Se em algum episódio da vida o poeta Carlos Drummond de Andrade tivesse conhecido o Capão, a última coisa que ele escreveria seria que “no meio do caminho tinha uma pedra”. A quantidade de obstáculos e problemas que permeiam a região beira o absurdo. A falta de atenção do poder público já rendeu apelidos dignos de contos de fadas à região: “Terra do Nunca” ou “Lugar Esquecido”. Mas o que não tem nada de faz de conta são os desafios diários encontrados pelos moradores.
O Capão é uma das áreas mais vulneráveis do Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Mesmo localizado na parte baixa do morro, próximo a equipamentos públicos de referência como o Cinema Nova Brasília e a Nave do Conhecimento, o local carece severamente de infraestrutura, moradia e acessibilidade. Os problemas são silenciosos e estão a céu aberto, como gigantes adormecidos que podem causar um grande estrago quando “acordarem”.
“Nosso medo é que essa casa caia por completo e acabe matando alguém”, relata Marlene Aparecida, moradora do Capão há 57 anos. Ela aponta para uma residência vizinha, construída em uma parte mais alta e com maior extensão de terreno. Abandonado, o imóvel já foi tomado pela vegetação. “A Defesa Civil já condenou a casa há uns 4 anos, e a Prefeitura disse que viria para fazer a demolição, mas até hoje nada”. Ela conta que a estrutura está torta e que a preocupação aumenta nos períodos de chuva. “Na última que caiu, uma parte do muro desceu e foi parar na casa da vizinha. Precisamos de obras urgentes aqui no Capão”, clama.

Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades


Acessibilidade e saneamento básico são agravantes na região
Andar pelo Capão não é tarefa fácil, principalmente para quem desce do Teleférico da Alvorada. Além de estreita, a escada de acesso tem mais de 20 anos e está com a estrutura comprometida. “Quando chove, isso aqui fica horrível e escorregadio. Desce todo o lixo lá de cima”, comentam os moradores entrevistados. As falhas na estrutura expõem também um problema grave: o esgoto a céu aberto que não para de escoar das casas. “Tudo desce e vem parar na vala que passa por aqui. E quando chove, a força da água aumenta e fica muito perigoso”, comenta Roberto da Silva, residente do Capão há mais de 25 anos. É ele quem nos mostra a famosa passarela da região, que já foi pauta do Voz das Comunidades e de outros jornais diversas vezes. A estrutura desabou em 2022 e hoje funciona de forma improvisada, com tábuas e ripas de madeira atravessadas.


Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades
O problema tem tanto tempo que o morador sabe de cor as medidas da vala: “Ela tem 1,20 m de largura por 1,50 m de altura. O problema dessa passarela é que, se uma criança cair aqui nesse buraco em dia de chuva, já era. A água que vem lá do Coqueiro e da Alvorada desce pra cá com muita força”. Roberto ressalta que o obstáculo já causou ferimentos em pessoas que pisaram em falso e caíram no local. E as melhorias, segundo ele, ficam apenas nas promessas. “Eles (os políticos) já vieram aqui várias vezes, né? Já mediram, já prometeram… Pra pedir voto, aparecem aos montes, mas resolver o problema que é bom, nada”.
Será que teremos um final feliz?
A equipe do Voz das Comunidades entrou em contato com a Prefeitura para cobrar, mais uma vez, explicações sobre a situação. Embora a mensagem tenha sido endereçada à Secretaria de Infraestrutura, quem respondeu foi a Secretaria Municipal de Habitação, informando que as melhorias estão a caminho graças ao projeto PAC Periferia Viva, do Governo Federal.
“A Secretaria Municipal de Habitação informa que a licitação para a construção de uma passagem nesta área da comunidade termina em 30 dias e as obras começam até o final do primeiro semestre. A comunidade também receberá a implantação de redes de esgotamento sanitário e de abastecimento de água”, diz a nota. O órgão também destacou que o Capão receberá obras de drenagem de águas pluviais, iluminação, contenção de encostas e a construção de áreas de lazer, incluindo uma praça de skate e um espaço de convivência. O plano do Governo Federal, que prevê um investimento de R$ 210 milhões, também contempla obras na Travessa Laurinda e no Morro do Itararé.
