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Onde muitos veem lixo, a Recicla Bem enxerga novas possibilidades

No Complexo do Alemão, cooperativa tem o vidro como carro-chefe e transforma resíduos em trabalho, renda e cuidado com o território

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Reportagem escrita por Juliana Henrik

Para Sérgio Santana dos Santos, conhecido como Sérgio Trem, o trabalho começou cedo. Aos 9 anos, enquanto muitas crianças ainda descobriam as primeiras brincadeiras da infância, ele já acordava para trabalhar em uma feira. Era uma forma de ajudar a mãe a sustentar a família, depois que a separação dos pais mudou a rotina da casa.

Sérgio havia chegado ao Complexo do Alemão vindo de Santa Dalila, em Magé, acompanhado da mãe e de seis irmãos. Em um dos períodos mais difíceis, a família chegou a morar embaixo da escada da casa de um primo da mãe. Eram oito pessoas dividindo um espaço pequeno.

Pela manhã, Sérgio trabalhava. À tarde, estudava. Foi na feira, também, que ganhou o apelido que o acompanha até hoje. Por trabalhar com um carrinho grande, passou a ser chamado pelos amigos de “Trem”.

Quase três décadas depois, aquele menino que aprendeu tão cedo o significado de trabalho e dificuldade estaria novamente diante de materiais que, para muitos, não tinham mais valor.

Só que dessa vez ele não estava procurando apenas uma forma de sobreviver. Estava procurando uma forma de criar oportunidades.

Hoje, Sérgio é presidente da Cooperativa Recicla Bem, no Complexo do Alemão. O projeto trabalha com coleta, separação e destinação de materiais recicláveis e tem no vidro seu principal foco.

Garrafas, potes e outros materiais que poderiam terminar no lixo passam pelas mãos de trabalhadores antes de seguir para a logística reversa e retornar à cadeia produtiva.

É nesse caminho entre o que é descartado e aquilo que pode voltar a ter utilidade que a Recicla Bem constrói sua história. Uma ideia que nasceu do que seria jogado fora. Antes da reciclagem, Sérgio já estava envolvido com ações sociais. A convivência com crianças e adolescentes de uma escolinha de futebol fez com que ele reconhecesse naqueles jovens algumas das dificuldades que também fizeram parte de sua própria trajetória.

A partir dali, passou por associação, projetos sociais e outras experiências comunitárias. Foi também candidato a vereador. Mas a ideia da cooperativa surgiu em outro momento, quando Sérgio estava desempregado.

Durante uma visita a um conhecido que trabalhava com caçamba em uma pedreira, percebeu a quantidade de materiais que eram descartados. Ele pediu autorização para recolhê-los. O que parecia ser apenas uma maneira de aproveitar um material que seria jogado fora acabou se transformando em um projeto maior.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Garrafas
Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

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A Recicla Bem cresceu e chegou a funcionar em três turnos, reunindo cerca de 100 trabalhadores. Aos poucos, a reciclagem deixou de ser apenas uma atividade e passou a formar uma cadeia de trabalho dentro e fora do território. Quando o vidro ganha uma segunda vida. Entre todos os materiais que passam pela cooperativa, o vidro ocupa um lugar especial. É o carro-chefe da Recicla Bem. E não é difícil entender por quê.

Garrafas e embalagens de vidro fazem parte da rotina de qualquer cidade, mas, quando descartadas de forma inadequada, podem representar riscos para quem trabalha na coleta e na separação. Na cooperativa, o material recebe outro destino. Depois de recolhido, o vidro é separado, armazenado e encaminhado para a logística reversa. O que antes era visto apenas como resíduo passa novamente a integrar uma cadeia produtiva.

Entre junho e agosto de 2026, foram encaminhadas para logística reversa 15 toneladas de vidro, segundo o relatório de impacto da cooperativa. No mesmo período, também foram destinados 500 quilos de PET, 300 quilos de metal e 10 litros de óleo.

Os números revelam uma operação que vai muito além do galpão. Por trás de cada tonelada estão os trabalhadores que coletam, transportam, separam e organizam os materiais. Estão também os moradores que fazem a separação em casa e os parceiros que ajudam a manter essa cadeia em movimento.

A Recicla Bem mantém uma rede de ecopontos em diferentes regiões, como Complexo do Alemão, Engenho Novo, Engenho da Rainha, Inhaúma, São Francisco Xavier, Irajá, Piedade e Barro Providência.

Segundo os dados da cooperativa, 28 famílias são beneficiadas diretamente pela atividade e cerca de 100 pessoas são alcançadas indiretamente. Reciclar também é gerar trabalho. É difícil falar da Recicla Bem sem falar de trabalho.

Essa palavra acompanha a trajetória de Sérgio desde a infância e aparece novamente na história de cada pessoa que participa da cooperativa. A reciclagem movimenta uma cadeia que começa no descarte e passa pela coleta, triagem, armazenamento, transporte e logística reversa.

Quando esse processo funciona, o benefício não fica restrito ao meio ambiente. Ele também chega às famílias que dependem dessa atividade para gerar renda. A própria história familiar de Sérgio ajuda a explicar essa relação. Segundo ele, seu pai já recolhia materiais recicláveis para complementar a renda da família.

O que antes era uma alternativa para colocar dinheiro dentro de casa atravessou gerações e ganhou novos significados. Hoje, a reciclagem também é vista como uma possibilidade de organização comunitária, geração de renda e desenvolvimento local.

Foto: Reprodução

Uma nova etapa para a Recicla Bem

Essa trajetória ganhou um novo capítulo com a entrada da cooperativa na Incubadora do Pista Alemão. A Recicla Bem foi contemplada pelo edital PISTA da FAPERJ, com apoio do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e da Organização das Nações Unidas (ONU). O apoio chega em um momento de expansão da iniciativa e permite investir em áreas importantes para o funcionamento da cooperativa.

Entre as ações estão a reforma do galpão, aquisição de maquinário, capacitação dos cooperados e atividades de conscientização ambiental. Mais do que oferecer equipamentos, a estruturação cria condições para que a cooperativa amplie uma atividade que já existe no território há anos. É o encontro entre uma experiência construída pela comunidade e novas ferramentas para que ela possa crescer.

O trabalho começa antes do galpão. Para que o vidro chegue à cooperativa em condições de ser reaproveitado, existe uma etapa fundamental: a conscientização. Separar corretamente os resíduos muda o caminho que aquele material poderá percorrer. Uma garrafa que é descartada junto com outros resíduos pode acabar no lixo comum. Quando é separada e encaminhada corretamente, pode entrar novamente na cadeia produtiva. Por isso, a Recicla Bem também trabalha com educação ambiental. A proposta é fazer com que os moradores entendam que o descarte não representa necessariamente o fim de um material. Pode ser o começo de outro processo.

Esse trabalho se relaciona com diferentes Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, como o ODS 8, sobre trabalho decente e crescimento econômico; o ODS 11, sobre cidades e comunidades sustentáveis; o ODS 12, sobre consumo e produção responsáveis; e o ODS 13, relacionado à ação contra a mudança global do clima. Ainda há muito a fazer. O crescimento da cooperativa também traz desafios.

A Recicla Bem ainda precisa ampliar sua estrutura, adquirir novos equipamentos, aumentar a capacidade de processamento e lidar com dificuldades burocráticas. Outro desafio é ampliar a rede de coleta e fazer com que mais moradores compreendam a importância da separação dos resíduos. No caso do vidro, essa conscientização é ainda mais importante. Quanto mais material é separado corretamente, maior é a possibilidade de ele deixar de ser descartado de forma inadequada e seguir para a logística reversa.

A meta é fortalecer uma cadeia que começa muito antes de o material chegar ao galpão. Começa dentro de casa. Um novo ciclo

A história de Sérgio e da Recicla Bem se encontram justamente nesse ponto. O menino que começou a trabalhar aos 9 anos para ajudar a família se tornou um homem que encontrou no trabalho coletivo uma forma de criar novas possibilidades para outras pessoas. E o material que alguém descarta pode ganhar um novo caminho pelas mãos de quem trabalha na cooperativa.

Talvez seja essa a imagem que melhor representa a Recicla Bem. Uma garrafa de vidro pode parecer apenas uma embalagem vazia depois de cumprir sua primeira função. Mas, quando é recolhida, separada e encaminhada corretamente, ela não precisa terminar ali. Pode voltar a fazer parte de uma nova história.

No Complexo do Alemão, a cooperativa trabalha justamente nesse intervalo entre o descarte e a possibilidade. Entre aquilo que perdeu sua função e aquilo que ainda pode ter valor. Entre o fim de um ciclo e o começo de outro. E é nesse movimento que a Recicla Bem transforma vidro em matéria-prima, resíduos em trabalho e uma iniciativa comunitária em novas possibilidades para o território.

Para conhecer o trabalho da Cooperativa Recicla Bem, acompanhar as ações ou saber como contribuir, basta acessar o Instagram @cooperativareciclabem.

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