No Complexo do Alemão, a trancista Natália dos Santos vem mostrando a força do empreendedorismo na região. Aos 32 anos, já possui o próprio salão na comunidade e conta que enxergou no trabalho uma forma de mudar a autoestima de outras pessoas. “Muitas meninas pretas chegam com a autoestima baixa. Quando eu termino o cabelo e elas se veem no espelho, elas reconhecem a beleza delas. É gratificante”, conta.
Enquanto Natália conversa com o Voz das Comunidades, crianças param em frente ao salão para observá-la. “Já falaram que eu sou inspiração. Eu poderia estar fazendo mil coisas, moro em comunidade, mas me veem trabalhando aqui e me veem como referência”, diz a trancista. Para chegar neste lugar, ela passou por desafios.
Antes de entrar no ramo da beleza, Natália era costureira e foi mandada embora. Na época, já trançava o próprio cabelo e encontrou uma oportunidade de transformar o talento em carreira. Hoje, as especialidades dela são twist, box braids, boxeadora e gypsy braids. “Elas estão muito em alta, muita gente vem procurar por elas. Falam que eu sou muito perfeccionista com a divisão, e eu sou. Gosto dos detalhes.”

Salão se torna exemplo de sucesso no território
Trancista desde 2016, Natália começou atendendo a domicílio. Com o tempo, ela conseguiu abrir o salão onde era o bar de seu pai. “Estava fechado, ele não usava mais. Eu cheguei e falei: ‘Posso ficar aqui?’, e aconteceu. Fiz uma pequena reforma para atender meus clientes. Ter um salão é uma grande responsabilidade, mas é gratificante.”
As clientes encontram no salão um espaço de renovação, mas também de acolhimento. “Recebendo minhas clientes, elas se sentam na cadeira e ficam muito à vontade. A gente acaba se tornando também uma psicóloga. Em muitas histórias, acabei descobrindo que várias possuem problemas de autoestima, como eu.”

Natália explica que levou anos para se enxergar a própria beleza. “Antigamente eu não me aceitava tanto. Eu sempre usei alguma coisa no cabelo. Não que eu tenha deixado de usar, mas a minha relação se aperfeiçoou com as tranças. Meu trabalho me ajudou muito a aumentar a minha autoestima e a de outras pessoas.”
Inspirações da vida real
Referência no território, ela reconhece outras pessoas que a inspiram. “Eu acompanho muito o Brabo das Tranças, o trabalho dele é impecável. Tem as gringas, onde encontro referências, mas tem minhas amigas, que não são muito conhecidas. Aqui no Alemão tem a Miriam, que faz as unhas, tem a Tailane e Mayra, que fazem sobrancelha, que são todas mulheres negras e eu me inspiro em todas elas”, conta, citando moradoras do Alemão.
Atendendo na Caixa Branca, na região da Central, no Complexo do Alemão, Natália brinca que o salão se tornou ponto de referência para chegar até a região. “Qualquer pessoa que precisa chegar nessa parte do morro, como quem trabalha com material de obra, é só perguntar onde fica o Salão da Nath. Todo mundo conhece.”
Planos para o futuro
Futuramente, ela deseja abrir um novo salão no início do CPX. “É pelo fato de ter um acesso melhor, porque aqui em cima pode ser um pouco escondido. Quero colocar outras pessoas para trabalharem comigo.”

