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Quando o calor extremo tem CEP: Altas temperaturas impactam a vida de moradores de favelas do Rio

Levantamento do Observatório do Calor, iniciativa no Complexo do Alemão, apontou que 95% dos moradores afirmaram ter acesso irregular ou precário à água

28 de dezembro de 2025, às 13h05, os termômetros registraram 41,5ºC no Complexo do Alemão, com sensação térmica de 50,6ºC Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades
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As ondas de calor intenso que atingem o Rio de Janeiro não afetam todos da mesma  forma. Enquanto bairros com mais áreas verdes, infraestrutura e acesso regular a  serviços conseguem amenizar os impactos das altas temperaturas, nas favelas o  calor se transforma em mais um fator de adoecimento, sofrimento e risco. No  Complexo do Alemão, na Zona Norte da cidade, o sol castiga com força redobrada, e  os dados comprovam o que os moradores sentem na pele há décadas. 

De acordo com o Observatório do Calor, iniciativa do Voz das Comunidades que mede as temperaturas no território, 418 moradores do Complexo do Alemão foram entrevistados entre setembro e novembro de 2025. O levantamento revelou que 95% afirmaram ter acesso irregular ou precário à água, um dado alarmante em um cenário de calor extremo, no qual hidratação e higiene são fundamentais para a saúde. 

No dia 28 de dezembro de 2025, às 13h05, os termômetros registraram 41,5ºC no Complexo do Alemão, com sensação térmica de 50,6ºC. A combinação de  moradias mal ventiladas, excesso de concreto, falta de arborização e serviços básicos  precários transforma o território em uma verdadeira “ilha de calor”, onde resistir às  altas temperaturas se torna um desafio diário. 

Termômetro de medição usado pela equipe do Observatório do Calor no CPX do Alemão Foto: Jessica dos Santos

“Aqui no morro, o sol cozinha. Na Zona Sul, com árvore e praia, é outro clima. A gente  paga com a saúde o privilégio de quem mora lá embaixo”, desabafa Dona Maria, de  67 anos, moradora do Morro do Adeus. A fala traduz uma percepção coletiva: o clima  extremo também é um reflexo da desigualdade urbana. 

É UPA direto

Os impactos vão além do desconforto. “Minha filha asmática sofre demais. No verão  é umidade baixa, calor, poeira… É UPA direto. Isso é negligência”, relata Adriana, de  36 anos, moradora da Grota. Problemas respiratórios, desidratação, pressão alta e  agravamento de doenças crônicas se intensificam nos meses mais quentes,  sobrecarregando famílias e o sistema público de saúde. 

Para tentar escapar do calor dentro de casa, moradores recorrem a estratégias  improvisadas. “Dormi muitas vezes na laje com meus filhos e acordei com o sol às 5  da manhã no rosto, para ter o mínimo que era uma noite tranquila, porque o calor era  insuportável dentro de casa”, conta uma moradora do território. 

A desigualdade climática não é um fenômeno novo. Já nas décadas de 1950 e 1960,  Carolina Maria de Jesus relacionava racismo e condições ambientais nas favelas,  destacando como a cor da pele e o território determinavam quem sofria mais. Para o  professor Claudio Carvalho, professor de direito urbanístico, ambiental e agrário da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), essa lógica permanece atual. “Se reconhecemos que as cidades são  desiguais, precisamos admitir que as mazelas afetam diferentemente os desiguais.  As pessoas mais expostas têm cor e classe social. Eventos climáticos extremos  agravam desigualdades históricas”, afirma. 

Claudio Carvalho é professor de direito urbanístico, ambiental e agrário da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB) Foto: Reprodução

Segundo ele, a ausência de planejamento urbano no pós-abolição empurrou  populações negras para áreas sem estrutura, marcadas pelo risco e pela negligência  do poder público. “A principal luta do racismo ambiental é o território”, resume. 

Diante do avanço das mudanças climáticas, o calor extremo deixa de ser apenas um fenômeno natural e passa a ser também um problema social, racial e político. Nas favelas, onde faltam água, sombra e políticas públicas efetivas, o verão não é só mais  quente, é mais injusto.

 Favela no cotidiano do verão 
Foto: Felipe Gomes

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