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Atenção nas ruas, becos e vielas: Rotina de mototaxistas de favela exige conscientização e cuidado 

Segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde 69% dos atendimentos nos hospitais municipais são motivados por acidentes envolvendo motos

Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades
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O desce e sobe nos becos e vielas exigem um transporte prático, barato e rápido. O funcionamento das favelas deve muito às motocicletas que colaboram no cotidiano dos moradores de forma única. Pilotadas por aqueles que são crias da comunidade, o veículo permite uma comodidade para o morador para sair ou entrar no seu território. 

A profissão mototáxi existe há cerca de 25 anos. A prática foi trazida do nordeste para cá. E as primeiras motos como meio de transporte interno foram vistas na Rocinha. Não demorou muito para a novidade se espalhar e se tornar praticamente um modo de vida. No entanto, ao longo das décadas, há inúmeros debates que cercam a profissão: a falta de formalização, os riscos em horário de serviço e a sobrecarga de horários. 

Segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde 69% dos atendimentos nos hospitais municipais, por ocorrências em vias públicas, são motivados por acidentes envolvendo motos. Agora que este meio de transporte está disponível em aplicativos a demanda aumenta e exige estratégias de circulação. 

Neste sentido, o prefeito Eduardo Paes criou o Plano Municipal de Segurança Viária, que estabelece diretrizes para a proteção no trânsito, especialmente em relação às motocicletas. Assim surge a limitação da velocidade máxima para as motocicletas nas vias da cidade em até 60 km/h; o projeto de implantação de 200 km de corredores exclusivos para motocicletas até 2028, sendo 50 km a serem implantados até dezembro de 2025; e a proibição da circulação de motocicletas nas pistas centrais, que começará em junho deste ano nas Avenidas Presidente Vargas, Brasil e das Américas. 

Para os mototáxis das favelas, tomar cuidado para sobreviver já é um costume. Considerando que a maioria tem esta profissão como única fonte de renda, se machucar seria sinônimo de ficar sem dinheiro; o que coloca em risco outras demandas financeiras. 

Eliel Barbosa, de 47 anos, é cria da Penha e trabalha como mototaxista há mais de 10 anos. Para se assegurar, ele paga o INSS e mantém seu MEI ativo. Eliel acredita que uma das ações de conscientização do governo também poderia ser voltada para questões burocráticas. Sua rotina é baseada em cuidados no trabalho. 

Eliel Santos é cria da Penha e mototáxi há mais de 10 anos. Foto: Uendell Vinícius / Voz das Comunidades 

“Nunca tive um acidente grave. Uma vez minha moto derrapou em uma madeira molhada. Mas naquele dia eu estava de capacete e não me machuquei. Vira e mexe tem acidente de trânsito. O mototaxista precisa entender que ele também precisa respeitar as leis de trânsito. Ele é o principal alvo além do pedestre. A estratégia que eu uso é dormir sempre bem, estar sempre disposto. Se não, nem venho trabalhar. Andar sempre do lado e da velocidade certa e manter uma antena que corte a linha de pipa. Aquilo ali tem matado mais do que andar sem capacete.”, explica Eliel. 

Grande parte dos mototáxis entrevistados acredita que ser autônomo é mais vantajoso do que trabalhar de carteira assinada. Jardel Silva, de 28 anos, é um deles. Rodando desde 2014, ele já trabalhou como CLT, mas voltou novamente para as motos. Fazer seu próprio horário e ser seu próprio patrão é uma prioridade. Dentro das favelas, as viagens na garupa custam em média R$ 5. Para outros lugares, o valor varia. De passageiro a passageiro, os pilotos vão batendo suas metas e levando pão de cada dia. 

Jardel já está na sua terceira moto Foto: Uendell Vinícius / Voz das Comunidades 

“CLT não dá. A base salarial é muito baixa. Fiquei três anos de carteira assinada e depois voltei. Tenho uma meta diária com base nos meus objetivos e para cobrir os meus gastos. Aqui na Grota, eu tenho dois anos. Já comprei uma casa e estou na minha terceira moto. É uma boa diária, diferente da que o trabalhador formal ganha. Todos os moradores dependem muito desse serviço”, conta Jardel.  

Com disciplina, é possível se manter e até realizar sonhos. Paulo Roberto, de 35 anos, é mototáxi há mais de 15 anos. Esse foi seu primeiro emprego fixo e ele segue até hoje. A maior vitória que este suor lhe trouxe foi conseguir criar a filha que hoje tem 14 anos. Ele toma cuidado em relação às leis de trânsito e acredita que as restrições devem vir para pessoas que não tem responsabilidade na pista. E não necessariamente para moradores. 

Paulo Roberto conseguiu criar a filha com o dinheiro que faz no mototáxi Foto: Uendell Vinícius / Voz das Comunidades 

“Eu amo meu trabalho. Nunca me acidentei gravemente. Estou sempre bem equipado: capacete, tênis, calça. É possível sobreviver. Não vou falar que to bem vida, mas consigo comer, me vestir… Por dia é umas 30/40 viagens. A moto é liberdade, mas tem que ter atenção. Essas pessoas que gostam de ficar empinando, andando rápido é errado. Mas sempre vai sobrar para o trabalhador”, declara Paulo. 

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