Neste domingo, 4 de outubro, os moradores das favelas do Rio de Janeiro vão às urnas. Entre os cargos em disputa está o de governador, que é quem comanda a Polícia Militar e a Polícia Civil do estado. Ou seja, é o governador que decide como a polícia vai agir quando entrar na sua comunidade.
Para ajudar o morador de favela a entender o que cada candidato pensa sobre esse assunto, foi criada a plataforma Voto Sem Farda. Ela é um site que junta, em um só lugar, as propostas de segurança pública dos 9 candidatos e candidatas ao Governo do Rio nas eleições de 2026.
A plataforma foi lançada no dia 14 de setembro pela IDMJRacial, a Iniciativa Direito à Memória e Justiça Racial. A organização nasceu na Baixada Fluminense e há 7 anos trabalha com segurança pública e com a luta contra o racismo. As informações do site vêm do que os candidatos já falaram em público, do que fizeram quando ocuparam outros cargos e dos planos de governo que eles entregaram ao TSE, o Tribunal Superior Eleitoral.

A ideia surgiu porque a segurança virou o assunto principal desta eleição no Rio. Muitos candidatos, inclusive os que estão na frente nas pesquisas, prometem mais operações policiais, mais vigilância com câmeras, retomada de territórios e grupos de polícia ainda mais pesados que o BOPE. Para quem mora na favela, isso não é conversa distante. É a rotina de acordar com tiroteio, de ver criança sem aula e de perder vizinhos e parentes.
O morador conhece bem essa história. Em 28 de outubro de 2025, uma operação nos Complexos da Penha e do Alemão deixou mais de 120 mortos. Foi a maior chacina em favela da história do Brasil. Antes disso, em 2021, a comunidade do Jacarezinho também viveu uma chacina durante a pandemia.
A IDMJRacial também acompanha para onde vai o dinheiro do estado. Segundo a organização, em 2020 o Rio separou mais de R$ 11 bilhões para a segurança pública, enquanto a saúde e a educação ficaram com menos de R$ 10 bilhões. Em 2025, o dinheiro para as polícias passou de R$ 19 bilhões. Na prática, isso quer dizer que o estado gasta mais com armas, munição e caveirão do que com escola, posto de saúde e moradia.
A economista Giselle Florentino, fundadora e diretora da IDMJRacial, explica o objetivo do projeto. “A Plataforma Voto Sem Farda nasceu com o objetivo de ser uma fonte de transparência, crítica e monitoramento aos projetos para Segurança Pública das candidaturas ao Governo do Estado em 2026”, disse. Em outras palavras, a plataforma quer deixar claro, sem enrolação, o que cada candidato pretende fazer com a polícia e como isso pode afetar a vida nas favelas e periferias.
O site funciona como um jogo de cartas. Cada um dos 9 candidatos aparece em uma carta, com a foto na frente. Quando a pessoa toca na carta, ela vira e mostra no verso uma ficha com as ideias daquele candidato para a segurança pública.

Além das cartas, o site tem uma parte chamada Termômetro, com a “Escala da Morte”, onde os candidatos aparecem organizados para que o eleitor compare as propostas de cada um. Tem também um painel com dados sobre o tema, para quem quiser ver os números mais de perto.
O trabalho não fica só na internet. A plataforma também está nas redes sociais e nas ruas, com lambe-lambes, que são aqueles cartazes colados nos muros. Segundo a IDMJRacial, a mobilização nas ruas segue até o fim da eleição, inclusive se tiver segundo turno. Depois disso, o site continua no ar para servir de base nas próximas eleições.
No lançamento da plataforma, participaram do debate Rene Silva, fundador do Voz das Comunidades, e a jornalista e comunicadora popular Tatiana Lima. Os dois destacaram que a ferramenta serve tanto para denunciar quanto para ensinar. “É possível imprimir ícones do site e transformar em um jogo educativo para escolas, ou grupos e coletivos de favelas”, contou Tatiana. Para ela, a plataforma ajuda a explicar aquilo que os candidatos não falam de forma clara.
Como acessar?
Para acessar é fácil e não custa nada. O morador só precisa de um celular com internet. É só abrir o navegador, que é o programa usado para entrar nos sites, como o Chrome, e digitar votosemfarda.com na barra de cima. Depois, é só tocar nas cartas dos candidatos para ver o que cada um propõe. Quem prefere as redes sociais pode seguir o perfil @votosemfarda no Instagram.
Quem não tem internet ou tem dificuldade com o celular pode pedir ajuda a um vizinho, a um parente mais novo ou à associação de moradores da sua comunidade. Vale também ficar de olho nos lambe-lambes colados pelas ruas.
Pensar bem antes de votar é também uma forma de proteger a vida de quem mora na favela. Antes de apertar o confirma no domingo, a pergunta que fica é: você já sabe o que o seu candidato quer fazer com a polícia que entra na sua comunidade?
