Ir para o conteúdo

‘Meu filho é inocente’; Família do Complexo do Alemão denuncia prisão injusta de jovem negro após abordagem policial

Victor Teixeira, de 18 anos, foi confundido com assaltantes, segundo a família, após ação da PM em ônibus na Zona Norte; imagens mostram sequência de fatos que mostram que ele era apenas passageiro

Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades
Ouça este conteúdo
00:00 00:00
Leitura pronta para iniciar

O dia 16 de setembro de 2025 vai ficar marcado para sempre na memória da família Teixeira. O jovem Victor Teixeira da Silva, de 18 anos, foi preso por engano, segundo familiares, após uma abordagem da Polícia Militar a um ônibus da linha 621 (Penha – Saens Peña), quando foi confundido com um dos suspeitos de um assalto ocorrido momentos antes.

De acordo com o advogado da família, Jefferson Silva, quatro jovens haviam assaltado um ônibus da linha 913 (Del Castilho – Fundão) por volta das 20h30, na Avenida dos Democráticos. Na fuga, os infratores entraram no ônibus 621 — dois pela frente e dois pela porta traseira — o mesmo coletivo em que Victor já estava. Minutos depois, a polícia interceptou o veículo e retirou alguns suspeitos à força. Victor, que estava no fundo do ônibus, que não apresentou qualquer ação suspeita, foi puxado pela camisa e detido, sem demonstrar qualquer resistência.

Segundo o advogado, as imagens das câmeras de segurança do ônibus 621 comprovam a sequência dos fatos:

  • 20h32min21s: Victor embarca pela porta traseira, junto com um grupo.
  • 20h33min50s: Novos passageiros entram pela frente; um casal não passa pela catraca.
  • 20h34min03s: Outros passageiros forçam a porta traseira e entram no coletivo.
  • 20h34min41s: Viatura da PM intercepta o ônibus pela contramão.
  • 20h35min30s: Policial entra pela parte traseira e segue para o fundo do veículo.
  • 20h35min54s: O casal que entrou 20h33min50s pela porta da frente é detido e algemado.
  • 20h36min42s: Um terceiro suspeito é retirado do ônibus.
  • 20h37min03s: Um dos passageiros que forçou a porta traseira às 20h34min03s desembarca do ônibus sem impedimento policial.
  • 20h37min08s: Victor é puxado pela camisa e retirado à força do ônibus pelo policial.
  • 20h37min16s: Do lado de fora, ele tenta explicar que não tem relação com os suspeitos.
  • 20h40min31s: O coletivo é liberado para seguir viagem.

A promotora de Justiça Luciana Cristina Buarque de Tavares Maia, do Ministério Público, solicitou o chamamento dos envolvidos no caso. No documento, consta que um simulacro de arma de fogo foi encontrado dentro do ônibus, próximo aos passageiros que forçaram a porta. Victor, que tinha entrado no ônibus cerca de dois minutos antes, estava sentado próximo a eles.

Família busca justiça

Victor é morador do Morro do Adeus, Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio, e participou de projetos sociais na comunidade. Estudante e trabalhador, o jovem negro nunca teve passagem pela polícia ou DEGASE. A mãe, Carla Cristina, pede justiça pelo filho. “A única coisa que eu peço é que seja feita justiça pelo Victor. Que o juiz, o promotor, o Ministério Público vejam as câmeras do 621 e percebam que ele é inocente. Meu filho não é culpado!”

A família tenta obter novas imagens de segurança que comprovem a inocência do jovem. Segundo o advogado, a empresa responsável pela linha 913, onde ocorreu o assalto, informou que as gravações foram apagadas antes do prazo legal de 30 dias, dificultando a apuração dos fatos.

Versão da PM

A equipe do Voz das Comunidades entrou em contato com a Polícia Militar do Rio de Janeiro solicitando uma nota sobre o caso. A princípio, as informações enviadas dizem que “de acordo com o comando do 22º BPM (Maré), policiais militares foram alertados que havia um roubo em um coletivo e abordaram o veículo na Avenida dos Democráticos, em Bonsucesso, na terça-feira (16/09). Ao todo, cinco suspeitos de envolvimento na ocorrência foram conduzidos à 21ª DP. Com eles foram apreendidos um simulacro de pistola e nove aparelhos celulares.”

Entretanto, os agentes não explicaram o que os levou a acreditar que o jovem Victor Teixeira tivesse envolvimento com os infratores, resultando em sua detenção. Atualmente, Victor está preso em Magé, e sua família busca provar sua inocência desde então.

Foto: Uendell Vinicius / Voz das Comunidades

O caso de Victor Teixeira não é isolado. Segundo o Observatório Nacional dos Direitos Humanos, divulgado em fevereiro de 2025, 75% das pessoas presas sem julgamento no Brasil são negras. Um episódio semelhante aconteceu em abril deste ano com três jovens do Morro do Tuiuti, na Zona Norte do Rio, sendo dois deles negros. Eles foram detidos acusados de roubo, sem provas concretas, após confusão com um taxista. Eles ficaram presos durante quase dois meses, até que a justiça reconheceu o erro e os colocou em liberdade. Esses casos e dados escancaram o racismo estrutural que atravessa o sistema penal brasileiro, onde a cor da pele muitas vezes pesa mais que a prova.

Edição e revisão: Jonas di Andrade

Eleições 2026: tudo o que você precisa saber antes de votar. Um guia prático antes das urnas.Acessar a cartilha