Se a genética reservou a Alexsandra da Silva, um fenômeno estatístico, a vida exigiu dela uma engenharia de resistência que nenhum livro ensina. Cria do Complexo do Alemão e atualmente moradora do Morro da Formiga, a jovem de 25 anos transita entre o papel de mãe de quadrigêmeas e de futura gestora de Recursos Humanos, com uma lucidez avassaladora.
Enquanto Esther, Giovanna, Laura e Sophia, todas batizadas com o sobrenome ‘Victoria’ como um selo de sobrevivência, descobrem a independência dos três anos de idade, Alexsandra lapida a sua própria autonomia. Entre fraldas e livros, ela não apenas rege o caos doce de uma casa quadruplicada; ela subverte o destino. Em julho, o diploma de graduação chega não como um ponto final, mas como um manifesto: o de que o colo que acolhe quatro vidas de uma vez é o mesmo braço forte que sustenta os próprios sonhos; provando que, para uma mulher de fibra, o futuro nunca é adiado, ele é conquistado com a força e afeto de uma mãe.
A história de Esther Victoria, Giovanna Victoria, Laura Victoria e Sophia Victoria começou com um susto que o tempo transformou em estratégia. Alexsandra lembra com nitidez do dia do ultrassom. Enquanto Igor da Silva Pacheco, o pai, lutava contra um engarrafamento típico do Rio, ela recebia a notícia sozinha. “Eu só sabia chorar, chorar e chorar”, confessa. O impacto foi tão profundo que a equipe médica, percebendo que a jovem não conseguiria processar a magnitude daquela revelação, preferiu esperar o pai Igor chegar. Ele, ao entrar na sala, quase desmaiou.


Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades
Três anos se passaram. As bebês que o Rio acompanhou pelo Voz das Comunidades agora têm nomes, rostos e, principalmente, vontades próprias. Alexsandra não apenas cuida, ela educa para o mundo. “Eu sempre as mantive muito atentas. Ensinei a independência em tudo. Acho que isso desperta o interesse da criança em agir”, explica com a autoridade de quem coordena uma logística que faria inveja a grandes empresas.
As quatro irmãs compartilham mais do que o DNA, vivem em uma simbiose (cooperação) que desafia a lógica individual. Estudam na mesma sala e seguem um cronograma rigoroso onde o “eu” deu lugar ao “nós”. “A rotina delas é toda igual. Se uma sente fome, a outra também sente. Se uma adoece, as outras três acompanham o ritmo logo em seguida”, conta a mãe. É uma conexão invisível, um espelhamento que faz da casa um organismo único.
Igor hoje observa as filhas e já projeta o futuro. Ele aprendeu a ler os sinais de cada uma: a intensidade vibrante de Sophia, a doçura de Laura, amiga carinhosa que corre para abraçar quem chega, Geovana é atenta, divertida, e a Ester aparentemente a mais calma. Quando as quatros estão juntas, tudo vira festa. Mas, para Alexsandra , a maior “diversão” ainda é ver o espanto alheio.

“A primeira reação das pessoas é se assustar. Acham que sou muito nova para ter quatro filhos. Eu não falo de cara que são quadrigêmeas, gosto de ver a reação”, diverte-se. A juventude dela engana os desavisados, mas não esconde a maturidade de quem sabe que o amor de mãe não se divide, se multiplica. “Eu tive muito medo disso na gravidez, se conseguiria amar todas igual. Mas é quatro igual. Um amor que transborda quatro vezes.”
Durante a gravidez precisou trancar os cursos de Recursos Humanos e Contabilidade. Muitos diriam que ali os sonhos profissionais terminariam. Mas, neste Dia das Mães de 2026, o maior presente não vem em caixas de presente, mas em forma de diploma.
Em julho, conclui sua formação em Recursos Humanos. A rotina não foi fácil: entre os desafios do curso e a dedicação às filhas na creche, ela contou com o apoio essencial do marido e da família, sua rede de sustentação. A formatura simboliza o encerramento de um ciclo marcado pela resistência e pela superação. Alexsandra prova que ser mãe de quadrigêmeas não a impediu de conquistar o sonho de se tornar a profissional que sempre desejou.
Neste dia das mães, a Alexsandra, que o destino tentou assustar, agora segue em frente. Com quatro mãos pequenas segurando as suas e um diploma na mão. Ela é o exemplo de que, para uma mulher determinada, a vitória nunca vem sozinha. Ela vem em quarteto.

Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades
