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“Eu me sinto esquecida pelo poder público” Capão, no Complexo do Alemão, segue abandonada mesmo após anos de pedidos por mudanças

Moradores do Capão, no Complexo do Alemão, reclamam há anos da falta de políticas públicas

Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades
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O Voz das Comunidades completou 20 anos. Esta é uma matéria especial em que voltamos a pautar o que já foi noticiado anteriormente.  

Conhecido como “Terra do Nunca” e “Lugar Esquecido”, o Capão, um território localizado no Complexo do Alemão, na Zona Norte do Rio de Janeiro, se tornou símbolo do abandono e da ausência de políticas públicas básicas. As ruas estreitas e íngremes revelam um cenário de precariedade: lixo acumulado, esgoto a céu aberto, muros em risco de desabar e nenhuma presença efetiva do poder público. 

“Eu me sinto abandonada. O nome ‘Terra do Nunca’ surgiu porque nada chega até aqui. É ‘Lugar Esquecido’ porque somos esquecidos pelas políticas públicas”, desabafa Andreia Soares, moradora do território há mais de 20 anos. O desabafo é acompanhado de indignação e cansaço. Ela lembra de tragédias que marcaram a comunidade: “Já teve muro que desabou e levou três crianças à morte. Já teve gente caindo pela falta de ruas pavimentadas, lixo espalhado, esgoto correndo no meio da rua. Falta tudo aqui. Temos que esperar acontecer uma tragédia para alguém fazer alguma coisa?”, questiona. 

No Capão, muros já desabaram levando 3 crianças a óbito. Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades 

A ausência de saneamento básico e de infraestrutura é um dos principais problemas enfrentados. Em dias de chuva, as vielas se transformam em lamaçais, e o esgoto retorna pelas casas. “Quando chove, é desesperador. A lama desce, o esgoto volta, e as crianças não conseguem nem ir pra escola”, conta a moradora. A coleta de lixo na localidade é irregular, e o acúmulo de entulho atrai insetos e ratos, aumentando o risco de doenças. 

Os moradores afirmam que já fizeram diversas reclamações à prefeitura e órgãos responsáveis, mas raramente são atendidos. “A gente liga, manda foto, pede ajuda, mas parece que o Capão não existe. Quando aparece alguma autoridade, é só em época de eleição”, diz Andreia. Ela também conta que existe um projeto de revitalizar a localidade, mas que nunca saiu do papel. “O projeto existe, mas nunca vimos tomar forma.” 

O território abriga centenas de famílias, muitas delas vivendo há décadas no local, sem acesso digno a serviços básicos como saúde, transporte, lazer e educação. Não há posto de saúde próximo, e os moradores precisam se deslocar até outras partes do Alemão para conseguir atendimento médico. As crianças brincam próximas a córregos contaminados, e os jovens carecem de espaços culturais e esportivos. 

O Capão é assunto cotidiano no Voz das Comunidades. Há pelo menos 10 anos, o jornal noticia essas precariedades do território sem nenhuma melhora. E a história do Capão se confunde com a do próprio Complexo do Alemão, uma das maiores favelas da cidade, que cresceu sem infraestrutura adequada e com poucas intervenções governamentais consistentes. Apesar de promessas e projetos pontuais, a região ainda convive com a falta de saneamento. 

O Voz das Comunidades entrou em contato com a Secretaria de Conservação e com a Comlurb. Em nota, a Comlurb informou que faz regularmente a limpeza e capina na localidade Capão e que a última operação foi feita no dia 04/09. De acordo com a instituição, a próxima estava programada para o dia 08/10. Recebemos a informação de que foi realizada. Além disso, foi reforçado que a comunidade também faça a sua parte. Até o fechamento desta edição, a Secretária de Conservação não havia respondido.  

Mesmo diante do abandono, a resistência dos moradores é o que mantém o território vivo. São eles que organizam mutirões de limpeza, cuidam das crianças e tentam, com poucos recursos, manter a dignidade. “A gente se ajuda, porque se depender do poder público, nada muda”, afirma Andreia. 

Entre o descaso e a esperança, o Capão sendo a “Terra do Nunca” da Zona Norte, onde o básico ainda é um sonho distante. 

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