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OPINIÃO – Entre o axé e a coletividade: vivências de favela e religiões de matriz africana

Foto: Clara Nascimento
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Artigo escrito por Ana Muza Cipriano

Crescer no Pavão-Pavãozinho, favela da zona sul do Rio, me ensinou cedo sobre coletividade e que sobreviver muitas vezes depende do cuidado compartilhado. Anos depois, ao chegar no Candomblé, reconheci naquela vivência algo que já existia dentro do território: o compromisso com o outro, o respeito aos mais velhos, a partilha e a construção coletiva da vida.

As religiões de matriz africana seguem sendo reduzidas ao preconceito, à criminalização e ao silêncio. No entanto, dentro das favelas, os terreiros sempre ocuparam um papel muito maior do que apenas espaços religiosos. São lugares de acolhimento, fortalecimento comunitário, preservação da memória ancestral e resistência negra diante de uma sociedade marcada pelo racismo estrutural.

Em muitos territórios periféricos, o Candomblé, a Umbanda, o Omolocô, o Tambor de Mina e muitos outros cultos ultrapassam o campo da espiritualidade. Funcionam como espaços de construção coletiva, fortalecimento identitário e resistência social. O espaço religioso agrega, conecta e se transforma em uma grande família, com suas particularidades e necessidades, mas com algo em comum: o compromisso com o bem viver coletivo.

Dentro do território criamos memórias afetivas junto ao desenvolvimento daquele lugar. Desde crianças aprendemos a dividir o pão, o açúcar e o café, vamos crescendo com nossos vizinhos percebendo os laços que vão se formando, tal qual acontece na chegada a um espaço religioso. Em diferentes fases da vida nos deparamos com a natureza, com a ancestralidade e com o compromisso de nos avaliarmos enquanto cidadãos de uma cidade que ainda enxerga nossa prática religiosa como algo errado.

Assim como nas favelas e periferias, lidamos diariamente com o racismo. É dentro do terreiro que muitas feridas começam a se curar e se transformar em luta. Somos educados através das histórias dos orixás, aprendendo com os mais velhos sobre conduta, respeito e partilha. Tudo se entrelaça. Muito do que entendemos hoje como resistência cultural negra nas periferias também atravessa os terreiros.

O racismo que atravessa a favela também atravessa o terreiro. Dados do Disque 100 mostram que praticantes de religiões de matriz africana seguem entre os principais alvos da intolerância religiosa no Brasil. Entre 2025 e o início de 2026, o Disque 100 registrou 2.774 denúncias. Ao mesmo tempo, moradores de favelas e periferias convivem diariamente com discriminação e constrangimentos por conta do território onde vivem. A luta do povo preto se entrelaça com o terreiro como espaço de manutenção da dignidade negra. Pensar na vinda dos nossos ancestrais, no sofrimento e na resistência para manter vivas nossas honrarias também se estabelece na chegada e permanência do nosso povo nas favelas. Muitos “crias” seguem no mesmo território, carregando memórias e histórias que nos fazem refletir sobre o pertencimento e o protagonismo de nossas vidas.

Na Umbanda sentamos para ouvir a sabedoria dos pretos velhos. No Candomblé sentamos para ouvir nossos mais velhos. Sempre nessa perspectiva da sabedoria ancestral, compreendendo que quem veio primeiro consegue olhar para a vida com mais atenção, cuidado e preparo.

As religiões de matriz africana seguem reafirmando diariamente que ancestralidade também é tecnologia de sobrevivência coletiva e falar sobre isso nas favelas também é defender memória, cultura e humanidade. Afinal, a vivência dentro do Candomblé nunca foi apenas individual, porque o Candomblé ensina a viver em comunidade.

Em territórios historicamente atravessados pela exclusão, o axé segue ensinando que ninguém sobrevive sozinho, ouço cuidadosamente minha Iyálórìṣà Soraya de Òṣóòsì dizer que “quem tem irmão não brinca sozinho”. E assim também segue nossa resistência pelos becos e vielas, onde sobreviver muitas vezes depende do cuidado coletivo.

Ana Muza Cipriano 
Jornalista com foco em comunicação popular e graduada em Recursos Humanos. Fundadora do PPG Informativo, jornal dos morros do Pavão-Pavãozinho e Cantagalo. Atua com articulação de redes, produção de conteúdo e desenvolvimento de projetos, com foco na promoção da diversidade, inclusão social e no protagonismo das mulheres pretas de periferias e favelas

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