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Crias de favela, vozes do futuro: juventude atuante em educação, território e comunicação representa geração que busca promover mudanças 

Fernanda Lima, Dianna, Yara e Letícia Guimarães, crias do Complexo do Chapadão, Barreira do Vasco e Complexo do Alemão, narram trajetórias e atuações que inspiram mudanças

Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades
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Nas favelas do Rio de Janeiro, jovens sempre foram vistos como promessas de um futuro melhor, não apenas para os territórios onde vivem, mas para a sociedade como um todo. Sem romper com suas origens ou esquecer de onde são cria, jovens lideranças ganham notoriedade, influenciam e lutam por melhores condições de vida dos moradores de um território. Os desafios são muitos. Diante da violência, da falta de oportunidades e do racismo estrutural, jovens surgem para organizar, acolher, questionar e abrir caminhos coletivos. São meninas e meninos que transformam vivência em luta, mostrando que ser jovem de favela também é ser protagonista da própria história.

É nesse cenário de movimentação que se destacam os nomes de Dianna Yara, de 24 anos, cria da Barreira do Vasco, Fernanda Lima, de 27 anos, do Complexo do Chapadão e Letícia Guimarães, de 15 anos, moradora do Complexo do Alemão. Em territórios diferentes, mas conectadas por experiências semelhantes, as três atuam por causas que dialogam entre si. Representam uma geração que não espera convite para participar das decisões: se posiciona, ocupa espaços, constrói redes e reafirma o orgulho de ser favelada.

As jovens conversam sobre os planos futuros Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades

Dianna Yara, uma voz forte pela educação

Vizinha ao Gigante da Colina, foi na Barreira do Vasco que Dianna Yara entendeu cedo que política vai muito além de cargos e eleições. Ainda criança, questionava a ausência de personagens negros nas atividades escolares. “Pediam para pintar as pessoas no papel. Lembra daquele lápis ‘cor da pele’? O meu não era aquele”, relembra. Sem perceber, sua militância começou ali, ao apontar o que estava errado e tentar mudar o necessário. “Fui eleita presidenta do grêmio estudantil e sempre atuei na defesa dos colegas”, conta. Um episódio marcou profundamente sua trajetória: um tiroteio que deixou a escola sitiada. “A gente ficou preso dentro da escola. Eu tentei acalmar os estudantes, dizer que ia passar. Depois disso, entendi ainda mais que o que acontece no território impacta diretamente a escola, a vida e o futuro de quem mora ali”, afirma. 

Para Dianna, a educação é chave para o sucesso promissor Foto: Reprodução
Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades 

A partir dessas vivências, Dianna passou a atuar em organizações de defesa dos direitos de crianças e adolescentes, ajudou a construir o Fórum Estadual da Juventude e ingressou na política institucional. Como mulher jovem, negra e favelada, enfrenta estigmas diariamente. “Tentam me diminuir por ser favelada. Mas isso é motivo de orgulho. Sou cria da Barreira”, reforça.

Filha de uma mãe que engravidou aos 15 anos, Dianna cresceu cercada pela educação como valor central. “Minha mãe sempre dizia que podem tirar tudo, menos o conhecimento”, lembra. Hoje, atua criando redes de apoio para que jovens da favela acessem a universidade e os espaços de poder. Candidata mais jovem a vereadora nas eleições de 2024, defende a educação como ferramenta de libertação. “Estudem! Não para enriquecer, mas para saber quem vocês são e qual é o lugar de vocês nessa sociedade”, afirma.

Legado de família: Letícia é uma promessa para o Complexo do Alemão

No Complexo do Alemão, a trajetória de Letícia Guimarães mostra que a liderança também se constrói desde cedo. Ela é a quarta geração de uma família profundamente ligada ao território. O bisavô ajudou a abrir caminhos quando a região ainda era mata, e as mulheres da família sempre estiveram à frente das lutas comunitárias. A avó atuou na presidência da associação de moradores, e essa herança moldou seu olhar sobre o mundo.

Filha de Camila Moradia, referência nas lutas do Alemão, Letícia reconhece a força das mulheres que vieram antes como inspiração. “Vejo muitas meninas depois de mim que também querem seguir esse caminho. A força das que vieram antes e a esperança das que estão vindo depois é o que me motiva”, afirma.

Atuando em iniciativas voltadas à saúde mental de jovens, Letícia defende o direito à escuta como princípio básico. “Todo mundo precisa ser ouvido. Eu sentia isso desde pequena, mas não sabia explicar. Foi nesses espaços que entendi que esse direito é fundamental”, diz. A psicologia é o caminho que deseja seguir.

No primeiro ano do ensino médio, viu quase metade da turma abandonar a escola para trabalhar. Para ela, a evasão não é falta de vontade, mas consequência da ausência de apoio. O reconhecimento que recebe reforça que está no caminho certo. “Se eu falasse com a Letícia do futuro, diria para continuar insistindo e ajudando outras pessoas a chegarem lá”, conclui.

Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades 
A militância vem de família. Letícia é filha da Camila Moradia, defensora de direitos humanos e fundadora do Mulheres em Ação no Alemão (MEAA) Foto: Reprodução

Fernanda Lima e a comunicação como ferramenta de transformação no território.

Aos 27 anos, além do nome de artista, Fernanda Lima tem o propósito de usar a comunicação como ferramenta primordial na missão de transformar o território onde mora: o Complexo do Chapadão. Em uma comunidade marcada por questões de segurança pública, ela se tornou muito mais do que uma jornalista comunitária. “Antes eu não percebia isso. Fazia as coisas porque partiam de mim. Com o tempo, fui notando que as pessoas já me veem assim no Chapadão, sabe? Como alguém que pode promover mudanças. Só de expor um problema social e ver ele sendo resolvido, os moradores me colocaram como referência. Hoje, sim, me enxergo como uma mobilizadora social daqui.”

Um dos exemplos de ser vista como uma referência no Complexo do Chapadão foi quando foi a um incêndio que atingiu o trailer de uma moradora que vendia lanches perto de sua casa. “Era uma senhora, ela perdeu o ponto de muitos anos em um incêndio. Fui lá, gravei o fogo, publiquei. Foram mais de 200 mil visualizações. Repercutiu muito e decidi ajudar. Muitas pessoas entraram em contato querendo ajudá-la a reconstruir o trailer.”

Fernanda desempenha o papel de liderança territorial através do jornal Voz de Guadalupe criado por ela em 2023. Inspirado no Voz das Comunidades, é através da iniciativa que Fernanda pauta as urgências do território. Seja um esgoto a céu aberto, um poste caindo, ela batalha pela dignidade de quem vive ali. “O que eu puder fazer pelos moradores, farei.”

Fernanda usa a comunicação para levar dignidade para moradores do território do Chapadão  
Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

Assim como os moradores reconhecem Fernanda como liderança, organizações de fora também o fazem. Ao levar demandas ao poder público, órgãos da prefeitura e outras instituições valorizam sua presença quando precisam adentrar o território. “Sou uma ponte, sabe? Me mandam mensagens perguntando se é seguro entrar, se posso acompanhar. O Chapadão convive com questões de segurança pública há muito tempo. As pessoas me perguntam se é seguro entrar naquele momento, se eu posso acompanhar… É um papel trabalhoso”. E sua palavra de ordem é persistência. “Sou a primeira a fazer isso na minha favela. Comecei há três anos com o Voz de Guadalupe e já vi muita coisa mudar porque mostrei. É difícil, enfrento muitos desafios. Mas é gratificante ver o sorriso no rosto dos moradores daqui.”

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