Domingo, 28 de novembro de 2010, o Complexo do Alemão se depara com um cenário de guerra. A promessa? Paz. Após 15 anos do projeto de pacificação, o Rio de Janeiro apresenta alta no índice de letalidade, com aumento de 6% nas mortes violentas e de 34,4% nas mortes causadas por policiais de janeiro a abril de 2025, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Apesar das oito Unidades de Polícia Pacificadora (UPP’s), as juras de soluções logo se mostraram vazias.
O sentimento que predomina entre os moradores do Alemão é de frustração. A presença estatal não se traduziu em melhorias concretas para a população, “entrar com a polícia, sair atirando, matar morador, matar criança é fácil. Agora quero ver chegar aqui e construir”, afirma Ângela Santos, moradora da Matinha. Ela ainda reflete que os recursos financeiros poderiam ser melhor utilizados, “com o dinheiro que eles tanto gastavam ali, daria pra construir quantas casas aqui pro morador?”, questiona.
Ao conversar com moradores de diversas partes do CPX do Alemão, há uma unanimidade: “nada melhorou”, afirma Ângela. Dona Maria Lina Costa nunca se sentiu protegida, “veio a invasão, trouxe o teleférico, trouxe a UPP. Que garantia a gente teve de segurança? (…) A gente não teve”, relata. Léia Rodrigues compartilha a mesma sensação, quando perguntamos qual benefício as UPP’s trouxeram, a resposta é preocupante: “Tiroteio”.


“O teleférico foi só promessa infundada pra implantar as UPP’s, e o que resultou? Só troca de tiros do nada, a Agatha Félix foi uma das crianças que morreu mediante essa situação”, relembra Léia.
A moradora sabe de perto a dor de perder um familiar inocente. Em 30 de abril deste ano, Gabriel dos Santos Vieira, 17, sobrinho de Leia, foi baleado e morto com cinco tiros nas costas, enquanto ia para o trabalho. “O Gabriel levou cinco tiros nas costas, sendo abordado ao sair do Complexo do Alemão, onde ele deveria estar protegido”, diz.

“Eu queria falar muito mais sobre isso. Infelizmente está sobre o caso de justiça, né? Mas a gente sabe quem foi que tirou a vida do Gabriel. São aqueles que deveriam proteger, que iriam estar implantados aqui dentro, que iriam melhorar a comunidade. As armas que eles seguram é a gente que paga e são as balas dessas armas que saíram e acertaram o Gabriel”, Léia Rodrigues
Quando o assunto é a perda de um ente querido, não é difícil encontrar vítimas. Edilene dos Santos, moradora do Campo do Seu Zé, perdeu sua tia, Roseli dos Santos, aos 30 anos. Havia começado um confronto próximo a sua casa, quando teve uma pausa, Roseli decidiu buscar o filho pequeno, que estava brincando no campo, mas foi atingida por uma bala no caminho. “Minha família depois disso nunca mais foi a mesma”, conta.

De acordo com dados do Balanço de indicadores da Polícia Pacificadora, é possível observar uma crescente de mortes violentas após poucos anos da implantação das UPP’s. “O que a gente espera é melhoria, de lá para cá, a gente viu só perca, só dores, só lágrimas”, fala Léia. Entre 2016 e 2025, o ano que marcou o maior número de ferido foi em 2019, um ano depois que o Rio de janeiro foi tomado pela intervenção militar. Na época o governador era o Wilson Witzel.
| Registro de tiroteios no Complexo do Alemão | |||
| Ano | tiroteios | mortos | feridos |
| 2016 | 100 | 7 | 23 |
| 2017 | 170 | 12 | 33 |
| 2018 | 264 | 16 | 26 |
| 2019 | 275 | 27 | 26 |
| 2020 | 121 | 18 | 8 |
| 2021 | 82 | 1 | 10 |
| 2022 | 37 | 19 | 7 |
| 2023 | 18 | 3 | 2 |
| 2024 | 16 | 3 | 6 |
| 2025 | 19 | 3 | 4 |
Fonte: Instituto Fogo Cruzado
| Vítimas de letalidade violenta | |||
| UPP | 2013 | 2014 | 2015 |
| Alemão | 1 | 5 | 15 |
| Nova Brasília | 1 | 4 | 6 |
| Fazendinha | 0 | 2 | 3 |
| Adeus e Baiana | – | 1 | |
Fonte: Balanço de indicadores da polícia pacificadora
| Vítimas de letalidade violenta nas UPP’s do Alemão | |||
| Localidade | 2013 | 2014 | 2015 |
| Complexo do alemão | 2 | 12 | 24 |
Fonte: Balanço de indicadores da polícia pacificadora
Para Lúcia Cabral, moradora, articuladora, ativista e responsável pela ONG Educap, a pacificação nunca levou em consideração a realidade da favela. “Eu acho que a ocupação foi uma violência. Primeiro, eles não respeitaram a cultura local. Segundo que, para provar que UPP dava certo, usava muita violência”, fala. Tia Lúcia também critica o que é entendido como segurança pública no Brasil, “nesse país aqui, segurança pública é polícia. Uma segurança pública de verdade, na Constituição, é da saúde, educação, é trabalhar a política geral, eles não fazem isso”, explica.
Ainda que a paz pareça distante para o Complexo do Alemão, Edilene não abre mão da esperança. “Até hoje tenho a esperança disso (pacificação) acontecer, da gente ter paz, da gente poder não se preocupar em nossos filhos brincar na rua, pra gente sair e voltar do trabalho, né? Acho que todo mundo almeja isso”, comenta. Ângela sonha com estrutura básica para os seus netos “eles podiam fazer um saneamento básico pras crianças, uma área de lazer.”

