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Praia do Vidigal encanta, mas falta acessibilidade aos moradores

Escadas dão acesso ao local, mas barreiras ainda excluem idosos e pessoas com deficiência

Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades
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Quem passa pela Av. Niemeyer e espia lá de cima sabe: a Praia do Vidigal é um dos cenários mais bonitos do Rio de Janeiro. Um refúgio paradisíaco de águas (muitas das vezes) cristalinas aos pés do Morro Dois Irmãos. O acesso a esse pedaço de paraíso na Zona Sul do Rio de Janeiro, durante anos, foi motivo de muita luta dos moradores da comunidade. Depois que a unidade do hotel Sheraton tampou a vista e privatizou a praia, foram inúmeras reuniões e embates entre a população, o poder público e a administração do Hotel Sheraton até que se chegasse a um consenso: a construção de uma escada que contorna o hotel e libera a passagem para a areia.

No entanto, o que deveria ser uma solução democrática acabou revelando uma nova barreira invisível e cruel. A escada, íngreme e longa, tornou-se um muro para uma parcela significativa da população. Pessoas com deficiência ou mobilidade reduzida simplesmente não conseguem chegar à praia. O direito ao lazer, garantido por lei, para na primeira bateria de degraus.

Tão perto da praia, tão longe do mar

O impacto dessa exclusão tem nome, sobrenome e muita história no morro. Rita de Cássia, 61 anos, é cria do Vidigal e guarda na memória os dias de sol que passava na beira daquele mar. Hoje, essas memórias cedem lugar à frustração. Aposentada, Rita só tem contato com o mar do Vidigal através da sua sacada. Moradora do 14, próximo à passarela, Rita detalha que antigamente frequentava a Praia do Vidigal com mais afinco. Agora, a história é completamente diferente. “Eu tenho taxa elevada de ácido úrico no pé, e já operei ligamento de joelho. Então não tenho mais a força de antes. A praia é maravilhosa, mas o acesso à ela é difícil porque são muitas escadas, além de muito íngreme.”

Foto: Por conta das dores no joelho e pé, Rita de Cássia, moradora do Vidigal, não consegue acessar a praia da comunidade. Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

Rita não precisa de muletas para se locomover, mas aponta que outros moradores do Vidigal que possuem mobilidade reduzida também não acessam. “É triste ver que pessoas que moram aqui há anos não poderem frequentar uma praia que fica bem em frente à comunidade porque o acesso foi pensado apenas para quem tem total mobilidade”, se queixa.

“É impossível para quem tem limitações”

Valesca de Souza, de 52 anos, trabalha vendendo sacolé na praia do Vidigal há mais de 20 anos. Ela lembra que a escada que dá acesso à praia foi algo que foi sendo conquistado aos poucos. “Tinha uma época que não tinha esse corrimão. Tinha muitos acidentes no verão por conta do movimento de visitantes aqui. Mas isso não permite que pessoas que usam cadeira de rodas possam vir, né? Não tem nada aqui”. Ela conta que o hotel Sheraton, localizado em frente à praia, não permite a passagem de moradores. “Nos casos de emergência, quando precisa ambulância ou bombeiros, aí eles descem por dentro do hotel.”

Fotos: Valesca trabalha há mais de 20 anos na Praia do Vidigal e encara a escada quase todos os dias. Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

Leandro Oliveira, de 32 anos, também trabalha na Praia do Vidigal. Cria da comunidade, ele relata as dificuldades de levar sua mãe para a beira da praia. “A praia fica bem na frente da nossa favela. Quando a gente traz ela, preciso descer com ela no colo. É perigoso pra mim e muito mais pra ela”. Questionado se o hotel permite o acesso dela à praia pelo interior, ele responde negativamente. “Eles dizem que não pode. O acesso dali para praia é só para quem paga, para quem é hóspede.”

Fotos: “Minha mãe é cadeirante. Quando a gente traz ela, preciso descer com ela no colo”, relata Leandro (esq), morador do Vidigal Fotos: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

A dificuldade não passa despercebida nem mesmo por quem tem a saúde física em dia. Entre os frequentadores da praia, o sentimento é de solidariedade e revolta. Moradores que descem as escadas para o mergulho diário relatam que o trajeto já é cansativo para jovens e adultos saudáveis, tornando-se impraticável para quem necessita de qualquer tipo de auxílio. “Vim de Japeri para conhecer a praia hoje. Achei linda. É bom que tenha uma escada, mas são muitos degraus. Se pra mim tá sendo difícil, imagina para quem tem alguma dificuldade?”, reflete Wynne Souza, de 28 anos, que revela que tem uma pessoa cadeirante na família. “Em dezembro do ano passado, levamos o Rafael na praia e tivemos dificuldades. Não conseguimos chegar até a água do mar, pois não teria como empurrar a cadeira, e não conseguimos carregar ele no colo pois é muito pesado.”

Foto: Pessoas PcDs encontram dificuldades para acessar praias no geral

A equipe de reportagem do Voz das Comunidades entrou em contato com a assessoria do Hotel Sheraton para questionar o acesso de moradores com mobilidade reduzida por dentro da unidade hoteleira. O Voz também questionou a Secretaria Municipal de Infraestrutura do Rio de Janeiro sobre a existência de um projeto que facilite o acesso de PcDs e idosos. Até o fechamento desta matéria, não recebemos resposta.