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OPINIÃO – O futuro da favela não cabe na urna 

Foto: Renato Silva
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Por: Tuany Nascimento

Eu sou a terceira geração de uma mulher negra da minha família que cresceu, se criou e ainda vive no Morro do Adeus, no Complexo do Alemão. Por aqui passou minha avó,  minha mãe e por aqui estou eu. Três gerações atravessadas pelo mesmo território e por tudo aquilo que mulheres negras construíram mesmo quando quase nada estava dado.

Quando olho para o que minha avó construiu e para o que minha mãe deixou para mim, sinto o peso dessa presença. Não como algo que paralisa, mas como responsabilidade de olhar para a favela por aquilo que ela produz.

Produz artistas, trabalhadores, empreendedores. Produz conhecimento, rede de cuidado, sonhos. Produz soluções todos os dias, muitas vezes antes mesmo que qualquer política pública consiga chegar.

Por isso, quando penso no futuro da favela, não consigo pensar apenas no que o poder público precisa fazer por nós. Penso também no que nós precisamos fazer por nós mesmos.

Eu quero uma favela com escola de qualidade, cultura, esporte, saúde, saneamento, mobilidade, moradia digna e segurança. Quero jovens tendo oportunidade antes que alguém tente convencê-los de que seu futuro já está definido, quero crianças podendo sonhar, sem que o CEP determine o tamanho dos seus sonhos.

Mas também quero moradores de favela ocupando os espaços onde as decisões são tomadas, nas universidades, empresas, equipamentos culturais, secretarias, conselhos e espaços de poder. E, quando chegarmos lá, não podemos esquecer de onde viemos. Porque sair da favela não deveria significar deixá-la para trás. Deveria significar abrir caminho para que outros possam chegar.

O futuro do meu território não será construído apenas por quem estiver sentado em uma cadeira de governo. Também será construído por quem mora, trabalha e cria seus filhos aqui. E por quem decide transformar sua indignação em ação.

E é impossível falar de futuro sem falar do presente.

Em outubro, teremos novamente uma dessas oportunidades. No dia 4, mais de 158 milhões de eleitores estarão aptos a votar nas Eleições Gerais de 2026. Escolhemos presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual. O voto será direto e secreto.

Acho curioso que, antes mesmo de outubro, tanta gente queira saber em quem o outro vai votar. Talvez estejamos fazendo a pergunta errada.

Antes de me perguntarem em quem eu vou votar, me perguntem o que eu quero para o lugar onde eu vivo. Meu voto é secreto. Mas o futuro que eu desejo para a minha comunidade não deveria ser.

Eu quero discutir projeto, compromisso e prioridades. Quero saber quem entende que favela não precisa apenas de assistência, mas de investimento, estrutura e participação nas decisões. Quero quem entenda que cultura não é enfeite, educação não é apenas sala de aula, segurança não pode ser pensada sem considerar a vida de quem mora na favela, e que juventude não pode ser lembrada apenas quando vira estatística.

Mas também quero olhar para nós.

Não adianta cobrar transformação nas redes sociais e permanecer parado. Não adianta ocupar um espaço fora da favela e não olhar mais para trás. Não adianta querer representatividade sem construir representação. Não adianta falar sobre futuro se não estamos dispostos a agir no presente.

O Brasil tem mais de 16 milhões de pessoas vivendo em Favelas e Comunidades Urbanas, segundo o Censo 2022. São 16 milhões de histórias, necessidades, talentos e possibilidades. Isso não é pouca gente. E nosso maior desafio é entender a força que existe quando essa gente se reconhece como parte da sociedade e não a margem dela.

Porque democracia não deveria ser apenas o momento em que apertamos uma tecla na urna. Democracia é participação, organização, cobrança e responsabilidade. Eu não acredito em uma favela que precise esperar alguém salvá-la. Acredito em uma favela que precisa ser ouvida e respeitada pelas políticas públicas, mas que também reconheça seu próprio poder.

O poder de votar.

O poder de escolher.

O poder de cobrar.

O poder de ocupar.

O poder de criar.

O poder de voltar.

E talvez esse seja o futuro que eu quero, não uma favela que deixe de ser favela para ser aceita pela cidade, mas uma favela que tenha condições de existir com dignidade, sem precisar pedir licença para sonhar.

Uma favela onde nossas crianças possam crescer sabendo que podem chegar a qualquer lugar. E, quando chegarem, possam olhar para trás e dizer:

“Eu vim daqui. E não vim sozinha.”

Tuany Nascimento é bailarina, gestora cultural, mulher negra e moradora do Morro do Adeus, no Complexo do Alemão. É fundadora da Na Ponta dos Pés, organização que há mais de uma década transforma a arte, especialmente a dança, em instrumento de formação, pertencimento e criação de futuros para crianças e jovens da favela. Atua na defesa de uma cultura produzida com, para e a partir dos territórios periféricos.

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