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Percursos Interrompidos: Estudo revela que tiroteios travam transporte e impactam acesso à educação

Penha, Bangu e Jacarepaguá, zona norte e oeste do Rio, foram os locais que tiveram mais impactos de mobilidade

Estudante voltando para casa no meio de uma operação da polícia em março Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades
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A escola é um local de educação, aprendizado e desenvolvimento. Mas, muitas vezes a vida de crianças e jovens estudantes do sistema público é atravessada pela força armada do Estado. Caveirões, tiroteios… A questão da segurança pública acaba se tornando um obstáculo direto para o futuro da favela.

Luciene Rodrigues, de 47 anos, mãe de uma menina de 6, relata o quanto é difícil manter o aprendizado da filha em dia diante das operações policiais. “As operações interferem na rotina escolar da minha filha de forma muito significativa. Em dias de operações, que sempre são no horário da manhã, as crianças ou estão a caminho ou já chegaram na escola. Se está pra sair de casa, óbvio que eu não mando. Se acontece no caminho da escola, eu tento me proteger com ela o máximo que eu posso, em algum local seguro”, conta.

Ela também explica que adquiriu o costume de se informar logo cedo sobre possíveis operações na região, seja pela TV ou pelos grupos de moradores. “Se está acontecendo alguma coisa, não mando. Em hipótese alguma. A segurança é muito mais importante do que a tentativa. O jeito é ficar em casa e rezar. Rezar para que tudo acabe”.

A escola onde a filha estuda não tem o hábito de enviar comunicados sobre cancelamento de aulas por conta de operações na área, mas Luciene encontrou seus próprios métodos para contornar a situação. “Entro no grupo escolar do WhatsApp e aviso que não tem como sair de casa por conta da segurança.”

Quebra de rotina atinge milhares de alunos no Rio de Janeiro

Essa quebra na rotina da vida escolar atinge cerca de 1900 mil estudantes da rede municipal do Rio de Janeiro. É o que revela uma pesquisa do Instituto Fogo Cruzado, que mapeou interrupções no transporte público causadas pela violência armada na cidade. Intitulado “Percursos interrompidos: efeitos da violência armada na mobilidade de crianças e adolescentes no Rio de Janeiro”, o estudo levantou dados entre janeiro de 2023 e julho de 2025, registrando 2.228 interrupções no período.

O levantamento analisou como a violência armada afeta a mobilidade urbana, comprometendo o acesso de crianças e jovens a direitos básicos, como a ida à sala de aula. Das 2.228 interrupções registradas, 786 ocorreram em 2023, 852 em 2024 e 590 até julho de 2025. Com essas paralisações no transporte público, a rede municipal de ensino é duramente impactada. “Das 4.008 unidades escolares ativas em 2024, cerca de 95% (3.825 escolas) registraram ao menos uma interrupção do transporte público em seu entorno ao longo do período analisado”, destaca o documento.

“Já demonstramos como a violência armada afeta a aprendizagem e a permanência na escola. Agora os dados indicam como o deslocamento é impactado. Esse conjunto de informações precisa ser utilizado se de fato queremos planejar políticas públicas de garantia do direito à educação e sobretudo políticas de prevenção da violência”, afirma Maria Isabel Couto, diretora de dados e transparência do Instituto Fogo Cruzado. 

Maria Isabel Couto é diretora de dados e transparência do Fogo Cruzado. O estudo foi publicado em parceria com o UNICEF e o GENI-UFF, núcleo especializado em temas associados às diferentes formas de violências e conflitos sociais. Foto: Arquivo pessoal

Penha lidera 

Ainda de acordo com o estudo, Penha, Bangu e Jacarepaguá, zona norte e oeste do Rio, se destacam como o centro da mobilidade interrompida, acumulando, respectivamente, 633, 175 e 161 eventos ao longo do período analisado. Em termos de duração acumulada, a Penha permaneceu o equivalente a 176 dias sem circulação de transporte público. Jacarepaguá registrou 128 dias de interrupção acumulada, enquanto Bangu somou 45 dias. Nessas regiões da Zona Norte e da Zona Oeste, a instabilidade na circulação deixa de ser episódica e passa a integrar o cotidiano urbano.