Olhar para a trajetória de Alda Mainara, de 28 anos, é enxergar o reflexo de milhares de mulheres que decidiram ditar as regras do próprio destino. Hoje na liderança da Gaia Centro Estético & Bronzeamento, na Vila Cruzeiro, Complexo da Penha, ela não construiu apenas um negócio de sucesso, mas uma verdadeira rota de fuga para quem busca independência financeira e dignidade dentro da favela. Filha de pai camelô e mãe auxiliar de creche, Alda traz na pele e na história a bagagem de quem trabalha desde os 14 anos e entende o valor de cada conquista. Aos 17 anos, ela decidiu buscar na área da saúde e do cuidar o seu propósito de vida. No entanto, quando estava pronta para ingressar na faculdade e no mercado tradicional, a chegada inesperada da pandemia interrompeu seus planos e a forçou a tomar uma decisão que mudaria para sempre a sua realidade: transformar suas dificuldades na engrenagem principal de sua própria virada de chave.

A maternidade trouxe um novo significado para os planos de Alda, e o nascimento de sua filha, Ariela, foi o grande incentivo para dar um passo além. Determinada a se especializar em uma técnica inovadora de clareamento estético, ela encontrou no carinho e no apoio de sua mãe o empurrãozinho que faltava: com o cartão emprestado por ela, Alda conseguiu investir no curso que tanto desejava. Ao compartilhar os resultados e o seu pioneirismo nas redes sociais, o trabalho ganhou o coração do público, abrindo de vez as portas para a realização de seu próprio espaço físico.
“A minha virada foi ver que eu poderia ter tempo de qualidade com a minha filha. O empreendedorismo me trouxe liberdade de horário e de tempo para estar com a minha família”, relembra Alda.
Acolhimento Real e Padrão de Excelência
O atendimento na Gaia é milimetricamente pensado para romper as barreiras invisíveis do preconceito territorial e financeiro. Do café quentinho na recepção aos kits de higiene no banheiro, tudo é planejado para que a mulher da favela sinta que merece o melhor. Ali, as clientes não são apenas clientes; são chamadas de “Visionárias”.
“Na maioria das vezes elas querem apenas desabafar, ter alguém para chorar, falar sobre seus pesos e se sentirem cuidadas. Quando estão aqui, elas se sentem mulheres, e não mães, esposas ou aquela que cuida de todos”, pontua a esteticista, que transformou a maca de atendimento em um altar de autoestima e saúde mental.

Resistência na Vila Cruzeiro
Empreender na periferia exige uma resiliência que o asfalto não testa. Alda recorda com dor os impactos de uma forte chacina que paralisou a Vila Cruzeiro, deixando o comércio fechado por dias e resultando em um fim de ano atipicamente fraco e triste para os moradores. Mesmo diante das dificuldades impostas pela realidade do território, ela se recusa a deixar a comunidade que ela ama tanto.
“O que mantém a gente aqui é acreditar que a gente pode, de alguma maneira, salvar alguém. Quero trazer um atendimento de máxima qualidade para esse público aqui dentro. Quero que elas pensem: mesmo dentro da comunidade, eu posso viver uma experiência excelente e acolhedora. Eu faço questão de trazer isso para cá.”
Multiplicando Saberes: Mais de 200 Mulheres Impactadas
O sucesso nas macas logo se transformou em missão nas salas de aula. Através de seus cursos e palestras, Alda já formou mais de 200 mulheres, capacitando-as para que conquistem suas próprias rendas e assumam o controle de suas vidas. Para ela, reter o aprendizado nunca foi uma opção.
“Todo conhecimento não é só para mim. Eu sou porque nós somos, e eu preciso passar para outras mulheres tudo o que eu aprendi para que elas possam sonhar como eu sonhei um dia”, afirma a educadora. Essa corrente de afeto e profissionalização transformou a Gaia em um polo gerador de autonomia para quem antes não via saídas para trabalhar e cuidar dos filhos ao mesmo tempo.

O Ecossistema “Visionária”: FBB e Podcast
Dessa veia transformadora nasceu o Congresso FBB (Favela Beauty Business). O projeto tomou proporções tão grandes que hoje não se limita à beleza: capacita e conecta desde “a moça que começou com uma barraca” até o “lojista que já está no mercado há anos”, fomentando todo o comércio de favela. Para dar ainda mais eco a essas histórias de superação, ela lançou o podcast Papo de Visionária, atuando como host e provando que a favela não é sinônimo apenas de tragédia, mas sim de potência máxima.
Olhando para o futuro, o maior sonho de Alda é expandir a Gaia para um espaço totalmente inclusivo e adaptado, onde as mães possam realizar seus procedimentos estéticos sem pressa, sabendo que seus filhos estão se divertindo em uma área infantil segura logo ao lado. Seu desejo é que esse trabalho alcance outras visionárias de outras periferias do Estado.
Para as mulheres da Vila Cruzeiro que sonham em mudar de vida, ela deixa o recado final: “Vivam seus sonhos, não tenham medo. O medo nos paralisa, e quem paralisa não vive o extraordinário. Façam o hoje acontecer, tenham fé, persistam e sejam resilientes!”
