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O futebol que revela craques pede socorro

Projetos sociais em comunidades do Rio formam talentos, afastam jovens da violência, transformam vidas, mas sobrevivem com poucos recursos e quase nenhum apoio.

Foto: Uendell Vinícius / Voz das Comunidades
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Falta pouco para o início da Copa do Mundo de 2026. E neste mês, os olhos do planeta estarão voltados para os gramados dos Estados Unidos, Canadá e México. Milhões serão investidos em transmissões, publicidade e estruturas para o maior evento do futebol mundial. Mas nas favelas cariocas a realidade é outra. Projetos que mantêm vivo o sonho de milhares de crianças e adolescentes seguem enfrentando dificuldades para comprar bolas, coletes e até garantir um lanche após os treinos.

Enquanto a Secretaria Municipal de Esportes destaca o papel das Vilas Olímpicas na formação esportiva e no incentivo ao futebol, dezenas de iniciativas comunitárias continuam funcionando graças ao esforço de moradores, voluntários e doações. São projetos que muitas vezes revelam talentos, mas que, acima de tudo, oferecem oportunidades, acolhimento e perspectivas de futuro.

Foto: Reprodução

Na Fazendinha, no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio, o Projeto Elite nasceu justamente para preencher uma ausência. Segundo o coordenador Webert Machado, conhecido como Betinho, a iniciativa surgiu a partir da possibilidade de utilizar um campo da comunidade para atender crianças que não tinham acesso a nenhuma atividade esportiva. A maior dificuldade, segundo ele, continua sendo a falta de recursos financeiros. “Não temos ajuda para comprar materiais e oferecer lanche para as crianças. Como os treinos acontecem à noite, muitos chegam direto da escola e com fome”, relata.

Sem apoio público ou privado permanente, o projeto segue funcionando graças ao esforço de quem acredita na iniciativa. Mais do que ensinar futebol, a proposta busca oferecer uma alternativa para jovens que convivem diariamente com situações de vulnerabilidade. “O futebol representa um escape. É uma maneira de manter nossas crianças longe de escolhas erradas e ocupadas com algo positivo”, afirma.

A alguns quilômetros dali, outra história reforça a mesma realidade. Fundado em 2018 no Pavão-Pavãozinho e no Cantagalo, o Projeto Acolher começou com apenas 16 crianças, uma bola furada e sem recursos para equipamentos básicos. “Era um time de camisa e outro sem camisa. A bola precisava ser enchida o tempo todo”, lembra Daniel Souza, um dos fundadores do projeto e bicampeão mundial de beach soccer pela seleção brasileira.

Hoje, a iniciativa atende cerca de 480 famílias e expandiu suas atividades para além do futebol, oferecendo modalidades como judô, basquete, vôlei e ginástica. Mesmo assim, a principal dificuldade continua sendo a mesma. “Somos um projeto sem fins lucrativos. Sobrevivemos de doações de pessoas físicas e algumas empresas parceiras. Ainda não temos acesso a leis de incentivo ou apoio governamental”, explica.

Daniel conta que parte das atividades é mantida por uma parceria com a área de responsabilidade social do Flamengo, que contribui com profissionais e materiais esportivos. Ainda assim, os desafios permanecem.

Para o fundador do projeto, o futebol continua sendo uma poderosa ferramenta de transformação social. Além da paixão pelo esporte, muitas crianças enxergam nos gramados uma possibilidade concreta de mudar suas vidas. “Eles veem o futebol como uma oportunidade de trabalho e de construir um futuro diferente”, diz.

Mas ele também faz uma reflexão sobre a distância entre o espetáculo do futebol profissional e a realidade dos projetos sociais. “O futebol usa os projetos sociais para encontrar grandes talentos, mas quase não retribui. Os clubes poderiam olhar mais para essas iniciativas e fortalecer quem está formando essas crianças antes que elas cheguem aos grandes centros.”

A fala encontra eco em diversas comunidades. Afinal, muitos dos jogadores que brilham nos grandes estádios começaram em projetos semelhantes, organizados por moradores que transformaram campos improvisados em espaços de oportunidade.

Foto: Reprodução

O sonho de vestir a camisa da seleção brasileira não existe apenas na televisão. Ele também está presente na rotina de crianças e adolescentes que treinam diariamente em projetos esportivos espalhados pela cidade. Aluno da Vila Olímpica Jorginho da SOS, no Complexo do Alemão, Pedro Lopes, de 7 anos, acompanha a expectativa pela Copa do Mundo e acredita no sucesso da seleção brasileira. “Eu acho, sim, que o Brasil tem chance de ser campeão. Tem bons jogadores para isso. Acredito que o Vinícius Júnior deve ser o melhor jogador do time na Copa, porque ele já foi até o melhor do mundo”, afirma.

Para Pedro, que além de praticar  o esporte  na vila olímpica também integra a equipe sub 7 do Madureira Esporte Clube, o futebol também é sinônimo de amizade e diversão. “Gosto muito de jogar com meus amigos, ajudar meu time e fazer gol. Adoro dar dribles”, conta. Já Kayke dos Santos, de 15 anos, aluno da Vila Olímpica Apolinho, na Gamboa, divide sua rotina entre os treinos do projeto e as competições pelo America Football Club. O objetivo é claro: seguir evoluindo para, quem sabe, alcançar o futebol profissional. “Consigo ter mais treinos, melhorar a parte física e conviver com outros meninos que também querem evoluir. Isso ajuda muito no meu desenvolvimento”, diz o adolescente, que sonha em um dia defender a seleção brasileira.

Para quem acompanha essa realidade de perto, o potencial existe. O que falta é investimento. “Gostaríamos que olhassem um pouco mais para as nossas comunidades, porque existem muitas coisas boas aqui”, resume Betinho.

A Copa é o símbolo máximo do futebol. Mas, nas favelas, o verdadeiro campeonato acontece todos os dias. É disputado em quadras comunitárias, campos de terra e espaços improvisados, onde a vitória não é levantar uma taça, mas garantir que uma criança tenha a chance de sonhar. E, para muitos projetos sociais, continuar existindo já é uma conquista digna de título mundial.

 

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