“Toda criança tem o direito de brincar. Eu fico muito em casa por causa da violência. É eu colocar o pé no portão, começa a dar tiro”, revela Miguel dos Santos, de 12 anos, que faz parte da iniciativa há 6 anos.
O Instituto Crias do Tijolinho, que acontece na Nova Holanda, Complexo da Maré, reúne em média 150 crianças e adolescentes para garantir o direito fundamental: brincar. “Eu faço muitos amigos aqui, conheço pessoas de todos os cantos porque a Tia Kamila traz para cá”, conclui Miguel.

E tudo começou pela vontade da Kamila Camillo, fundadora do projeto, fotógrafa, ativista climática e mestranda da Universidade Federal Fluminense, de transformar a realidade através de seus vídeos e fotografias trabalhando com a temática de infância nas favelas, pelo direito de brincar, no território da Maré, Zona Norte do Rio de Janeiro.
Assim nasceu a primeira exposição, “Crias do Tijolinho”, inaugurada no Dia das Crianças com uma grande festa que reuniu mais de 200 participantes. O ponto de partida da iniciativa, relembra Kamila, foi especial. “Convidei as 16 crianças que fotografei para celebrar a mostra. Organizei a exposição na altura delas, para que pudessem se ver, se reconhecer e se visitar. Para completar a comemoração, compramos um bolo em parceria e minha família preparou cachorro-quente e pipoca.”
Durante a pandemia, o trabalho tomou outras frentes como distribuição de cestas básicas e materiais higiênicos. Além disso, as pessoas tinham que manter o isolamento. O que faz o direito de brincar ser menos urgente naquela ocasião. Após a pandemia, ela desenvolveu alternativas, entre elas o direito de circulação pela cidade. Isso abrange tanto a mobilidade dentro da Maré quanto o acesso a diferentes espaços do Rio de Janeiro. Nesse processo, passou a firmar parcerias com instituições e pontos turísticos, como o Cristo Redentor, Aquário, Museu do Amanhã e o Zoológico.
Quatro eixos temáticos são criados: Arte e cultura; Mulheres do Tijolinho; Galeria Tijolinho; Papo Climão. Com encontros quinzenais, eles debatem e se movimentam na favela em um processo educacional sobre arte, cultura, acessos à cidade, rodas de conversas, saneamento básico, infraestrutura da comunidade, justiça climática, tudo isso pelo viés de olhares infantis que pensam o AGORA.

A Galeria Tijolinho é um espaço em disputa para se tornar patrimônio público no território. Como parte da celebração dos seis anos do Instituto, foram realizadas seis ações locais, abertas ao público, nos dias 4 e 5 de outubro. A primeira atividade um mutirão de graffiti e pintura, acompanhado por batalhas de rimas e pelo lançamento de uma música criada pelos Crias do Tijolinho, que pretende dar vida a dez pontos de memória. “São dez pontos que conduzem até a galeria, e cada um deles aborda um aspecto ligado aos direitos da criança. Assim, cada parede representa e comunica um desses direitos em diálogo com o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)”, explica a idealizadora do Instituto Crias do Tijolinho.
O segundo dia será dedicado ao esporte, com atividades de futebol e queimado realizadas na Quadra do Tijolinho, das 9h às 11h. Ao final, serão distribuídas 150 medalhas aos participantes. As inscrições poderão ser feitas por meio de um formulário disponível no Instagram da instituição.
O Papo Climão nasce como um espaço de diálogo voltado para adolescentes, utilizando uma linguagem próxima e acessível. Em encontros semanais, o projeto traz convidados e autoridades para debater temas diversos, que vão além da questão climática e tocam diretamente as vivências da adolescência favelada. A iniciativa é conduzida por Paulo André, de 17 anos, e Gabrielly Alves, de 15 anos.
MiniCOP
Em agosto, crianças do Crias do Tijolinho organizaram a “MiniCOP”, apresentando propostas sobre saneamento, educação e lazer na favela. O encontro contou com a presença da ministra Anielle Franco e da primeira-dama Janja Lula, que destacaram a importância do protagonismo infantil. Janja afirmou que levará as demandas ao presidente da COP.
“A gente sempre teve voz, só não tinha ouvido para escutar. Queremos ocupar esses espaços, porque quem decide sobre a crise climática são adultos que não vivem o que a gente vive. Como favelados, somos os mais afetados, mas ninguém fala por nós, crianças e adolescentes”, enfatiza Gabrielly ao falar da importância de ocupando lugares de negociações.

Fotos: Uendell Vinícius / Voz das Comunidades
