Em um galpão no Morro do Engenho da Rainha, na Zona Norte do Rio, o som das quedas no tatame se mistura a risadas, abraços e histórias de superação. É ali que o projeto de jiu-jitsu liderado por Fabrício Batista vem mudando a rotina de cerca de 20 crianças e adolescentes da comunidade, oferecendo mais do que aulas gratuitas, um caminho possível de transformação.
A iniciativa nasceu da insistência em manter vivo um espaço que poderia ter se perdido. Após o fim de uma parceria com a prefeitura, que durou apenas três meses, Fabrício decidiu seguir sozinho. “Eu visualizei que não existem muitos projetos sociais aqui. Muitos já tinham comprado kimono, já estavam animados. Eu falei ‘poxa, vou manter’. E fui levando, um pouquinho de cada vez”, conta.
Atualmente, o projeto funciona de segunda a sexta-feira, com treinos de duas horas. Mais do que ensinar golpes, o mestre constrói valores. Disciplina, respeito e coletividade são pilares do trabalho, e os resultados ultrapassam o tatame.
“Os pais começaram a usar isso como ferramenta de educação em casa. Eles veem a mudança no comportamento, na escola, na forma de se posicionar. Isso não tem preço”, afirma Fabrício.
Além dos treinos, o espaço também vira ponto de encontro e convivência. Uma vez por mês, o projeto promove sessões de cinema para as crianças da comunidade, com direito a pipoca e refrigerante. “É uma forma de trazer eles para cá também fora do treino, criar vínculo, ocupar o tempo com algo positivo”, explica.
Esse vínculo, inclusive, se fortaleceu entre as próprias famílias. Em datas comemorativas ou quando alguém passa por dificuldades, a rede de apoio se mobiliza. “Se uma criança não tem condições de fazer uma festa, os pais se juntam e fazem. Criou-se uma amizade muito forte aqui”, destaca.

Foto: Vilma Ribeiro/ Voz das Comunidades

Do tatame para a vida
Entre os pequenos atletas, histórias emocionam. Manuella Luísa, de apenas 8 anos, já acumula títulos e sonha alto. Determinada, ela não esconde o objetivo: “Eu quero continuar no jiu-jitsu até eu virar faixa preta”. Mesmo com tantas vitórias, mantém os pés no chão. “É legal ganhar, mas eu gosto mesmo é de participar”, diz.
A dedicação impressiona. Segundo Fabrício, a menina já venceu campeonatos importantes, incluindo títulos brasileiros e internacionais. “Ela é uma competidora nata. Treina focada, não tem medo de desafios. É um exemplo”, afirma.

Foto: Vilma Ribeiro/ Voz das Comunidades
Mas nem todas as conquistas são medidas por medalhas. Para Isabella de Almeida da Silva, de 13 anos, o projeto foi fundamental em um dos momentos mais difíceis da vida: a perda do pai. “Quando eu perdi meu pai, eu não queria mais sair de casa. Aí uma amiga me incentivou a voltar, o mestre me apoiou. Eu passava o treino todo chorando. Hoje, isso aqui virou um lugar que tira minhas dores”, conta.
A jovem encontrou no jiu-jitsu um espaço de acolhimento e reconstrução. “Quando estou em casa, fico mal. Mas quando chega a hora do treino, eu venho. Aqui virou meu lugar favorito”, completa.
Fabrício acompanhou de perto esse processo. “Ela precisava de acolhimento. E encontrou isso aqui. Transformou a dor em foco, em vontade de vencer. Hoje, ela compete, ganha e mostra uma maturidade impressionante”, relata.
Um projeto que vai além do esporte
Histórias como essas revelam o impacto direto de iniciativas sociais dentro das favelas. Em territórios onde muitas vezes faltam políticas públicas, projetos como esse se tornam fundamentais para garantir oportunidades, fortalecer vínculos e abrir caminhos. “Eu tive essa oportunidade lá atrás, quando não tinha condições. Um professor me ajudou, pagava minhas competições. Eu me senti na obrigação de passar isso adiante”, diz Fabrício.
Para ele, o maior retorno não é financeiro. “Meu pagamento é quando um pai me liga e agradece, quando uma criança vem conversar comigo. É a reciprocidade. Isso é o mais importante.”
No Morro do Engenho da Rainha, o tatame virou mais do que um espaço de treino. É refúgio, escola, família. Um lugar onde crianças aprendem a lutar, dentro e fora das competições, e descobrem que, mesmo diante das dificuldades, é possível sonhar e seguir em frente.
