Enquanto em outros estados ele atende por nomes como gelinho, flau ou dindin, já Rio ele é soberano e atende por sacolé. Para quem é cria, é impossível esquecer a frase que embalou gerações: “Olha o sacolé, água pura ninguém quer!”. Mas o que antes era apenas o refresco oficial da garotada, hoje ganhou status de negócio profissional. No Complexo do Alemão, o mercado de sacolés tradicionais e gourmet cresce a passos largos, impulsionando o microempreendedorismo e garantindo a independência financeira de famílias que viram no saquinho plástico uma saída para a crise.
O Voz das Comunidades percorreu pontos estratégicos, como o Sabino, a Alvorada e a Fazendinha, para contar as histórias de Geovana, Renata e Dona Maria, três mulheres que transformaram suas vidas através das vendas.
Do investimento de R$28 reais à vendas fora do Alemão
Geovana, é cria do Alemão e personifica o conceito de transformar necessidade em oportunidade. Com o desejo de conquistar suas próprias coisas e o apoio dos pais, ela começou do zero. “Foi no escuro, tudo muito difícil. Eu tinha 12 reais e meu pai me deu os 16 que restavam na carteira dele. Fui no sacolão da Grota, comprei o material e fiz meu primeiro sacolé”, relembra.
O que começou com apenas R$28 reais, tornou-se um investimento sólido. Com o lucro, a empreendedora se capacitou em cursos de confeitaria e hoje domina a arte de doces, bolos e sacolés gourmet. Sem placa na porta, foi o “boca a boca” dos vizinhos que espalhou a fama. Hoje, seus produtos atravessam a cidade e chegam até a Barra da Tijuca, com entregas diárias realizadas por seu esposo.
A veia empreendedora, segundo ela, é um legado. A Geovana, matriarca da família, sempre ensinou as filhas a terem um “Plano B”. “Ensinei que, independente da profissão que escolhessem, precisavam saber fazer algo. Uma é professora e artesã, a outra é manicure”, afirma. Ela, que ajudou a construir a casa própria vendendo doces numa época sem internet, orgulha-se de ver as filhas seguindo o caminho da autonomia.
Da acerola do quintal ao pagamento das contas
Na Rua 2, na localidade da Alvorada, encontramos a história de garra da Renata. O negócio começou de forma despretensiosa: com acerolas do quintal e laranjas da geladeira, ela fazia sacolés para as filhas. A qualidade chamou a atenção de um vizinho, que insistiu em comprar. O que era um experimento doméstico virou a principal fonte de renda da família.
“Tem apenas 15 dias que realizamos o sonho de abrir nossa própria loja, mas meu esposo continua nas ruas vendendo pelo Alemão”, comemora Renata. O volume de produção impressiona: em dias de calor intenso, ela chega a vender 400 unidades em 24 horas, produzindo tudo sozinha em sua cozinha. Além dos sabores clássicos, ela inova com misturas como abóbora com coco e milho com coco. “A junção de sabores foi ideia de Deus”, revela.
Agora, o próximo objetivo é um carro próprio para facilitar a logística. “Acordamos muito cedo para ir ao Ceasa. Faço questão de comprar o melhor, mas carregar todo esse peso, tanto na compra quanto na entrega, é o nosso maior desafio hoje”, explica a empreendedora, que já paga as prestações da casa e investe em equipamentos com o lucro do negócio.

Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades


A tradição que acolhe na Fazendinha
No alto da Fazendinha, próximo à Associação de Moradores, a tradição tem o rosto de Dona Maria. De cabelos brancos e sorriso no rosto, ela garante o complemento da aposentadoria com o sacolé “raiz”. Para ela, o segredo do sucesso é a simplicidade feita com excelência. “Meus sacolés são feitos da fruta, tudo de primeira. E ainda tem o ingrediente especial, que é o amor e o carinho”, conta.
As histórias de Geovana, Renata e Dona Maria mostram que a economia da favela se move na base da persistência. O sacolé gera emprego, constrói casas e realiza sonhos. Elas provam que, com pouco recurso e muita visão, as mulheres do Alemão seguem driblando as dificuldades e se reinventando a cada dia.

Foto: Vilma Ribeiro / Voz das Comunidades

ONDE ENCONTRAR?
- Delícias da Geovana: (21) 98425-2353 (Sabino – Grota)
- Renata Sacolés: (21) 98657-0951 (Rua 2 – Alvorada)
- Dona Maria: Próximo à Associação de Moradores (Fazendinha)
Os preços variam de R$2,50 (frutas) a R$4,50 (gourmet). Vale a pena conferir de perto!


