar na sociedade como um todo”, conta Stephany. 

Foto: Arquivo

Atualmente, o impacto social do Voz das Comunidades chega a outras favelas além do Alemão, como Manguinhos, Mangueira, Vidigal, Jacarezinho e Maré, criando pontes com outras lideranças e fortalecendo a cultura de autocuidado nos territórios. E por trás de cada doação, está a escuta. Geisa nunca esquece o dia em que levou uma cesta básica para um senhor durante uma campanha do Por UmNatal Melhor. “Ele estava capinando o quintal no sol quente. Quando viu a cesta, caiu de joelhos e chorou. Me abraçou e disse: ‘Você foi a minha resposta’. Ali, minha bolha estourou. Entendi que não era só uma cesta. Era sobre presença. Era sobre ser visto. E era isso que eu queria fazer para o resto da vida.” 

A missão do Voz das Comunidades não é simples. Nem promete resolver tudo. Mas, como diz Geisa, o objetivo é claro: “Transformar vidas. E continuar fazendo isso com quem quiser chegar junto.”