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O peso do descarte: Entre a crise do lixo e a luta contra o racismo ambiental nas favelas do Rio

Entre recordes de chuva e o descaso histórico, o 'trabalho de formiguinha' no descarte de móveis vira ferramenta de sobrevivência no Alemão, Acari, Manguinhos e Jacarezinho

Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades
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Quem nunca viu um sofá velho ocupando o espaço do pedestre ou uma geladeira enferrujada acumulando água da chuva em um canto da favela? O que parece apenas descuido urbano é, na verdade, a ponta de um problema estrutural que afeta diretamente a saúde e a qualidade de vida nas comunidades do Rio de Janeiro. O descarte irregular de “lixo pesado”, como colchões, móveis e eletrodomésticos, é um dos maiores desafios para a limpeza urbana e um risco constante para moradores de áreas vulneráveis.

Para Mayse Freitas, moradora do Complexo do Alemão e ativista social, a falta de educação ambiental também contribui para o problema. “Infelizmente, dentro e em torno da favela, muitas pessoas não têm educação ambiental. Poderiam colocar os móveis ou eletrodomésticos em um local adequado e ligar para a prefeitura agendar a retirada ou levar até um ecoponto, mas muitas vezes não querem se dar ao trabalho”, afirma.

Especialistas apontam que o descarte irregular nas comunidades não é apenas um problema de comportamento individual. Ele também reflete a falta de infraestrutura e de políticas públicas de comunicação adaptadas à realidade local. “O correto seria pensar alternativas melhores para o destino final dos resíduos que produzimos”, diz Thuane Nascimento, diretora executiva da Perifa Connection. Esse cenário se agrava durante temporais. O acúmulo de resíduos pode obstruir galerias e canais, impedindo o escoamento da água e provocando alagamentos. Além dos prejuízos materiais, surgem riscos sanitários, como a proliferação de vetores de doenças como dengue e leptospirose.

Thuane também destaca que essa realidade evidencia o racismo ambiental na prática. Enquanto em bairros mais ricos o lixo desaparece rapidamente do cotidiano, nas periferias as populações convivem com todo o ciclo do descarte, do mau cheiro às doenças. “O ideal seria não existir lixão em lugar nenhum. Mas, já que existe, por que algumas populações precisam conviver com lixo a céu aberto, saneamento precário e água contaminada, enquanto outras não veem nem de onde vem o lixo que produzem?”, questiona.

Sem a informação, moradores descartam lixo pesado perto pequenos de lixões
Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades

O retrato crítico de 2026

Dados do Alerta Rio e do Instituto Nacional de Meteorologia reforçam a urgência do tema. Janeiro de 2026 foi o mês mais chuvoso em quase três décadas na capital fluminense, e fevereiro também registrou temporais intensos. Os impactos foram mais severos justamente em áreas onde o acúmulo de resíduos é maior.

Em Acari, cortada pelo Rio Acari, o transbordamento do rio foi agravado pela quantidade de lixo que impede o fluxo da água, transformando ruas em lama e esgoto. Já no Complexo do Alemão, o relevo acidentado aumenta o risco de deslizamentos. O descarte de móveis e entulho em encostas pesa sobre o solo encharcado e bloqueia o caminho natural da água, colocando famílias em perigo.

Em comunidades planas como Manguinhos e Jacarezinho, qualquer obstrução pode ser fatal. Quando um bueiro é entupido por resíduos volumosos, a água invade as casas rapidamente, causando perdas materiais e ampliando a vulnerabilidade social.

Mudar essa realidade exige infraestrutura e políticas públicas eficientes, mas também um esforço coletivo dentro das próprias comunidades. “Na Sebastião de Carvalho, no Alemão, às vezes as caçambas estão vazias e o lixo fica do lado de fora porque as pessoas não jogam dentro. Isso evitaria muitos problemas ambientais”, relata Mayse.

Ecopontos e pontos de entrega voluntária

Uma alternativa para o descarte correto são os Ecopontos, unidades instaladas pela Comlurb que recebem resíduos volumosos que não podem ser recolhidos pela coleta domiciliar. Nesses locais, moradores podem descartar gratuitamente itens como sofás, armários, geladeiras, fogões, restos de poda e entulho de pequenas obras. Além deles, existem os Pontos de Entrega Voluntária (PEVs), estruturas menores instaladas em locais de grande circulação, como praças e entradas de comunidades. Nesses contêineres são depositados resíduos recicláveis, como papel, plástico, vidro e metal, fortalecendo a coleta seletiva nas favelas. 

Os moradores podem levar diretamente para o Ecoponto os “lixos pesados” – Ecoponto Vila Paloma.
Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

Com infraestrutura adequada e participação da população, o lixo pesado pode deixar de ser um obstáculo e passar a ser parte de uma gestão mais sustentável dos territórios, fortalecendo a resiliência das comunidades diante de eventos climáticos cada vez mais extremos.


Comunidade / Região

Localização Aproximada / Ponto de Referência
Complexo do AlemãoEcoponto Itararé: Estrada do Itararé (próximo à descida do teleférico/escola). Ecoponto Fazendinha, Ecoponto Alvorada e Ecoponto Vila Paloma
ManguinhosEcoponto Manguinhos: Av. Dom Hélder Câmara (próximo à passarela 02 e base da UPP).
JacarezinhoPonto de Coleta Local: Acessos pela Av. Dom Hélder Câmara e proximidades da Estação de Trem
AcariEcoponto Fazenda Botafogo: Rua Omar Fontoura (atende a região de Acari e arredores).
Penha / Vila CruzeiroEcoponto Merendiba: Rua Merendiba.

Como pedir a retirada em casa?

A Comlurb realiza a remoção gratuita de móveis e eletrodomésticos velhos. Basta agendar:

  • Central de Atendimento: Ligue 1746
  • WhatsApp Oficial: (21) 3460-1746
  • Aplicativo: 1746 Rio (disponível para Android e iOS)

Regra: O material deve ser colocado na porta de casa apenas no dia e horário agendados.

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