Reportagem escrita por Juliana Henrik
O que começou como um trabalho escolar de uma menina de 10 anos ganhou outro tamanho quando chegou às mãos da mãe. Em 2025, Julia recebeu da escola uma atividade sobre sustentabilidade e ficou responsável, junto com o grupo, por apresentar como o óleo de cozinha usado poderia ser transformado em sabão. A curiosidade da filha levou Jannine Moraes Sampaio a pesquisar com ela, entender o processo e ajudar na preparação da apresentação. O trabalho deu certo, mas a história não terminou quando a atividade foi entregue. Para Jannine, aquela experiência revelou que um resíduo que costuma ser descartado poderia se transformar não apenas em sabão, mas também em conhecimento, consciência ambiental e oportunidade de renda para outras mulheres.
Moradora do Complexo do Alemão, correspondente bancária, mãe de Julia e Kaiky, Jannine criou o Sabão Delas a partir dessa percepção. A iniciativa busca incentivar o descarte correto do óleo de cozinha e transformá-lo em produtos de limpeza sustentáveis, ao mesmo tempo em que capacita mulheres para a produção e comercialização. A proposta também dialoga com uma história pessoal. Jannine cresceu acompanhando os desafios enfrentados pela mãe, que criou quatro filhos sozinha, e carregou para a vida o desejo de conquistar independência financeira e construir algo que fosse seu. Ao longo do caminho, dificuldades financeiras, profissionais e pessoais acabaram se tornando também combustível para buscar soluções.

O projeto começou pequeno, mas foi ganhando estrutura. Jannine contou com o apoio da família, especialmente dos filhos e do esposo, e encontrou no espaço do Talentos do Morro, na Praça do Terço, número 15, um lugar para desenvolver as atividades. Hoje, o projeto possui uma sala e um laboratório onde as participantes aprendem e colocam em prática o processo de produção.
Os resultados já mostram que a ideia saiu do papel. O Sabão Delas conta atualmente com 20 ecopontos de coleta espalhados pelo território e já recolheu cerca de 450 litros de óleo de cozinha usado. A quantidade coletada foi suficiente para a produção de aproximadamente 1.800 sabões, sem contabilizar o material perdido durante a fase de testes e aperfeiçoamento da produção. Ao todo, 15 mulheres já são impactadas pela iniciativa, que começa a criar uma rede em torno da sustentabilidade e da geração de renda.
A trajetória do projeto ganhou ainda mais força com a participação no Programa PISTA, iniciativa realizada a partir de edital da FAPERJ, com a colaboração do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e da Organização das Nações Unidas (ONU). O Sabão Delas foi um dos projetos contemplados pelo edital e passou a fazer parte do PISTA Alemão, além de integrar a incubadora do PISTA Alemão, onde encontra acompanhamento e apoio para desenvolver e fortalecer sua atuação no território.
Os recursos recebidos por meio do edital da FAPERJ estão sendo utilizados para estruturar o projeto, adquirir equipamentos e materiais, produzir embalagens e investir em capacitações e ações que ajudem a fortalecer a coleta e a comercialização. Também foi possível produzir materiais de divulgação para as participantes, como banners e sacolas, para que elas possam apresentar os produtos e começar a construir seus próprios caminhos de venda.
A primeira turma do Sabão Delas começou em 4 de julho, com dez mulheres. Foram cinco sábados de formação, das 9h às 12h, em uma experiência que agora chega à reta final. Falta apenas uma aula para a conclusão da primeira turma e a entrega dos certificados de participação. O encerramento, no entanto, já vem acompanhado de um novo começo: na segunda semana de setembro, uma nova turma será iniciada. Como o espaço disponível é limitado, Jannine precisou dividir as participantes em turmas, estratégia que permite ampliar o número de mulheres atendidas sem comprometer a estrutura do laboratório.


A capacitação já começa a produzir efeitos concretos. As alunas participam da produção dos sabões e algumas já iniciaram a comercialização. Uma delas é Elisangela Francisca de Souza Costa, conhecida como Lili, de 44 anos, que decidiu levar os produtos para a rua. Na região da Mourão Filho, ela montou sua mesa de vendas e passou a apresentar os sabões produzidos durante a formação. O banner feito com recursos do projeto acompanha o ponto de venda e ajuda a dar visibilidade ao trabalho.
Para Jannine, cada mulher que começa a produzir e vender representa uma transformação que vai muito além do produto. E algumas dessas mudanças carregam histórias que chegam de lugares ainda mais profundos. Uma das participantes, por exemplo, perdeu a mãe e guarda na memória os momentos vividos no interior, quando observava a mãe produzir sabão e cortar as barras feitas em casa. Hoje, ao participar do Sabão Delas, ela reencontra essa lembrança durante as atividades e fala frequentemente sobre a mãe. O que poderia ser apenas uma técnica aprendida em uma capacitação acabou se tornando também uma forma de se aproximar novamente de uma memória afetiva.
É nesse encontro entre passado e futuro que Jannine percebe o impacto do projeto. “Uma pessoa já foi transformada: eu”, afirma. A própria coordenadora reconhece que o Sabão Delas mudou sua forma de enxergar o empreendedorismo e a liderança. A iniciativa fez com que acreditasse mais nas próprias ideias, buscasse conhecimento e entendesse que soluções simples podem provocar mudanças significativas quando encontram oportunidade para crescer.
O próximo desafio é ampliar a rede de coleta e fazer com que mais moradores e estabelecimentos comerciais adotem o descarte correto do óleo. A intenção é aumentar a quantidade de resíduos retirados do meio ambiente, ampliar o número de mulheres beneficiadas e fortalecer a produção e a comercialização dos produtos. O sonho de Jannine é transformar o Sabão Delas em uma referência de sustentabilidade, empreendedorismo feminino e economia circular dentro das favelas.
A história, no entanto, continua tendo a mesma essência de quando tudo começou. Uma filha chegou em casa com uma tarefa da escola e pediu ajuda à mãe. A mãe ajudou a filha, pesquisou, aprendeu e enxergou uma possibilidade. Hoje, aquela experiência já resultou em centenas de litros de óleo retirados do descarte inadequado, milhares de sabões produzidos, ecopontos espalhados pelo território e mulheres aprendendo a transformar conhecimento em renda.
O Sabão Delas mostra que uma mudança ambiental também pode ser uma mudança social. O óleo que antes seria descartado pode virar produto. O aprendizado pode virar trabalho. E uma ideia que nasceu dentro de uma casa pode ganhar as ruas do Complexo do Alemão.
Como ajudar
Quem tiver óleo de cozinha usado pode contribuir com o projeto levando o material até um dos 20 ecopontos de coleta espalhados pelo território. A doação ajuda a evitar o descarte inadequado, contribui para a preservação do meio ambiente e fortalece uma iniciativa que busca gerar renda e novas oportunidades para mulheres.
Para conhecer os pontos de coleta, acompanhar o trabalho e saber mais sobre o Sabão Delas, siga @sabaodelas nas redes sociais.
Doe seu óleo usado. Você ajuda o meio ambiente e contribui para gerar renda para muitas mulheres.

