Amanda Becker não carrega apenas os graus de uma Black Belt 2º grau na cintura; ela carrega a história de resistência de quem fez do Complexo do Alemão o seu primeiro tatame de vida. Mãe e líder da Checkmat Ramos, escola de jiu-jítsu localizada no bairro de Ramos, na Zona Norte do Rio de Janeiro, mandinha, como é conhecida, desafia os limites impostos pelos estereótipos de gênero e mostra que o kimono também pode ser uma armadura de libertação.
Entre a disciplina da luta e o mergulho sensível na psicanálise, ela divide o tempo como palestrante do projeto Empoderadas, transformando traumas em potência. Para Amanda, a maior vitória não acontece no pódio, mas na conquista da autonomia. Sua trajetória mostra que, mesmo onde o Estado falha, a força de uma mulher que decide ser protagonista da própria história pode reescrever destinos.

O tatame como espelho: estética, voz e identidade feminina
Ao falar sobre a pressão estética no esporte, Amandinha desconstrói o mito de que força anula feminilidade. Para ela, o preconceito que associa mulheres lutadoras à “masculinização” ainda existe, mas vem sendo quebrado diariamente. “Eu mesma caí nesse mito por muito tempo, mas hoje entendo que sou reflexo para as meninas mais novas que me observam”, conta. Segundo ela, o cuidado com a aparência vai além da vaidade: também é uma forma de respeito e exemplo para outras mulheres. Ainda assim, sem se prender a padrões inalcançáveis. “Na hora da luta, é impossível ser uma ‘princesinha’, e está tudo bem. Quem se incomodar com meu cabelo para o alto, que se incomode. Eu estou ali para exercer a minha força”, afirma.
Essa força também se manifesta em sua atuação no Empoderadas, onde o jiu-jítsu funciona como porta de entrada para uma transformação emocional. Para Amanda, as técnicas de defesa são importantes, mas representam apenas uma parte do processo. “Não adianta ensinar como sair de um puxão de cabelo se ela ainda se mantém com esse agressor”, reflete a psicanalista em formação. Para ela, o verdadeiro empoderamento nasce quando a mulher rompe ciclos de violência e retoma o controle da própria vida.
Maternidade e legado
Por trás da atleta existe também uma mãe que fez da honestidade sua principal estratégia de vida. Após a perda do pai de seu filho Miguel, Amanda decidiu construir uma relação baseada na confiança.
“Decidi que não queria mentir para o Miguel. Precisávamos de total confiança um no outro”, conta.
A disciplina do tatame também guia a educação do filho. Ela ensina que, assim como no jiu-jítsu, a vida terá momentos difíceis, mas a determinação pode virar o jogo. Nesse processo, a inteligência emocional se torna essencial: entender que nem tudo exige reação imediata e que toda ação tem consequências. Essa sensibilidade é o que sustenta sua liderança no Complexo do Alemão. Quem chega à equipe encontra mais do que treinamento: encontra acolhimento.Quem está aqui sabe que eu corro junto. Muitas vezes o apoio que a pessoa não tem em casa, encontra no esporte”, diz.

Pausa, rótulos e futuro
Para meninas que a veem como referência, Amanda deixa um recado: o destino não é fixo. Ela começou no esporte aos 22 anos, enfrentou descrédito e persistiu. Hoje é a primeira faixa-preta formada pelo projeto social onde começou e vive do que ama. “Não vesti os rótulos que me colocavam. O segredo é continuar”, afirma. Ao longo do caminho, ela também aprendeu que não precisa dar conta de tudo ao mesmo tempo. “Tem dias em que sou mais mãe, outros em que sou mais professora, e outros em que sou apenas eu.”
Para Amanda Becker, cuidar da saúde mental é essencial. Saber pausar e reconhecer limites faz parte da verdadeira resiliência. No fim das contas, sua maior conquista não está nas medalhas, mas na certeza de que, para continuar transformando vidas dentro e fora do tatame, ela precisa primeiro estar em paz com a mulher que se tornou.

Foto: Voz das Comunidades/ Uendell Vinícius
