O Rio de Janeiro está há mais de dez anos sem um programa forte (políticas públicas) e que não pare no meio do caminho para melhorar as favelas. Enquanto isso, as comunidades continuam crescendo, e serviços que são direito de todo mundo, como água limpa, esgoto, rua boa para andar, saúde e escola para as crianças, ainda não chegam a todas as famílias.
É o que mostra uma pesquisa do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, o Ibase. O trabalho ouviu 10.001 moradores de 18 favelas cariocas. Para 89,9% dessas pessoas, o número de moradores aumentou no seu território. E 81,6% dizem que a favela também cresceu em tamanho, ocupando mais espaço do que antes.
Mesmo com esse crescimento, muita coisa ficou pelo caminho. Quase metade dos entrevistados, 49,1%, conhece vizinhos que ainda não têm água em casa. E 90% afirmam que as ruas, becos e escadarias precisam melhorar para as pessoas conseguirem ir e vir com segurança.
A pesquisa se chama Novos Olhares sobre as Transformações Urbanas nas Favelas e foi lançada nesta terça-feira (18). Ela olha para o que sobrou de dois programas antigos da prefeitura, o Favela-Bairro, que também tinha uma parte chamada Bairrinho, e o Morar Carioca. Esses programas fizeram obras nas favelas no passado.
O estudo mostra que essas obras trouxeram melhorias de verdade. Mas elas não chegaram em todo mundo, não tiveram conserto depois de prontas e os programas foram interrompidos. Por isso, o benefício não durou para toda a população.
Entre os moradores mais antigos, 76,5% dizem que os programas ajudaram a melhorar a vida, principalmente na hora de circular pela favela, na chegada da água, no esgoto, na moradia, na luz da rua e na coleta de lixo. Por outro lado, 51,7% contam que as obras prometidas nunca foram terminadas. No Parque Unidos, esse número chega a 84%. Depois vêm Chapéu Mangueira, com 72%, Babilônia, com 66%, Parque João Goulart, com 65,7%, e Morro da Coroa, com 65%.
Para Rita Corrêa Brandão, diretora do Ibase e coordenadora da pesquisa, o ponto de partida é entender que morador de favela tem direito, e não favor. “Quando falamos de água, saneamento, moradia ou mobilidade, não estamos falando apenas de serviços. Estamos falando de direitos. Essa perspectiva é fundamental porque reconhecer esses direitos também permite à população identificar quando eles não estão sendo garantidos e reivindicar políticas públicas que alcancem todo o território“, afirma.
Acesso à água
A água mostra bem essa contradição. Do total de entrevistados, 79,6% reconhecem que os programas antigos melhoraram o abastecimento. Mas 36,9% dizem que a água não chega todo dia na casa deles, e 28,9% reclamam da qualidade dessa água.
O andar pela comunidade também segue difícil. Nove em cada dez moradores dizem que ainda falta melhorar as ruas e passagens. E apenas 5,6% notaram alguma mudança que ajude quem tem deficiência ou dificuldade para caminhar.
A pesquisa foi além das obras. Na saúde, 62,4% conhecem pessoas que não conseguem atendimento adequado. Na educação, 62,1% dizem que ainda há crianças sem vaga em creche ou pré-escola. Esse número chega a 83,4% no Parque Conquista e na Vila Moretti, 82% no Salgueiro e 78,4% no Parque João Goulart.
Outro problema apontado é a falta de conserto no que já foi feito. Os moradores relatam rede de esgoto e de escoamento da chuva estragadas, canos de água velhos, ruas esburacadas e prédios públicos abandonados, como creches, escolas e postos de saúde.
A entrega não é o fim
Joice Lima, coordenadora técnica do estudo, explica que entregar a obra não é o fim da história. “As rodas de conversa mostraram que a urbanização não termina com a entrega de uma obra. Redes deterioradas, assoreamento de rios, acúmulo de resíduos e degradação das vias revelam o impacto da ausência de estratégias permanentes de manutenção e conservação“, diz a pesquisadora.
Muita gente também ficou de fora das decisões. Entre os moradores antigos, 39,1% afirmam que ninguém conversou com a comunidade para decidir o que seria feito ali. Em Fernão Cardim, esse número chega a 80%, e no Parque Unidos, a 79%. O Ibase defende que a população participe de todas as etapas dos próximos programas, desde o começo do planejamento até a hora de acompanhar se a obra ficou boa.
O último grande programa da prefeitura foi o Morar Carioca, criado em 2010 e depois abandonado. De lá para cá, o desafio só aumentou. Segundo dados de 2022 usados no estudo, o Rio tem 1.072 favelas cadastradas. Dessas, só 159 são consideradas urbanizadas e 114 receberam obras pela metade. Ou seja, cerca de 68% das favelas da cidade seguem sem obras organizadas.
“Os dados mostram a dimensão do desafio. Precisamos voltar a tratar a urbanização de favelas como uma política pública permanente, capaz de acompanhar as transformações desses territórios e garantir direitos para toda a população“, afirma Sandra Jouan, diretora do Ibase e também coordenadora do estudo.
Para ela, urbanizar não é só levantar parede e asfaltar rua. “Urbanizar uma favela não significa apenas realizar obras físicas. É preciso articular o direito ao saneamento e à habitação com os direitos à saúde, à educação, à mobilidade, ao trabalho, à cultura, aos espaços públicos e à proteção diante dos riscos climáticos.”
A pesquisa foi feita em duas etapas, uma entre 2022 e 2023 e outra entre 2025 e 2026. Além das entrevistas, os pesquisadores fizeram rodas de conversa dentro das comunidades para ouvir as histórias dos moradores. O lançamento aconteceu no Clube de Engenharia do Rio de Janeiro, na Avenida Rio Branco, 124, no Centro.
