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A Voz que ecoa longe: Rene Silva inspira comunicadores populares e projetos comunitários em todo o país

Reconhecido pela revista norte-americana Time como um dos “Líderes da Nova Geração” em 2023, Rene não só impacta as favelas como escolas públicas

Foto: Bruno Itan
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Quando Rene Silva fundou o jornal Voz das Comunidades, em 2005, aos 11 anos, no Morro do Adeus, talvez não imaginasse que, duas décadas depois, sua história se tornaria referência para novas gerações de comunicadores populares. Hoje, ele é mais do que jornalista ou ativista: é símbolo de resistência, transformação e possibilidades, e seu impacto ultrapassa os limites do Complexo do Alemão. 

Reconhecido pela revista norte-americana Time como um dos “Líderes da Nova Geração” em 2023, Rene inspira não só moradores de favelas, mas também escolas públicas e jovens comunicadores do jornalismo local, como é o caso dos alunos do 5º ano da Escola Municipal Antenor Martins, em São Gonçalo. 

Liderados pela professora Francielly Moyses, os estudantes criaram o Anaia em Foco, um jornal feito por eles para relatar histórias do território onde vivem. “A gente estudou a história do Rene, assistiu entrevistas, analisou fotos, as redes sociais dele. Ver alguém que começou tão jovem, numa realidade parecida com a nossa, mostrou para eles que tudo é possível”, conta a professora. 

A semelhança com o próprio início do Voz das Comunidades é inevitável, Rene também deu os primeiros passos dentro da escola, quando, mesmo com apenas 11 anos, insistiu em participar do grêmio estudantil, que produzia jornal e programa de rádio. Da sala de aula para o morro, do morro para o mundo. 

Rene Silva, fundador do Voz das Comunidades, começou o jornal comunitário aos 11 anos, no Morro do Adeus, junto com o irmão Renato Silva Foto: Arquivo Pessoal

O projeto pedagógico da professora Francielly vai além da prática da escrita. Ele busca fortalecer a escuta, valorizar as vivências locais e promover consciência crítica entre os estudantes. “Existe uma potência enorme em se enxergar, em se sentir representado. Eu vejo isso acontecendo com meus alunos. Eles se sentem orgulhosos de contar suas histórias e de escrever sobre o que vivem. O Rene mostra para eles que eles também podem. Que eles têm voz e que essa voz importa”, completa. 

Essa mesma inspiração atravessou o caminho de Fernanda Lima, moradora do Chapadão, que decidiu fundar o Voz de Guadalupe, seu próprio jornal comunitário. “Quando entrei na faculdade, percebi os problemas do Chapadão e comecei a falar deles sem nem saber que existia o Voz. Depois as pessoas me apresentaram o jornal, e quando descobri fiquei muito feliz. Virou minha referência”, conta. 

Fernanda Lima, do Voz de Guadalupe, colaborou com o Voz das Comunidades e tem Rene Silva como inspiração. (Foto: Vilma Ribeiro/Voz das Comunidades) 

Fernanda trabalhou no Voz das Comunidades e afirma que a experiência foi transformadora. “Foi uma escola para mim. Nem estágio eu tinha feito. O pessoal foi super paciente, me ensinou muito. Ver o Rene, que começou pequeno e hoje é referência, me inspira porque mostra que é só começar, mesmo sem estrutura. Ele teve coragem. Isso me inspira a ter coragem também.” 

Manter um jornal comunitário, porém, está longe de ser tarefa simples. Sem renda fixa, Fernanda concilia o projeto com outros trabalhos e luta para conseguir apoio financeiro. “O jornal não dá dinheiro, mas continuo porque amo. Já vejo evolução no trabalho, mesmo com todos os desafios. Eu aprendi a acreditar depois do Voz”, diz. 

A inspiração atravessou estados e chegou até a Bahia. No bairro Nordeste de Amaralina, em Salvador, o exemplo de Rene também ajudou a acender o desejo de comunicar o próprio território. Foi assim que nasceu o veículo comunitário NORDESTeuSOU (NES), criado por Jefferson Borges. 

Jefferson Borges, de Salvador, é fundador do NES e faz parcerias com o Voz das Comunidades (Foto: Uel Silva/Divulgação)

“A ideia do NORDESTeuSOU nasceu da necessidade de dar visibilidade à cultura e à realidade do bairro. Um gatilho importante foi a leitura de uma matéria sobre o Rene Silva, quando ele relatou a invasão do Morro do Alemão. Percebemos o quanto a comunicação local pode ser uma ferramenta poderosa para transformar a percepção externa sobre essas regiões”, relata Jefferson Borges, fundador do jornal. 

Inspirado diretamente no Voz das Comunidades, o veículo buscou um caminho próprio, mas com a mesma missão: colocar os moradores como protagonistas. “Assim como ele, buscamos uma comunicação que empodere e que coloque as comunidades na centralidade da narrativa, desafiando os estereótipos impostos pelos meios tradicionais”, dizem. 

Seja na Bahia, no Rio de Janeiro ou até mesmo fora do país, o impacto do trabalho de Rene Silva ultrapassa os limites geográficos. Longe de ser mais um Silva, ele deu voz para que tantos outros tenham sua história contada. E como ele mesmo afirma: “É só o começo.”