Reportagem: Karen Melo e Rafael Costa
Após mostrar como o lixo pesado bloqueia o escoamento das chuvas recordes de 2026 no Alemão, Acari, Manguinhos e Jacarezinho, nossa reportagem chega à Zona Oeste. Ali, o desafio da coleta se mistura a problemas crônicos de saneamento: em bairros como Senador Camará e Jardim Maravilha, em Guaratiba, a precariedade das vias e promessas de obras não cumpridas travam a eficiência do serviço.
Em Senador Camará, o cenário de ruas esburacadas e galerias antigas transforma o escoamento da chuva em um teste de resistência. Para Camila Gonçalves, moradora da região há 37 anos, o problema central não é a frequência do caminhão de lixo, mas as condições das ruas que castigam a comunidade.
“Eu moro aqui há quase quatro décadas. Na parte onde eu vivo, ainda consigo sair para trabalhar, mas tem ruas que ficam totalmente alagadas”, relata Camila.
Embora a coleta de lixo mantenha a regularidade de passar três vezes na semana, a infraestrutura urbana não acompanha o serviço. “O problema daqui são os buracos na rua. São muitos. Quando chove, em partes como o Rebu e a Coreia, a situação vira uma calamidade: as pessoas ficam debaixo d’água mesmo e aparece rato, aparece de tudo“, desabafa a moradora.
Jardim que não tem nada de maravilha
A poucos quilômetros dali, em Guaratiba, o Jardim Maravilha vive um estado de “enchente permanente”. O loteamento há anos aguarda as obras de urbanização e drenagem prometidas pelo Governo Federal e pela Prefeitura. Em julho de 2025, foi publicada pelo Voz das Comunidades uma reportagem sobre a situação que, mesmo após a entrega de parte das obras do programa Bairro Maravilha, a outra parte do bairro apresentava problemas causados pelas enchentes. Era desde valões entupidos a esgoto exposto.
Jean Monteiro, morador há 43 anos, descreve o atual cenário de abandono onde, segundo ele, muitas ruas convivem com esgoto a céu aberto. “A via principal, a Campo Mourão, precisa de uma obra de drenagem urgente. Ela tem que ser rasgada de ponta a ponta para entrar um sistema de galeria. O que temos hoje são manilhas de barro que já se dissolveram; a população quadruplicou e o sistema não suporta mais”, explica Jean dando até as soluções para a situação.

O Rio Piraquê e a Armadilha da Maré
A geografia agrava o drama. Quando a maré sobe, o Rio Cabuçu Piraquê transborda, fazendo a água da chuva, misturada ao esgoto, invadir as casas e demorar dias para escoar. Paralelo às enchentes, o bairro sofre com o desabastecimento crônico de água potável.
“A última vez que alguém fez algo pelo asfalto aqui foi há 35 anos. Hoje, o bairro é dividido: metade tem asfalto velho, a outra metade é lama pura”, lamenta Jean.
Tanto em Senador Camará quanto no Jardim Maravilha, fica claro que a limpeza urbana depende diretamente de um saneamento eficiente. Sem pavimentação, galerias modernas e a dragagem de rios, o esforço da coleta de lixo torna-se insuficiente. Enquanto as obras do PAC permanecem como “lendas urbanas” para quem vive em Guaratiba, o morador da Zona Oeste segue lutando pelo direito básico de não ter o esgoto na porta de casa toda vez que o céu fecha.

Foto: Arquivo pessoal

Foto: Arquivo / Voz das Comunidades
O que diz a concessionária que atua na Zona Oeste do Rio?
Responsável por 24 bairros desde 2012, Zona Oeste Mais Saneamento afirma ter ampliado a cobertura de esgoto tratado de 5% para 62%, beneficiando 1,2 milhão de pessoas com a instalação de mais de 630 quilômetros de novas redes. Entre as principais entregas estão a modernização da ETE Deodoro, duplicação da ETE Vila Kennedy e inauguração da ETE Bangu. Também destaca projetos sociais de educação ambiental e qualificação profissional.
Todos os números apresentados pelas concessionárias ainda não refletem a realidade enfrentada por moradores da Zona Oeste. Enquanto investimentos e metas são anunciados, comunidades como Senador Camará e Jardim Maravilha continuam enfrentando enchentes, esgoto a céu aberto e falta de infraestrutura básica.
