Dias depois da operação policial que deixou mais de 120 mortos no Complexo da Penha, o Voz das Comunidades reuniu lideranças e representantes de projetos sociais dos Complexos da Penha e Alemão na útima quinta-feira (06) para um encontro de reconstrução, escuta e fortalecimento coletivo. Realizado na Casa Voz, no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio, a reunião com integrantes dos projetos sociais teve como objetivo promover um espaço de diálogo entre instituições que atuam nas favelas.
Rene Silva, CEO da ONG Voz das Comunidades, quem promoveu o encontro. “Depois do que passamos, é importante termos esse espaço para pensar estratégias em promover ainda mais estes territórios. Já fazemos isso de forma conjunta por anos, e diante dessa operação, com um Estado que não adentra a comunidade com investimentos em educação, esporte e cultura, cabe a nós debater formas da gente se fortalecer ainda mais”.

Durante a roda de conversa, foi consenso entre os participantes que as consequências da violência armada não se restringem às perdas humanas. A operação interrompeu aulas, suspendeu atendimentos de saúde e deixou marcas emocionais profundas nos moradores, especialmente nas crianças e adolescentes atendidos pelos projetos. “Todas as áreas foram afetadas, seja na saúde mental, na saúde física, nos alunos. O impacto foi muito grande”, destacou Rene durante sua fala.
Entre os participantes estavam representantes de projetos como ViDançar, Educap, Oca dos Curumins, Instituto Imperatriz Leopoldinense, Favela é Fashion, Instituto Movimento e Vida, Talentos do Morro, além de representantes de escolas municipais e unidades de saúde locais. Cada um compartilhou as dificuldades vividas durante e após a megaoperação e as consequências diretas para as atividades sociais, culturais e educacionais nas favelas.
Para Natalina Maria Barbosa, a Nath do projeto Resgatando Inocência, o encontro foi essencial para que os projetos tivessem voz e pudessem expressar o que estavam sentindo. “Esse encontro é importante demais! Primeiramente porque a gente tem voz, né? Eu acho que a gente consegue expressar o que a gente tá sentindo e como a gente tá hoje. A gente precisa desse momento para poder falar e abrir o coração, porque a gente está angustiado. Essa operação chegou de um jeito ou de outro até a gente. Nossas crianças foram afetadas indiretamente”, desabafou a coordenadora da ONG que atua no Morro do Adeus.

Muitos projetos sociais relataram que abriram suas sedes para acolhimento psicológico e atendimento emergencial a famílias em sofrimento. Organizações como o Abraço Campeão, a Cufa, o EACA e a Atitude Social foram citadas por promoverem escuta e apoio psicológico logo após a operação. Além da escuta sobre as dores, o encontro também serviu como espaço de reafirmação da importância dos projetos sociais na construção de uma favela mais forte.
Nilson do Carmo Ferreira, o Nem do projeto Talentos do Morro, destacou a importância da união das iniciativas. “Esse encontro verbaliza todas as necessidades que todos os projetos sociais do Alemão necessitam. Isso mostra que juntos saímos daqui mais fortalecidos, entendendo toda a dificuldade e os meios que cada um desses projetos se mantém a cada dia. Só quem vive dentro do Alemão conhece a realidade nua e crua”, afirmou.

