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Pesquisa revela rejeição maciça à escala 6×1 entre moradores de favelas do Rio de Janeiro

Levantamento do Voz das Comunidades ouviu 225 pessoas de diversas favelas e aponta que 76% são contra o regime; cansaço e falta de tempo com a família são os principais motivos

Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
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O regime de trabalho 6×1, que consiste em seis dias consecutivos de jornada e apenas um de descanso, é rejeitado por três em cada quatro moradores de favelas do Rio de Janeiro. É o que aponta pesquisa inédita realizada pelo Voz das Comunidades entre os dias 25 de maio e 15 de junho, com 225 participantes de localidades como Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Mangueira, Cidade de Deus, Vidigal, Santo Amaro, Rocinha e outras.

O levantamento, feito por meio de formulário online divulgado nas redes sociais (WhatsApp, Instagram e Facebook), revela que a insatisfação com o modelo trabalhista atravessa gênero, raça e idade, mas atinge com mais dureza a população preta e parda, que representa a maioria dos entrevistados e também a maior parcela de contrários ao regime.

 Cansaço e família no topo das queixas

Dos 225 moradores ouvidos, 62% afirmaram trabalhar atualmente na escala 6×1. Entre todos os participantes, 76% se declararam contra o modelo. O principal problema apontado foi o cansaço físico e mental, mencionado por 59% dos respondentes. Em seguida, a falta de tempo para ficar com a família foi citada por 32%, enquanto a dificuldade para estudar e o tempo gasto em transporte público também aparecem como impactos relevantes, conforme os dados da pesquisa.

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68% afirmaram que a produtividade piora ao longo de uma semana trabalhando na escala 6×1. Mesmo entre os que se disseram “a favor” do 6×1, as queixas são semelhantes, o que sugere que o apoio está mais ligado à necessidade de manter o emprego do que à satisfação com as condições de trabalho, um achado que aparece tanto na análise geral quanto nos relatos agregados.

Desigualdade racial escancarada

O recorte racial da pesquisa expõe uma realidade ainda mais desigual. Entre os trabalhadores pretos e pardos, que compõem a maior parte da amostra, 77% rejeitam a escala 6×1. O cansaço crônico e o isolamento familiar foram apontados como os fatores mais agudos, refletindo como as longas jornadas e funções operacionais mais pesadas recaem desproporcionalmente sobre a população negra.

Entre os brancos, a rejeição também é majoritária, com 68% contra. Embora a proporção seja ligeiramente menor, as queixas sobre falta de lazer e estresse se assemelham. Já entre os poucos entrevistados indígenas e amarelos, 100% declararam oposição ao regime, reforçando o caráter desgastante da escala independentemente da ancestralidade, de acordo com os dados consolidados.

Alternativas são desejadas

Quando comparado ao regime 5×2 (cinco dias de trabalho e dois de descanso), apenas 22% dos entrevistados demonstraram preferência pelo 6×1. O dado evidencia que a maioria dos trabalhadores busca modelos mais equilibrados, ainda que a falta de opções no mercado de trabalho os mantenha reféns da escala atual. A pesquisa também mostrou que mesmo entre aqueles que já atuam no 5×2, as queixas sobre cansaço e falta de tempo para a família persistem, indicando que a precarização estrutural das periferias vai além da escala e envolve longos deslocamentos e baixa qualidade de vida.

O que está em jogo

A escala 6×1, comum em setores como comércio e serviços, tem sido alvo de críticas de movimentos sociais como o Vida Além do Trabalho (VAT), fundado e idealizado pelo atual vereador do Rio de Janeiro Rick Azevedo, que defendem a redução da jornada e mais qualidade de vida para os trabalhadores. No Senado Federal, o tema tramita em debates que podem levar a mudanças na legislação trabalhista, conforme mencionado na apresentação da pesquisa.

Para os moradores de favelas, porém, a discussão vai além da questão jurídica. O levantamento do Voz das Comunidades escancara que o debate sobre jornadas de trabalho precisa considerar não apenas aspectos econômicos, mas também sociais e raciais. Enquanto em áreas privilegiadas se discute flexibilização, nas favelas o 6×1 simboliza a permanência da exploração e a falta de alternativas concretas, perpetuando um ciclo de exclusão que restringe o tempo para educação, participação comunitária e lazer.

Os resultados demonstram que a escala 6×1 é amplamente rejeitada pelos moradores de favelas do Rio de Janeiro, principalmente pelos impactos negativos sobre saúde, convivência familiar e produtividade. A insatisfação é consistente e atravessa diferentes grupos raciais, reforçando a necessidade urgente de repensar modelos de trabalho mais humanos e sustentáveis, que garantam dignidade e qualidade de vida, especialmente em territórios populares onde a precarização é mais intensa.

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