Toda cidade brasileira guarda, em suas ruas, arquiteturas e manifestações culturais, as marcas profundas da presença e da resistência africana. No entanto, muitas dessas histórias permanecem invisibilizadas pelo tempo e pela falta de fomento. Para mudar esse cenário, foi anunciado no Rio de Janeiro o lançamento do edital Rede Memória Viva, uma iniciativa nacional que vai identificar, conectar e fortalecer territórios que preservam a herança afro-brasileira em diferentes regiões do país.
O anúncio ocorreu durante o Festival Feira Preta e marca um passo decisivo para a consolidação do afroturismo e da memória negra institucionalizada. O projeto é uma expansão direta da experiência bem-sucedida na Pequena África carioca, na região portuária do Rio, e busca descentralizar esse modelo de salvaguarda patrimonial.
Autonomia e escuta comunitária
Nesta primeira etapa, o edital selecionará quatro territórios para receber apoio financeiro, fortalecimento institucional e capacitações voltadas ao desenvolvimento do afroturismo. O grande diferencial da iniciativa é o respeito à autonomia de cada localidade: não há fórmulas prontas; são os moradores e lideranças locais que definem suas prioridades.
Segundo Marcos Motta, assessor técnico da presidência do BNDES instituição que apoia financeiramente o projeto , o desenho da ação parte obrigatoriamente da escuta ativa.
“São as comunidades e os territórios que vão apontar o que desejam fortalecer e preservar”, destacou Motta durante a apresentação.
A Rede Memória Viva é fruto da articulação do Consórcio Viva Pequena África, composto por três organizações fundamentais na engrenagem da cultura e do empreendedorismo negro no país: o Centro de Articulação de Populações Marginalizadas (CEAP), a Diáspora Black e a Feira Preta.

O valor econômico da excelência negra
Além do resgate histórico, o projeto joga luz sobre a sustentabilidade financeira e o impacto econômico que a cultura e o turismo de base comunitária geram. A fundadora da Feira Preta, Adriana Barbosa, ressaltou a urgência de reconhecer a dimensão econômica desses projetos e de desatrelar a produção cultural negra da lógica da escassez:
“A gente pode entregar a nossa excelência, mas a nossa excelência custa. É preciso que haja muito investimento e a gente precisa falar que investimentos em projetos negros custam milhões”, afirmou Adriana.
Alinhado a essa visão, Antonio Pita, da Diáspora.Black, reforçou que o edital cumpre o papel de criar uma teia nacional de conexões. Para ele, estimular essa articulação entre territórios que preservam a memória afro-brasileira é o caminho para ampliar de forma estruturada os investimentos e qualificar o afroturismo como um vetor de desenvolvimento socioeconômico real.
Próximos passos
O encontro de lançamento contou ainda com a mediação de Jorge Freire (superintendente de educação e territórios do Instituto Moreira Salles) e com a presença de Ele Semog (presidente do CEAP), reforçando o caráter educativo e institucional da rede.
O mapeamento promovido pelo edital também servirá como um diagnóstico inédito de espaços de resistência, patrimônios culturais e organizações comunitárias em vários estados. As diretrizes de inscrição e o cronograma detalhado do edital Rede Memória Viva serão divulgados ao longo de 2026.
