Para muitos, Jéssica Pires é vista como símbolo de eficiência estratégica, uma jornalista capaz de transitar por diálogos complexos e ocupar espaços de decisão com segurança. Mas é no “corre” entre as pautas e o cuidado com a filha, Mariá, que sua técnica ganha o peso da realidade.
Como uma legítima cria da Maré, Jéssica muda a lógica do noticiário que só enxerga o perigo no CEP onde ela mora. Para ela, educar a pequena dentro do território não é uma limitação, é um projeto de futuro: é ensinar, entre as vielas, que a favela não é carência, mas potência ancestral. Sua voz carrega a autoridade de quem não apenas noticia o chão que pisa, mas o habita com o corpo, o afeto e a convicção de que o pertencimento é a sua maior ferramenta de gestão.
A trajetória de Jéssica reflete uma estatística que revela a força das favelas cariocas: na Maré, 72% dos lares são chefiados por mulheres. Ela integra o grupo de mais de 11 milhões de mães solo no Brasil, segundo levantamento do Instituto Locomotiva e Data Favela, que aponta um crescimento de 90% na presença de mulheres negras na liderança das famílias na última década. Jéssica também representa outro dado relevante: 60% dos negócios nas favelas são liderados por mulheres. Sua atuação mostra como a urgência do sustento pode se transformar em inovação e impacto social, desafiando a lógica que insiste em reduzir o território à carência.

Vida, maternidade e trabalho
Para ela, a comunicação nunca foi uma escolha meramente profissional. É uma decisão política de quem entende de onde veio. A “virada de chave” na carreira veio ao compreender que seu saber não poderia ser desvinculado da sua identidade territorial e social. “Trabalhar com sentido e propósito me alimenta e me constrói cada dia mais como profissional e como indivíduo”, revela. A necessidade de ir além não é escolha. Se impõe no processo que a vida impõe vindo de onde vem. “A gente acaba se organizando além do óbvio, inventando e reinventando ferramentas. É uma característica de ser múltipla e dar conta, de balançar tantos pratinhos na vida“, explica.
Em um mundo que insiste em silenciar corpos pretos e periféricos, ela exerce o papel de mãe como um ato de resistência e educação política. Como sua principal referência, a filha Mariá, de seis anos, ela entende que o exemplo fundamental. “A gente brinca que criança é esponja, mas é espelho também. A melhor forma de educá-la é demonstrando o que eu acredito: que o nosso lugar, a nossa cor e o nosso jeito de existir é bom, é bonito e é ancestral”. Para essa mãe que não separa a vida da luta, ver a pequena entender o papel do jornalismo e da defesa de direitos é o que traz o equilíbrio necessário.


Raízes e Redes
Ninguém caminha sozinha. A árvore genealógica de Jéssica tem raízes profundas no Nordeste, nos avós que desbravaram o Rio para que ela fosse a voz de hoje. De sua mãe, herdou o valor da justiça. De referências como Eliana Sousa Silva e a memória de Marielle Franco, a coragem de ocupar o centro do debate.
Ao citar suas “irmãs de vida”, Mayara, Jaci, Karina, Geisa, Lidiane, Amanda e tantas outras, ela desenha a rede de afeto que sustenta seus limites. “Tento achar o equilíbrio no contato com a natureza e nesse lugar relacional de amigos e familiares. É o meu respiro.”
O Impacto real
Para ela, sucesso é compromisso. Como comunicadora que honra a origem, Jéssica optou pela via do impacto verdadeiro. A técnica aqui serve à emancipação. “O retorno sobre a transformação na vida das pessoas tem valor imensurável”, diz.
O futuro que ela pavimenta para Mariá e para tantas outras jovens comunicadoras não é feito de promessas. É feito de ocupação estratégica. “É possível ocuparmos lugares sem negligenciar nossos valores”, reflete.
Ao refletir sobre sua trajetória, Jéssica transmite convicção: seguir alimentando o que é essencial. O futuro que constrói hoje, para sua filha e para jovens comunicadoras, não se apoia em promessas, mas na ocupação estratégica e consciente de espaços de poder. “Meu sucesso é garantir que minha filha nunca precise pedir licença para ser quem ela é nos lugares onde eu já abri as portas”, afirma, destacando a autenticidade como sua maior ferramenta de liderança.

Celebrar a trajetória de Jéssica Pires é, acima de tudo, reconhecer a vitória da continuidade e a potência de uma mulher que se fez furacão sem perder a ternura das raízes. O triunfo, para a cria da Maré, reside na presença, no ato de habitar o território, sustentar o diálogo e educar o futuro através do exemplo. “Celebro muito mais as vitórias e os achados do cotidiano do que as grandes coisas. Estarmos vivas, com saúde e dando conta de tudo, já é algo a se celebrar”, afirma.
